Ricardo assistiu ao vídeo três vezes.
Na primeira, não disse nada.
Na segunda, tirou os óculos.
Na terceira, fechou o notebook e ficou olhando para as próprias mãos.
Isabela permanecia diante dele.
Rafael estava ao lado da janela.
Patrícia tinha ido embora meia hora antes.
Ninguém parecia saber qual seria a primeira palavra possível depois daquilo.
Foi Ricardo quem quebrou o silêncio.
"Eu não lembro desse dia."
Isabela sentiu o peito apertar.
"Tem certeza?"
"Tenho."
Ele respirou fundo.
"Eu lembro de partes."
"Quais?"
"Daquela época inteira como se estivesse olhando através de uma névoa."
Isabela sentou devagar.
"Então me conta."
Ricardo encostou as costas na poltrona.
"Dois anos atrás, eu comecei a passar mal com frequência."
"Pressão."
"Era o que eu achava."
"Os médicos também."
"Os exames nunca mostravam nada grave."
Ele passou a mão pela testa.
"Mas eu tinha tontura. Sonolência. Falhas de memória."
Rafael perguntou:
"Com que frequência?"
"Algumas vezes por semana."
"E quem cuidava da sua medicação?"
Ricardo hesitou.
A resposta estava óbvia.
"Augusto."
Isabela fechou os olhos.
Ricardo continuou.
"Helena organizava os remédios, mas Augusto dizia que assumiria porque eu estava trabalhando demais."
"Você deixou."
"Ele era meu filho."
A frase saiu baixa.
Sem defesa.
Sem autoridade.
Apenas cansada.
"Eu confiava nele."
Isabela olhou para o pai.
Pela primeira vez, Ricardo Almeida não parecia o homem que dominava reuniões com quarenta executivos sem levantar a voz.
Parecia apenas um pai que descobria que a própria confiança tinha sido usada contra ele.
"Quando começou a desconfiar?"
Ricardo levantou-se.
Foi até um armário.
Retirou uma pasta antiga.
"Meses depois."
Colocou sobre a mesa.
"Uma operação imobiliária apareceu aqui."
Isabela abriu.
Havia contratos de aquisição de terrenos em Campinas.
"Eu não lembrava de ter autorizado isso."
"Mas sua assinatura estava lá."
"Sim."
"Era sua?"
Ricardo demorou.
"Parecia."
"Parecia?"
"Algumas curvas estavam erradas."
Rafael puxou o documento.
"Você mandou periciar?"
"Não naquela época."
"Por quê?"
Ricardo sorriu sem humor.
"Porque eu preferi acreditar que estava ficando velho."
Isabela sentiu uma pontada.
"Você achou que estava perdendo a memória."
"Sim."
"E Augusto deixou você pensar isso."
Ricardo baixou os olhos.
"Talvez tenha feito mais do que deixar."
Ninguém falou.
Ele abriu outra pasta.
"Comecei a guardar cópias de tudo que não lembrava ter assinado."
Havia dezenas.
Procurações.
Autorizações.
Aditivos.
Contratos.
Movimentações bancárias.
Rafael começou a folhear.
"Isso aqui é muita coisa."
"Eu sei."
"Por que não confrontou Augusto?"
"Confrontei."
Isabela ergueu o rosto.
"E?"
"Ele disse que eu estava esquecendo."
A raiva veio imediatamente.
"Claro que disse."
Ricardo continuou.
"Mostrou agendas, e-mails, reuniões."
"Podiam ser manipulados."
"Hoje eu sei."
"Na época não."
"Na época eu queria acreditar nele."
Isabela ficou em silêncio.
Ricardo olhou para ela.
"Esse foi meu maior erro."
"Não foi o único."
"Eu sei."
Ela percebeu que não precisava aumentar a voz.
A culpa dele já estava ali.
"Você também me deixou acreditar que Augusto era mais capaz."
Ricardo assentiu.
"Sim."
"Me deixou limpar as bagunças dele."
"Sim."
"Deu a ele crédito pelo meu trabalho."
"Sim."
Cada resposta parecia tirar um pedaço do homem que ele fora.
"Por quê?"
Ricardo demorou.
"Porque eu achava que família funcionava assim."
Isabela riu de incredulidade.
"Assim como?"
"O mais velho assume."
"E a mais nova conserta?"
Ricardo não respondeu.
Ela fechou a pasta.
"Augusto não virou isso sozinho."
Ele levantou os olhos.
"Eu sei."
"Vocês ensinaram."
A porta da biblioteca se abriu.
Helena entrou.
"Já chega."
Isabela virou devagar.
"Você realmente escolheu essa frase?"
Helena ignorou.
Olhou para Ricardo.
"Você não pode continuar tratando nosso filho como criminoso antes de qualquer investigação."
Ricardo ficou imóvel.
"Helena, você viu o vídeo."
"Vi."
"E ainda fala isso?"
"Ele cometeu erros, mas continua sendo nosso filho."
O silêncio foi imediato.
Isabela sentiu algo romper por dentro.
Não foi tristeza.
Foi exaustão.
Anos inteiros comprimidos em uma frase.
"Erros."
Helena virou para ela.
"Não estou diminuindo o que aconteceu."
"Está."
"Não."
"Está desde o casamento."
Helena cruzou os braços.
"Eu estou tentando impedir que essa família se destrua."
Isabela levantou-se.
"Essa família já está destruída."
"Não fale assim."
"Por quê?"
A voz dela aumentou.
"Porque incomoda ouvir?"
"Porque você está agindo com raiva."
"Eu tenho direito."
"Todos estão sofrendo."
Isabela riu.
"Todos?"
"Sim."
"Augusto também?"
"Ele é meu filho."
Foi aí.
Isabela sentiu os olhos arderem.
"E eu sou o quê, mãe?"
Helena congelou.
Rafael abaixou o olhar.
Ricardo fechou os olhos.
Isabela ficou diante da mãe.
"Eu sou o quê?"
"Isabela..."
"Não."
Ela apontou para si.
"Eu sou sua filha quando preciso entender meu irmão."
Helena empalideceu.
"Sou sua filha quando preciso manter a paz."
A voz de Isabela tremeu.
"Sou sua filha quando preciso fingir que não doeu."
"Não foi isso que eu quis dizer."
"Mas foi isso que você fez."
Helena tentou se aproximar.
Isabela recuou.
"Quando ele me humilhava, você dizia que estava sob pressão."
"Ele era muito cobrado."
"Quando ele errava na empresa, eu tinha que ajudar."
"Vocês são irmãos."
"Quando ele tentou me destruir no casamento, você disse que achou que era só para me assustar."
Helena começou a chorar.
"Eu não sabia."
"Você nunca sabe o suficiente para impedir ele."
Isabela respirou com dificuldade.
"Mas sempre sabe o suficiente para me pedir silêncio."
Helena abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Ricardo foi até a esposa.
"Chega, Helena."
Ela virou para ele.
"Você também vai ficar contra mim?"
"Isso não é contra você."
"Você quer destruir nosso filho."
Ricardo respondeu baixo:
"Eu quero descobrir o que ele fez."
"Ele pode perder tudo."
"Talvez devesse."
Helena ficou chocada.
"Ricardo."
"Ele pode ter me dopado."
A voz dele falhou.
"Pode ter usado minha assinatura."
"Você não sabe."
"Ele tentou fazer o mesmo com Isabela."
Helena ficou em silêncio.
Ricardo respirou fundo.
"Vou convocar uma reunião extraordinária do conselho."
Isabela virou o rosto.
"Quando?"
"Amanhã cedo."
Helena arregalou os olhos.
"Você não pode."
"Posso."
"Augusto ainda é diretor executivo."
"Por enquanto."
Aquelas duas palavras mudaram o ar da sala.
Ricardo continuou.
"Quero auditoria independente, bloqueio de pagamentos suspeitos e suspensão temporária de acessos."
Rafael assentiu.
"É o mínimo."
Helena olhou para Isabela.
"Era isso que você queria?"
Isabela respondeu sem hesitar.
"Eu queria ter uma família que não precisasse disso."
Helena saiu.
A porta bateu.
Ricardo permaneceu olhando para o chão.
Naquela tarde, a convocação foi enviada.
Conselheiros.
Jurídico.
Auditoria.
Diretores.
A reunião aconteceria às nove da manhã.
O assunto constava apenas como confidencial.
Isabela passou o resto do dia revisando arquivos com Rafael.
Eles separaram pagamentos.
Identificaram fornecedores.
Montaram uma linha do tempo.
Às onze da noite, o celular dela tocou.
Era Ricardo.
"Você está acordada?"
"Sim."
"Temos um problema."
Isabela se levantou.
"O quê?"
"A equipe de tecnologia detectou uma invasão."
Ela sentiu o corpo ficar tenso.
"Em qual sistema?"
"No servidor financeiro."
Rafael já tinha percebido a expressão.
"Quanto foi comprometido?"
Ricardo ficou em silêncio.
"Pai."
"Quase tudo que selecionamos para a auditoria."
Isabela sentiu um frio no estômago.
"Apagaram?"
"Sim."
"Backups?"
"Estão verificando."
"Augusto ainda tinha acesso?"
"Os acessos dele foram bloqueados."
"Marcelo?"
"Também."
Rafael pegou o próprio celular.
"Vamos para lá."
Menos de quarenta minutos depois, os três estavam no centro de tecnologia do Grupo Almeida.
Telas iluminavam a sala escura.
Dois analistas trabalhavam em silêncio.
O responsável pela área, Vinícius Moraes, veio até eles.
"Conseguimos identificar a janela da exclusão."
"Que horas?"
"Entre vinte e duas e vinte e três."
"Foi acesso externo?"
Vinícius hesitou.
"Em parte."
Isabela franziu a testa.
"Como assim?"
"Entraram pela VPN corporativa."
Rafael perguntou:
"Com credencial de quem?"
Vinícius olhou para Ricardo.
Depois para Isabela.
"Eu preciso mostrar."
Abriu um registro.
Na tela havia data, horário, endereço de acesso e usuário.
Isabela leu o nome.
Uma vez.
Depois outra.
Não fazia sentido.
"Isso está errado."
Vinícius respirou fundo.
"Verificamos três vezes."
Rafael aproximou-se da tela.
O campo do usuário estava claro.
ISABELA.ALMEIDA.ADMIN.
Ela sentiu o sangue desaparecer do rosto.
"Esse é meu acesso."
"Sim."
"Mas eu nunca usei esse sistema."
Vinícius assentiu.
"É exatamente por isso que estamos preocupados."
Isabela olhou para Ricardo.
Depois para Rafael.
Então voltou para a tela.
Alguém tinha acabado de apagar provas de um possível esquema milionário.
E tinha feito questão de deixar o nome dela no lugar do culpado.