O Fórum João Mendes estava cercado por jornalistas desde cedo.
Câmeras ocupavam a calçada.
Repórteres falavam ao vivo.
Carros paravam em fila diante da entrada.
O nome Almeida já não circulava apenas em colunas de negócios.
Agora aparecia em manchetes policiais.
Isabela desceu do carro ao lado de Rafael.
Vestia um conjunto escuro simples.
Sem joias.
Sem qualquer tentativa de parecer intocável.
Rafael segurou a mão dela.
"Preparada?"
Isabela olhou para a multidão.
"Não."
Ele apertou seus dedos.
"Mesmo assim, vamos."
Dentro do fórum, a tensão era diferente.
Mais silenciosa.
Mais pesada.
Augusto já estava na sala.
Sentado ao lado dos advogados.
Marcelo ocupava outra mesa.
Os dois evitavam se olhar.
Ricardo entrou depois.
Parecia envelhecido.
Helena veio por último.
Quando Isabela viu a mãe, sentiu uma dor antiga voltar.
Mas Helena não abaixou os olhos.
Dessa vez, parecia decidida.
A audiência começou.
Os advogados apresentaram documentos.
Relatórios.
Registros bancários.
Laudos.
Mas todos sabiam que havia uma prova que ninguém conseguiria ignorar.
A gravação do casamento.
Quando a tela foi ligada, Isabela sentiu o estômago se fechar.
O salão do Palácio Imperial Jardins apareceu.
Luzes.
Flores.
Convidados.
O mesmo lugar onde tudo havia começado.
Na imagem, Isabela estava sentada à mesa.
Augusto se aproximava.
O vídeo foi ampliado.
Ele olhou para os lados.
Tirou um pequeno pacote do bolso.
Abriu.
Despejou o conteúdo na taça.
Depois escondeu o papel.
Nenhum movimento parecia acidental.
Nenhum gesto podia ser explicado como distração.
O vídeo continuou.
Tereza chamava Augusto.
Ele se afastava.
Isabela trocava as taças.
Augusto retornava.
Pegava a bebida.
Bebia.
O advogado dele se levantou.
"A gravação não prova que o conteúdo do pacote era a substância encontrada no organismo do meu cliente."
Rafael estava sentado atrás de Isabela.
Ele não reagiu.
O promotor respondeu:
"Mas mostra que o senhor Augusto manipulou a bebida da irmã momentos antes."
O advogado insistiu.
"Manipular não significa adulterar."
Então veio a segunda prova.
O áudio captado por um dos microfones da equipe de fotografia.
A sala inteira ficou em silêncio.
Na gravação, ouviu-se a voz de Augusto.
Nítida.
Segura.
Quase divertida.
"Parabéns, irmãzinha. Minha surpresa está chegando."
Isabela sentiu um arrepio.
Depois veio sua própria voz.
"Mal posso esperar."
Por alguns segundos, ninguém falou.
A frase parecia muito diferente agora.
Antes, era provocação.
Agora, diante do vídeo e do laudo, soava como anúncio.
Augusto permaneceu imóvel.
Mas Isabela viu sua mandíbula travar.
O promotor continuou.
"Também há mensagens trocadas entre Augusto Almeida e Marcelo Ferraz nos dias anteriores ao casamento."
Uma tela mostrou as conversas.
"Fotógrafo confirmado."
"Ele fica na lateral dela."
"Preciso de pelo menos vinte minutos de imagem depois do brinde."
Outra mensagem.
"Depois do escândalo, ela não terá condições de assumir nada."
Marcelo abaixou a cabeça.
Augusto olhou para ele.
Com ódio.
Como se a culpa fosse do outro por aquelas palavras ainda existirem.
A defesa tentou interromper.
Questionou a origem do aparelho.
Questionou a cadeia de custódia.
Questionou a interpretação.
Mas então Patrícia foi chamada.
Ela caminhou até a frente sem olhar para o marido.
Augusto a acompanhou com os olhos.
Patrícia prestou compromisso.
Sentou.
O promotor perguntou:
"Senhora Patrícia Montenegro Almeida, este aparelho pertencia ao seu marido?"
"Sim."
"Como sabe?"
"Porque eu o vi usar por anos."
"Ele escondia esse telefone?"
"Sim."
"Da senhora?"
"De quase todo mundo."
Augusto balançou a cabeça.
Patrícia continuou.
"Ele usava para falar com Marcelo e com outras pessoas sobre assuntos que não queria no celular principal."
"Por que a senhora guardou esse aparelho?"
"Porque comecei a ter medo."
A sala ficou quieta.
"Medo de quê?"
"De Augusto."
Ele soltou uma risada curta.
Patrícia olhou para ele pela primeira vez.
"O que foi?"
Augusto não respondeu.
Ela virou novamente para o promotor.
"Eu vi meu marido manipular situações muitas vezes."
"Que tipo de situações?"
"Remédios. Reuniões. Documentos."
O advogado da defesa se levantou.
"Isso é genérico."
Patrícia respirou fundo.
"Então vou ser específica."
Ela contou sobre Ricardo.
Sobre os períodos de confusão.
Sobre o vídeo antigo.
Sobre o documento assinado enquanto ele mal conseguia manter os olhos abertos.
Ricardo ficou rígido.
Isabela olhou para ele.
O pai não desviou.
Depois vieram os registros financeiros.
As empresas de fachada.
Os pagamentos.
As transferências.
Os contratos sem serviço comprovado.
R$ 46 milhões.
Linha após linha.
Conta após conta.
Marcelo começou a suar.
Seu advogado falava baixo no ouvido dele.
Augusto parecia cada vez mais irritado.
Até que o promotor mostrou uma das mensagens.
Marcelo:
"Precisamos tirar ela do conselho antes da auditoria."
Augusto:
"Depois do casamento, ninguém vai confiar nela."
Isabela sentiu algo dentro dela se acalmar.
Durante dias, tentaram transformá-la na culpada.
Agora aquelas palavras estavam sendo lidas diante de todos.
Sem família para esconder.
Sem sala de conselho para manipular.
Sem mãe para suavizar.
Então Helena foi chamada.
Augusto levantou a cabeça.
Pela primeira vez naquela manhã, parecia realmente preocupado.
Helena caminhou devagar.
Sentou.
As mãos tremiam.
O promotor começou.
"Senhora Helena Almeida, a senhora auxiliou Marcelo Ferraz a entrar no prédio do Grupo Almeida na noite em que arquivos foram apagados?"
Ela respirou fundo.
"Sim."
Ricardo fechou os olhos.
"Por quê?"
"Porque Augusto me disse que existiam documentos falsos contra ele."
"Ele pediu diretamente?"
"Sim."
"Sabia que utilizariam o acesso de Isabela?"
"Não."
"Mas sabia que algo seria apagado?"
Helena demorou.
"Sabia."
Isabela ficou imóvel.
Não porque fosse novidade.
Mas porque ouvir a mãe admitir em voz alta tornava tudo definitivo.
O promotor mudou de assunto.
"A senhora também assinou, anos atrás, documento em nome de Ricardo Almeida?"
Helena começou a chorar.
"Sim."
Um murmúrio atravessou a sala.
Augusto abaixou o rosto.
"Por quê?"
"Porque eu queria garantir que Augusto recebesse a participação."
"Mesmo sabendo que o acordo original incluía os dois filhos?"
"Sim."
"Isabela também."
Helena olhou para a filha.
"Sim."
A palavra saiu quase sem voz.
Augusto se mexeu na cadeira.
O promotor perguntou:
"Seu filho sabia?"
O advogado dele levantou imediatamente.
"Objecção."
A discussão durou alguns segundos.
Então Helena respondeu.
"Sabia."
Augusto se levantou.
"Mentira!"
Todos olharam.
O juiz ordenou:
"Senhor Augusto, sente-se."
Ele apontou para a mãe.
"Ela está mentindo para salvar a própria pele!"
Helena chorava.
"Augusto..."
"Você fez isso sozinha!"
"Você sabia."
"Prova!"
"Você me pediu para não contar."
"Prova!"
O juiz bateu na mesa.
"Senhor Augusto!"
Mas ele já tinha perdido o controle.
Virou para Patrícia.
"Você também!"
Ela permaneceu sentada.
"Eu te dei tudo!"
Patrícia respondeu:
"Não. Você me deu medo."
Augusto olhou para Marcelo.
"E você?"
Marcelo não respondeu.
"Vai ficar quieto?"
Nada.
Augusto riu.
Um riso alto.
Desesperado.
"Impressionante."
Ele olhou ao redor.
"Todo mundo virou santo agora."
O juiz ordenou novamente.
"Sente-se imediatamente."
Augusto ignorou.
Apontou para Ricardo.
"Você começou isso."
Ricardo ergueu os olhos.
"Eu?"
"Você me criou para assumir aquela empresa."
"Eu criei você para trabalhar."
"Mentira!"
A voz ecoou pela sala.
"Você passou minha vida inteira dizendo que eu seria o próximo."
Ricardo respondeu com calma.
"E isso te deu direito de roubar?"
Augusto ficou vermelho.
"Eu fiz o que precisava."
A frase causou silêncio.
Ele percebeu tarde demais.
O promotor imediatamente perguntou:
"O que precisava?"
Augusto fechou a boca.
Mas já havia dito.
Ele virou para Isabela.
E toda a raiva encontrou um único alvo.
"Você."
Isabela permaneceu sentada.
"Você sempre apareceu quando não devia."
Rafael ficou tenso.
"Augusto."
Isabela tocou o braço dele.
"Deixa."
Augusto continuou.
"Você queria meu lugar."
"Não."
"Queria sim!"
"Não."
Ela se levantou.
"Eu nunca quis ser você."
Augusto riu.
"Agora tem as ações."
"Porque você tentou impedir."
"Você colocou todos contra mim."
Isabela olhou para Patrícia.
Para Helena.
Para Ricardo.
Depois voltou para o irmão.
"Ninguém te traiu, Augusto."
Ele ficou imóvel.
Isabela deu um passo à frente.
"Você apenas ficou sem pessoas dispostas a mentir por você."
A frase atingiu mais forte do que qualquer grito.
Augusto não respondeu.
Pela primeira vez, não encontrou argumento.
A audiência prosseguiu.
Ao fim daquele dia, Augusto deixou o fórum sob investigação por fraude, falsidade documental, manipulação de provas, associação com desvios financeiros e pelo episódio da bebida no casamento.
Marcelo também passou a responder formalmente pelas movimentações financeiras e pela invasão dos sistemas.
As câmeras cercaram os dois na saída.
Augusto tentou esconder o rosto.
Marcelo não disse uma palavra.
Isabela saiu por outra porta.
Helena esperava perto do corredor.
"Isabela."
Ela parou.
A mãe parecia destruída.
"Eu sei que não tenho direito de pedir nada."
Isabela permaneceu em silêncio.
"Mas eu precisava dizer a verdade."
"Precisava."
"Eu devia ter feito antes."
"Devia."
Helena começou a chorar.
"Eu perdi vocês."
Isabela respirou fundo.
"Não sei ainda o que você perdeu."
Não havia perdão naquele momento.
Mas também não havia ódio.
Só consequência.
Na manhã seguinte, o Grupo Almeida divulgou comunicado anunciando auditoria independente, afastamento de Augusto e Marcelo de todas as funções e revisão completa dos contratos dos últimos anos.
Ricardo cancelou todas as reuniões.
No fim da tarde, ligou para Isabela.
"Pode vir ao meu escritório?"
Ela hesitou.
"Agora?"
"Agora."
Quando chegou, o andar estava quase vazio.
Ricardo esperava sozinho.
A sala parecia diferente sem assessores e executivos.
Mais simples.
Mais humana.
Isabela entrou.
"Você queria falar comigo."
Ricardo assentiu.
Sobre a mesa havia apenas um envelope antigo.
Amarelado nas bordas.
O nome de Isabela estava escrito à mão.
Ela parou.
"O que é isso?"
Ricardo tocou o envelope.
"Uma coisa que eu deveria ter entregado há muito tempo."
Isabela sentou.
"Tem a ver com as ações?"
"Também."
"Com meu avô?"
"Não exatamente."
Ricardo levantou os olhos.
Havia algo diferente neles.
Orgulho.
Culpa.
E uma tristeza antiga.
"Ainda falta você saber por que escolhi você."