Às oito e quinze da manhã, o prédio do Grupo Almeida já estava cercado por jornalistas.
Isabela viu tudo de dentro do carro.
Microfones.
Câmeras.
Repórteres diante da entrada principal.
Rafael diminuiu a velocidade.
"Isso não estava aqui ontem."
"Não."
Isabela olhou para os celulares levantados na calçada.
"Alguém avisou a imprensa."
Rafael estacionou na garagem lateral.
Assim que saíram do elevador, encontraram dois seguranças esperando.
Um deles se aproximou.
"Senhora Isabela, o conselho já está reunido."
Ela franziu a testa.
"Reunido?"
"Sim."
"Mas a reunião é às nove."
O segurança hesitou.
"Foi antecipada."
Rafael olhou para ela.
"Por quem?"
A resposta veio de trás.
"Por mim."
Augusto caminhava pelo corredor.
Sem paletó.
Sem gravata.
Ainda um pouco pálido.
Mas muito diferente do homem que tinha saído do casamento em uma ambulância.
Não havia confusão no olhar.
Não havia fraqueza.
Só raiva.
Isabela ficou imóvel.
"Você já saiu do hospital."
Augusto sorriu.
"Sentiu minha falta?"
Rafael deu um passo à frente.
"Seu médico autorizou você a voltar?"
"Meu médico não administra minha empresa."
"Nem você por muito tempo."
O sorriso de Augusto desapareceu.
Ele olhou para Isabela.
"Então é isso?"
"Isso o quê?"
"Você decidiu tomar tudo."
Isabela quase riu.
"Eu não precisei tomar nada."
Augusto se aproximou.
"Você sempre quis meu lugar."
"Não."
"Não mente."
"Eu queria que vocês parassem de me usar para consertar seus erros."
A mandíbula dele travou.
"Hoje todo mundo vai descobrir quem realmente está cometendo erros."
Isabela sentiu o aviso.
"Do que você está falando?"
Augusto abriu a porta da sala do conselho.
"Entra."
Quase todos já estavam sentados.
Ricardo ocupava a cabeceira.
Marcelo estava à direita.
Isabela parou.
"Ele não deveria estar afastado?"
Ricardo respondeu:
"Deveria."
Marcelo cruzou as mãos sobre a mesa.
"Estou aqui porque fui convocado."
"Por quem?"
Augusto puxou uma cadeira.
"Por mim."
Rafael soltou uma risada curta.
"Você não tem autoridade para ignorar uma suspensão determinada pelo presidente do conselho."
Augusto abriu uma pasta.
"Talvez depois do que eu mostrar, ninguém aqui considere essa suspensão válida."
Os conselheiros começaram a trocar olhares.
Ricardo bateu a mão na mesa.
"Augusto, esta reunião foi convocada por mim."
"Então comece."
A voz dele estava fria.
Ricardo respirou fundo.
"Detectamos movimentações financeiras suspeitas, fornecedores sem lastro operacional e transferências que precisam ser auditadas."
Marcelo imediatamente respondeu:
"Com base em arquivos que foram adulterados."
Isabela ergueu o rosto.
Augusto abriu um documento.
"Exatamente."
Rafael se inclinou.
"O que é isso?"
"Registro de acesso."
Augusto empurrou as folhas para o centro.
"Ontem à noite, alguém entrou no servidor financeiro, apagou documentos e alterou registros."
Isabela ficou em silêncio.
Ele continuou.
"Usando o usuário de quem?"
Ninguém respondeu.
Augusto olhou diretamente para ela.
"Da minha irmã."
Um murmúrio percorreu a mesa.
Ricardo levantou a mão.
"Isso já está sendo investigado."
"Claro."
Augusto sorriu.
"Porque tudo que envolve Isabela precisa de investigação."
"Augusto."
"Mas tudo que envolve a mim já virou condenação."
Isabela cruzou os braços.
"Você colocou uma substância na minha bebida."
Ele virou o rosto lentamente.
"Tem prova?"
O salão ficou silencioso.
Rafael respondeu:
"Temos gravação do momento em que você mexe na taça."
Augusto riu.
"Mexer numa taça não significa colocar droga."
"E o exame toxicológico?"
"Mostra o que eu ingeri."
Ele apontou para Isabela.
"Não quem colocou."
Ela sentiu o sangue ferver.
"Você está dizendo que fui eu?"
"Estou dizendo que você trocou as taças."
Alguns conselheiros se mexeram.
Augusto percebeu.
Aproveitou.
"Ela mesma admitiu."
Rafael respondeu:
"Depois de ver você despejando algo no copo dela."
Augusto levantou as mãos.
"Segundo ela."
Isabela ficou olhando para o irmão.
Era isso.
Ele não estava tentando provar inocência.
Estava criando dúvida.
A mesma estratégia do casamento.
Só que agora contra ela.
Marcelo abriu outra pasta.
"Também encontramos alterações em relatórios financeiros."
Ricardo franziu a testa.
"Quais?"
"Datas modificadas."
"Por quem?"
Marcelo virou um documento.
"Usuário vinculado à nova administração societária."
Isabela sentiu o estômago apertar.
"Meu nome."
"Seu acesso."
"Eu nem tinha esse acesso antes da transferência."
Augusto respondeu:
"Mas agora tem."
"Isso foi criado automaticamente."
"Conveniente."
Ricardo bateu a mão na mesa.
"Chega."
Augusto se levantou.
"Não, pai."
A voz dele aumentou.
"Chega de proteger ela."
Isabela quase não acreditou.
"Me proteger?"
"Você transferiu uma fortuna sem consultar o conselho."
"Eram ações pessoais dele."
"Com impacto direto no controle."
"Você está com medo de perder poder."
Augusto apontou para ela.
"Eu estou com medo de entregar uma empresa para alguém que apaga provas na véspera de uma auditoria."
Rafael levantou-se.
"Essa acusação é grave."
"Então processe."
"Pode ter certeza."
Augusto sorriu.
"Ótimo."
Então olhou para os conselheiros.
"Enquanto isso, proponho o afastamento temporário de Isabela de qualquer acesso administrativo."
Isabela congelou.
Ricardo respondeu imediatamente.
"Não."
Um dos conselheiros, Sérgio Valente, levantou a mão.
"Ricardo, com todo respeito, existe um problema de governança."
Outro concordou.
"Até a origem do acesso ser esclarecida, talvez seja prudente."
Isabela olhou ao redor.
Homens que mal conhecia agora discutiam se ela era confiável.
Augusto percebeu a mudança.
"Também proponho auditoria sobre os atos dela desde a transferência."
Rafael respondeu:
"Ela nem assumiu formalmente."
"Então melhor ainda."
Marcelo falou:
"Podemos suspender antes que o dano aumente."
Isabela encarou os dois.
Agora entendia.
Eles tinham usado o ataque ao servidor para virar a investigação.
Não queriam apenas apagar provas.
Queriam transformar o apagamento em prova contra ela.
A reunião terminou sem decisão definitiva.
Mas Isabela perdeu acesso aos sistemas até nova deliberação.
Quando saiu da sala, havia mais jornalistas no térreo.
Muito mais.
Um assessor correu até Rafael.
"Já saiu matéria."
"Que matéria?"
Ele mostrou o celular.
A manchete ocupava a tela.
"Herdeira do Grupo Almeida é investigada após escândalo no próprio casamento."
Isabela sentiu o corpo ficar frio.
Rafael abriu outra notícia.
"Fonte ligada à empresa afirma que dados financeiros foram apagados por credenciais associadas à nova acionista."
Outra.
"Disputa familiar ameaça controle do Grupo Almeida."
Outra.
"Briga entre irmãos milionários chega ao conselho."
Isabela respirou fundo.
"Eles estavam esperando."
"Sim."
"Isso foi preparado."
"Foi."
O celular dela começou a vibrar sem parar.
Mensagens.
Chamadas.
Pedidos de entrevista.
Pessoas que não falavam com ela havia anos perguntando se estava bem.
Outras perguntando se era verdade.
Uma funcionária passou por ela e desviou o olhar.
Aquilo doeu mais do que deveria.
No fim da tarde, Isabela voltou à casa dos pais.
Helena estava na sala.
Sozinha.
A televisão estava ligada sem som.
A manchete com o nome da filha aparecia na parte inferior da tela.
Isabela entrou.
"Está feliz?"
Helena se levantou.
"Não fala assim."
"Você já viu?"
"Vi."
"E?"
"Você precisa se afastar."
Isabela ficou parada.
"Desculpa?"
"Temporariamente."
A palavra fez ela rir.
"Claro."
"Isabela, pensa."
"Eu estou pensando."
"Essa exposição está destruindo o nome da família."
"Meu irmão tentou me destruir no casamento."
"Isso ainda não foi provado."
Isabela sentiu algo gelar dentro dela.
"Você realmente acabou de dizer isso?"
Helena apertou as mãos.
"Eu só quero evitar que piore."
"Para quem?"
"Para todos."
"Não."
Isabela balançou a cabeça.
"Para ele."
"Augusto também está sendo atacado."
"Porque ele fez coisas."
"Você não sabe tudo."
"Você sabe?"
Helena ficou em silêncio.
Isabela deu um passo à frente.
"Você está escolhendo ele de novo."
"Não é escolha."
"É sempre escolha."
"Eu sou mãe dos dois."
"Então começa a agir como se tivesse dois filhos."
Helena respirou fundo.
"Afastar-se agora seria prudente."
"Você quer que eu saia da empresa."
"Por alguns dias."
"E deixe Augusto e Marcelo dentro."
"Até tudo se esclarecer."
Isabela soltou uma risada vazia.
"Você realmente não aprendeu nada."
Helena começou a chorar.
"Eu estou tentando salvar essa família."
"Você está tentando salvar Augusto das consequências."
Isabela virou-se.
"Não me liga pedindo para eu recuar."
"Isabela."
Ela parou na porta.
"Se você quiser falar comigo como minha mãe, fala."
Olhou por cima do ombro.
"Se for falar como advogada do Augusto, procura outro número."
Saiu.
Naquela noite, Rafael estava no escritório revisando os registros do ataque.
Isabela permaneceu no sofá, exausta.
Ele não falava havia quase vinte minutos.
Então parou.
"Encontrei uma coisa."
Ela levantou os olhos.
"O quê?"
"O acesso ao servidor foi remoto, mas alguém precisava validar a autenticação dentro da rede."
"Não entendi."
"Quem entrou usou sua credencial."
"Isso eu sei."
"Mas o sistema exigiu um terminal interno para liberar a sessão."
Isabela se levantou.
"Então alguém estava no prédio."
"Sim."
"Tem log?"
"Do servidor, não."
"Apagaram."
"Mas esqueceram uma coisa."
Rafael virou o notebook.
"O controle de acesso do prédio é separado."
Ela se aproximou.
"Portas e catracas."
"Exatamente."
Rafael abriu uma planilha.
"Às vinte e uma e quarenta e sete, Marcelo entrou pela garagem."
Isabela sentiu o coração acelerar.
"Eu sabia."
"Espera."
Ele apontou para outra linha.
"Não entrou sozinho."
"Quem?"
"Foi registrada uma segunda entrada com autorização manual."
"Nome?"
"Não consta."
"Tem câmera?"
Rafael já estava abrindo o arquivo.
A imagem da garagem apareceu.
Marcelo saiu de um carro escuro.
Caminhou até uma porta lateral.
Uma mulher desceu do banco do passageiro.
O rosto não estava claro.
"Amplia."
Rafael fez.
A imagem perdeu definição.
Mas o perfil apareceu.
Cabelo preso.
Casaco claro.
Postura rígida.
Isabela parou de respirar.
"Não."
Rafael ficou em silêncio.
Ela se aproximou ainda mais da tela.
A mulher virou o rosto por um segundo.
Foi suficiente.
Isabela reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.
Era Helena.
Sua mãe.