《Meu Irmão Mexeu Na Minha Taça… Então Eu Troquei As Nossas》Parte 8

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Isabela chegou à casa dos Almeida pouco antes das oito da manhã.

Dessa vez, não tocou a campainha.

Não avisou.

Não perguntou se Helena estava em casa.

Entrou carregando apenas o celular e uma certeza que ainda parecia impossível.

Encontrou a mãe na sala de jantar.

Helena tomava café diante de uma mesa grande demais para uma pessoa.

Quando viu a filha, pousou a xícara.

"Você veio cedo."

Isabela não respondeu.

Caminhou até a mesa.

Colocou o celular diante dela.

"Assiste."

Helena olhou para a tela.

"Isabela..."

"Assiste."

Havia algo na voz da filha que a fez obedecer.

O vídeo começou.

A garagem subterrânea do Grupo Almeida apareceu.

Marcelo desceu do carro.

Depois, Helena.

Isabela observou o rosto da mãe enquanto as imagens passavam.

Nenhuma surpresa.

Nenhuma confusão.

Apenas medo.

Era tudo que precisava saber.

"Você estava lá."

Helena levantou os olhos.

"Eu posso explicar."

"Então explica."

"Não aqui."

Isabela riu sem humor.

"Essa família adora essa frase."

"Eu só quero conversar com calma."

"Eu estou calma."

E estava.

Talvez calma demais.

"Você entrou na empresa com Marcelo na mesma noite em que alguém apagou os documentos."

Helena respirou fundo.

"Sim."

"Você ajudou?"

Silêncio.

"Mãe."

Helena desviou os olhos.

"Eu não sabia exatamente o que ele faria."

Isabela sentiu a raiva voltar.

"Para."

"O quê?"

"Para de responder como se palavras fossem esconder o que você fez."

"Eu estou dizendo a verdade."

"Você entrou escondida com o diretor financeiro que está envolvido num esquema de quarenta e seis milhões."

Helena empalideceu.

"Eu não sabia desse dinheiro."

"Mas sabia que ele queria apagar alguma coisa."

"Augusto me disse que existiam arquivos falsos."

Isabela ficou imóvel.

"Augusto."

"Ele disse que você e Rafael estavam montando documentos para incriminá-lo."

"E você acreditou."

"Ele é meu filho."

Isabela fechou os olhos por um segundo.

De novo.

Sempre a mesma resposta.

"Como você entrou?"

Helena mexeu nas mãos.

"Eu ainda tenho autorização especial na garagem."

"Você liberou Marcelo."

"Sim."

"E depois?"

"Subimos."

"Até onde?"

"Vigésimo primeiro andar."

"E você ficou enquanto ele acessava o sistema?"

Helena demorou.

"Fiquei no corredor."

Isabela sentiu vontade de gritar.

Mas não gritou.

"Então você sabia."

"Eu sabia que ele precisava corrigir algumas informações."

"Apagar provas."

"Eu não sabia que eram provas."

"Usando meu usuário."

"Eu não sabia disso."

"Você sabia o suficiente."

Helena levantou-se.

"Eu estava tentando proteger nossa família."

Isabela soltou uma risada curta.

"De mim?"

"Não."

"Então de quem?"

"Do escândalo."

"O escândalo é Augusto."

"Ele cometeu erros."

"Crimes, mãe."

"Você não pode dizer isso sem julgamento."

"Ele tentou me dopar."

"Você trocou as taças."

Isabela ficou completamente imóvel.

Helena percebeu tarde demais.

"Você ainda me culpa."

"Não foi isso."

"Foi exatamente isso."

"Eu só quis dizer que..."

"Que se eu tivesse bebido, nada disso teria acontecido com ele?"

"Não."

"Que eu deveria ter aceitado?"

"Claro que não."

"Então para de falar como se sobreviver ao que ele planejou tivesse sido uma agressão contra Augusto."

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Helena levou a mão ao peito.

"Você está sendo cruel."

Isabela olhou para ela incrédula.

"Cruel?"

"Sim."

"Eu descobri que minha própria mãe ajudou duas pessoas a colocar meu nome numa invasão."

"Eu não sabia que usariam seu nome."

"Você não perguntou."

"Porque eu confiei no meu filho."

"E eu?"

Helena se calou.

Isabela aproximou-se.

"Por que é tão fácil confiar nele e tão difícil acreditar em mim?"

"Não é."

"É desde que eu nasci."

"Isso não é verdade."

"Então me diz."

A voz dela ficou baixa.

"Por que Augusto sempre teve direito ao benefício da dúvida e eu sempre tive obrigação de entender?"

Helena respirou fundo.

"Porque as responsabilidades dele sempre foram diferentes."

"Por ser homem?"

"Não transforme isso numa coisa que não é."

"Então fala o que é."

Helena caminhou até a janela.

"Augusto foi criado para assumir o grupo."

"Por quem?"

"Por nós."

"Exatamente."

"Seu pai também pensava assim."

"Meu pai mudou."

"E olha o que aconteceu."

Isabela franziu a testa.

Helena continuou.

"Essa empresa existe há décadas."

"Eu sei."

"Ela precisa de continuidade."

"E eu não sou continuidade?"

Helena demorou demais para responder.

Isabela sentiu a resposta antes de ouvi-la.

"Você se casou."

O silêncio ficou pesado.

"Repete."

Helena virou.

"Você agora tem sua própria família."

Isabela quase não acreditou.

"E Augusto não?"

"É diferente."

"Por quê?"

"Porque ele continua sendo Almeida."

"Eu também."

"Legalmente, sim."

Isabela sentiu o rosto queimar.

Helena percebeu que tinha ido longe demais.

Mas continuou.

"Você agora é Isabela Almeida Vasconcelos."

"E?"

"E suas prioridades naturalmente vão mudar."

"Porque tenho marido."

"Porque construiu outra família."

Isabela soltou uma risada sem alegria.

"Augusto é casado com Patrícia."

"Não é a mesma coisa."

"Por quê?"

Helena perdeu a paciência.

"Porque ele é o filho homem."

Finalmente.

A frase ficou entre as duas.

Crua.

Sem desculpa.

Sem elegância.

Isabela olhou para a mãe durante vários segundos.

"Então é isso."

Helena tentou voltar atrás.

"Não simplifique."

"Você acabou de simplificar minha vida inteira."

"Eu fui criada assim."

"E escolheu continuar."

"Você não entende a geração de onde eu venho."

"Eu entendo perfeitamente."

Isabela respirou fundo.

"Você aprendeu que filho homem recebe o patrimônio e filha aprende a não incomodar."

Helena balançou a cabeça.

"Não fale assim."

"Que filha ajuda o irmão a crescer."

"Não."

"Que filha resolve o problema."

"Isabela."

"Que filha sorri na foto."

Helena começou a chorar.

"E quando ela casa, passa a pertencer a outro homem."

"Eu nunca disse isso."

"Não precisou."

A voz de Isabela falhou pela primeira vez.

"Você mostrou."

Helena tentou tocar nela.

Isabela afastou a mão.

"Eu passei a vida inteira tentando merecer um lugar numa família que já tinha decidido que eu valia menos."

Helena ficou sem reação.

Isabela sentiu as lágrimas chegarem.

Não as impediu.

"Eu trabalhei mais."

"Isa..."

"Eu fiquei calada mais."

"Filha..."

"Eu perdoei mais."

A voz dela tremeu.

"E ainda assim, quando chegou a hora de escolher entre acreditar em mim ou proteger Augusto, você entrou num carro com Marcelo."

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Helena chorava.

"Me perdoa."

"Eu não consigo."

"Eu sou sua mãe."

"Foi exatamente por isso que doeu."

Isabela pegou o celular.

Helena segurou seu braço.

"Não conta para seu pai ainda."

Ela virou lentamente.

"O quê?"

"Por favor."

"Você ainda quer esconder."

"Ricardo não vai suportar."

"Você não está protegendo meu pai."

"Estou."

"Não."

Isabela soltou o braço.

"Você está tentando ganhar tempo para Augusto."

Saiu sem olhar para trás.

No carro, ficou quase dez minutos sem ligar o motor.

As mãos tremiam.

As lágrimas vieram com força.

Dessa vez, ela deixou.

Quando finalmente conseguiu respirar, o celular tocou.

Patrícia.

Isabela quase ignorou.

Atendeu.

"Fala."

"Preciso te entregar uma coisa."

"Agora?"

"Agora."

"Por quê?"

Patrícia ficou alguns segundos em silêncio.

"Porque Augusto descobriu que falei com você."

Isabela sentou mais ereta.

"Ele fez alguma coisa?"

"Não ainda."

"Onde você está?"

"Na Vila Madalena."

"Me manda a localização."

Quarenta minutos depois, Isabela e Rafael encontraram Patrícia no apartamento de uma amiga.

Ela tinha duas malas perto da porta.

"Você vai embora?"

"Já fui."

"Augusto sabe?"

"Vai descobrir."

Patrícia colocou um aparelho sobre a mesa.

Não era o celular antigo.

Era outro.

Mais novo.

"Isso era dele."

Rafael pegou.

"Senha?"

"Eu sei."

"Augusto não percebeu que sumiu?"

"Ele achava que eu nem sabia que existia."

Patrícia desbloqueou o aparelho.

Havia dezenas de conversas.

Algumas com nomes.

Outras com iniciais.

Rafael abriu uma com Marcelo.

As mensagens eram antigas.

Pagamentos.

Valores.

Empresas.

Ordens.

Isabela sentiu o estômago embrulhar.

Depois apareceram mensagens da semana do casamento.

"Fotógrafo confirmado."

"Ele fica na lateral dela."

"Preciso de pelo menos vinte minutos de imagem depois do brinde."

Outra mensagem.

"Se ela fizer discurso, melhor."

Outra.

"Depois mandamos primeiro para dois conselheiros. A imprensa vem depois."

Isabela fechou os olhos.

Ali estava.

O plano inteiro.

Sem interpretação.

Sem dúvida.

Rafael continuou descendo.

Havia transferências.

Nomes de fornecedores.

Contas.

Orientações para apagar mensagens.

Então ele parou.

"Olha isso."

Isabela aproximou-se.

A conversa era de quase dois anos antes.

Marcelo perguntava:

"Você tem certeza de que o documento não pode voltar para auditoria?"

Augusto respondia:

"Meu pai nem lembra daquele dia."

Marcelo:

"E se pedir perícia?"

Augusto:

"Não vai pedir."

Algumas mensagens abaixo, havia outra.

Marcelo:

"Helena sabe?"

Augusto:

"Ela sabe só o necessário."

Isabela sentiu um arrepio.

Rafael continuou.

Então apareceu a frase.

Augusto havia escrito:

"Se meu pai descobrir quem realmente assinou aquilo, acabou."

Rafael ficou imóvel.

Patrícia perdeu a cor.

Isabela leu novamente.

"Quem realmente assinou."

Ela olhou para Patrícia.

"Você sabe do que eles estavam falando?"

"Não."

"Tem algum documento anexado?"

"Eu nunca encontrei."

Rafael verificou a conversa.

Nada.

Nenhuma fotografia.

Nenhum arquivo.

Apenas uma resposta de Marcelo.

"Então garanta que ele continue acreditando que foi ele."

Isabela sentiu o coração acelerar.

Ricardo acreditava que algumas assinaturas eram dele.

Augusto queria que continuasse acreditando nisso.

Mas aquelas mensagens diziam outra coisa.

Ela olhou para Rafael.

"Se meu pai não assinou..."

Rafael terminou:

"Alguém assinou no lugar dele."

E agora a pergunta capaz de desmontar tudo não era mais o que Augusto tinha escondido.

Era quem, dentro daquela família, havia colocado a própria assinatura no documento que ele tinha tanto medo de revelar.

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