Durante alguns segundos, ninguém na sala do conselho conseguiu dizer uma palavra.
Augusto Montenegro estava diante deles.
Em pé.
A bengala sustentava parte do peso, o rosto revelava esforço, mas ele permanecia ali.
Vivo.
Consciente.
E andando.
Ricardo continuava sentado na cabeceira da mesa.
A pasta com a proposta de afastamento definitivo estava aberta diante dele.
Augusto olhou para o irmão.
"Eu disse que pode continuar."
Ricardo se levantou lentamente.
"A reunião foi convocada por uma preocupação legítima."
"Claro."
Augusto apoiou a bengala no chão.
"Minha preocupação também é legítima."
Vitória observava tudo sem alterar a expressão.
Alberto Nogueira tentou recuperar o controle da reunião.
"Augusto, ninguém aqui desejava desrespeitá-lo."
"Vocês estavam prestes a declarar que eu não tenho capacidade física nem mental para administrar minha própria empresa."
"Nós analisamos relatórios médicos."
Augusto sorriu sem humor.
"Relatórios médicos adulterados."
O ambiente mudou.
Alguns diretores trocaram olhares.
Ricardo endureceu.
"Cuidado com acusações que você ainda não pode provar."
Augusto virou o rosto para ele.
"Interessante ouvir isso de você."
Sofia Braga levantou-se.
"Temos documentação suficiente para solicitar suspensão da votação."
Ela distribuiu algumas folhas.
"Há inconsistências em relatórios médicos, registros de acesso e autorizações internas anteriores ao acidente."
Ricardo pegou uma folha.
"Isso não prova nada contra mim."
"Eu não disse que provava."
Sofia respondeu calmamente.
"Mas prova que a decisão de hoje foi baseada em informações questionáveis."
Alberto leu os documentos.
Outro conselheiro pediu a palavra.
"Se existe dúvida sobre o prognóstico de Augusto, não podemos votar incapacidade permanente."
Ricardo olhou em volta.
"Todos viram como ele entrou."
Sua voz ficou mais dura.
"Isso não significa que esteja preparado para administrar um conglomerado."
Augusto deu um passo.
O joelho direito tremeu.
Isabela, ainda perto da porta, quase avançou.
Ele percebeu.
Fez um gesto discreto para que ela permanecesse onde estava.
Depois deu outro passo.
"Você está certo."
Ricardo pareceu surpreso.
Augusto continuou:
"Eu ainda não estou pronto para comandar tudo como antes."
Alguns diretores relaxaram.
Ricardo quase sorriu.
Então Augusto completou:
"Por isso não vou pedir controle total hoje."
O sorriso desapareceu.
"Vou reassumir minha cadeira no conselho."
Ele olhou para Alberto.
"E todas as decisões estratégicas envolvendo venda de ativos, alteração societária ou transferência de controle voltam a exigir minha aprovação."
Ricardo bateu a mão sobre a mesa.
"Você não pode simplesmente decidir isso."
Sofia respondeu:
"Pode."
Ela abriu o estatuto.
"Enquanto não houver declaração formal de incapacidade, Augusto mantém seus direitos como acionista controlador."
Vitória finalmente falou.
"Então tudo isso foi uma encenação."
Isabela olhou para ela.
Augusto também.
Vitória mantinha a mesma elegância de sempre.
Nenhum nervosismo.
Nenhuma surpresa visível.
Augusto respondeu:
"Se entrar andando na empresa que construí virou encenação, talvez vocês tenham se acostumado rápido demais com minha cadeira de rodas."
Ninguém respondeu.
A votação foi suspensa.
Em menos de quarenta minutos, Ricardo perdeu a oportunidade de transformar sua presidência temporária em controle definitivo.
Quando os conselheiros começaram a sair, os jornalistas já esperavam no térreo.
Augusto permaneceu na sala.
Assim que a porta fechou, suas pernas cederam.
Isabela correu.
Segurou seu braço antes que ele caísse.
"Eu avisei que era demais."
Augusto sentou na cadeira que Sofia havia trazido.
"Funcionou."
"Isso não transforma uma ideia ruim em uma boa ideia."
Ele respirava com dificuldade.
"Você viu a cara do Ricardo?"
Isabela tentou conter o sorriso.
"Vi."
"Valeu a pena."
"Seu corpo provavelmente discorda."
Augusto olhou para ela.
"Mas você não."
Ela ficou séria.
"Eu gostei de ver você recuperar um pedaço da sua vida."
Ele segurou a mão dela.
"Eu não teria chegado até aquela porta sem você."
Isabela apertou seus dedos.
"Então não desperdice o que conquistou tentando provar alguma coisa a cada cinco minutos."
Augusto sorriu.
"Você sempre estraga meus momentos."
"É parte do tratamento."
Pouco depois, Sofia entrou novamente.
"Temos outro problema."
Augusto voltou a ficar sério.
"O quê?"
"Bruno apareceu."
Isabela se virou.
"Onde?"
"No estacionamento."
Augusto ficou imóvel.
"Ele está sozinho?"
"Sim."
"Revistaram?"
"Sim."
Augusto demorou alguns segundos.
Depois respondeu:
"Mande subir."
Bruno entrou na sala com a barba por fazer e a mesma roupa do dia anterior.
Parecia não dormir havia muito tempo.
Augusto não ofereceu cadeira.
"Você desapareceu."
"Eu precisava descobrir quem estava usando meu nome."
"E conseguiu?"
Bruno colocou um envelope sobre a mesa.
"Parte."
Augusto não tocou.
"Primeiro explique Ricardo."
Bruno respirou fundo.
"Eu realmente me encontrei com ele."
Isabela observou Augusto.
Ele não demonstrou surpresa.
"Quando?"
"Meses antes do acidente."
"Por quê?"
Bruno olhou diretamente para ele.
"Porque você mandou."
Augusto franziu a testa.
"Eu?"
"Você não lembra?"
"Depois do acidente, algumas coisas ficaram confusas."
Bruno abriu o envelope.
Retirou uma cópia antiga de uma mensagem criptografada.
Augusto reconheceu seu próprio código interno.
"Você me pediu para investigar movimentações na Montenegro Infraestrutura."
Augusto leu.
A memória começou a voltar.
"Eu não confiava na auditoria."
"Exato."
Bruno apontou para o documento.
"Você achava que Ricardo podia estar desviando dinheiro."
"Por isso você se aproximou dele."
"Eu precisava descobrir se ele estava sozinho."
Augusto ergueu os olhos.
"E estava?"
Bruno hesitou.
"Não."
O silêncio pesou.
Isabela perguntou:
"Quem mais?"
"Eu ainda não tinha certeza."
Bruno tirou outra pasta.
"Por isso desapareci. Quando vi meu nome ligado ao Instituto Horizonte, entendi que alguém estava montando uma história."
Sofia examinou os papéis.
"Essas transferências usaram sua antiga empresa."
"Sim."
"Como conseguiram acesso?"
"Eu deixei a empresa formalmente inativa, mas mantive procurações antigas com um escritório terceirizado."
Bruno passou a mão pelo rosto.
"Alguém reativou movimentações sem meu conhecimento."
Augusto permaneceu frio.
"Conveniente."
Bruno não recuou.
"Eu sabia que você diria isso."
"Meu nome apareceu em relatórios falsos. O nome do Ricardo apareceu na troca do carro. Agora seu nome aparece no dinheiro."
Augusto apontou para todos os documentos.
"Alguém está colocando cada pessoa em quem confiei contra mim."
Bruno assentiu.
"Essa é exatamente a estratégia."
Isabela pegou a fotografia supostamente feita antes do acidente.
"A data foi alterada."
Bruno olhou.
"Eu sei."
"Por quem?"
"Não sei."
Isabela virou a foto.
No verso havia o nome do laboratório que havia feito a impressão.
Ela chamou Sofia.
"Consegue descobrir quem solicitou essa cópia?"
Sofia fotografou o código.
"Talvez."
Duas horas depois, receberam uma resposta.
A impressão havia sido solicitada por um assistente administrativo ligado à presidência interina do grupo.
Ricardo.
Augusto ficou sério.
"Então foi ele."
Sofia balançou a cabeça.
"Não necessariamente."
"Por quê?"
"O pedido foi feito usando a conta do gabinete dele."
Isabela respirou fundo.
"Outra credencial."
"Exatamente."
Bruno colocou um papel sobre a mesa.
"Eu encontrei algo melhor."
Era uma lista de acessos internos.
Nos meses anteriores ao acidente, a conta administrativa de Ricardo tinha sido acessada repetidamente por um terminal localizado em outro setor.
Augusto leu o endereço.
"Relações Institucionais."
Sofia franziu a testa.
"Aquele andar quase não é usado."
Bruno respondeu:
"Era usado por uma pessoa."
"Quem?"
Bruno olhou para Augusto.
"Vitória."
O nome caiu no centro da sala.
Augusto não reagiu imediatamente.
Isabela sentiu um desconforto.
A esposa de Ricardo.
A mulher elegante que sempre parecia apenas acompanhar as decisões do marido.
"Isso não faz sentido."
Augusto falou baixo.
"Vitória nunca teve função executiva."
Sofia respondeu:
"Justamente por isso ninguém monitorava os acessos dela como monitorava os diretores."
Bruno continuou:
"Ela também tinha relação com o escritório que administrava minha antiga empresa."
Augusto ergueu os olhos.
"Que relação?"
"Uma das advogadas do escritório trabalhou para a família Albuquerque durante oito anos."
Isabela sentiu as peças começarem a se encaixar.
"Então ela podia usar a empresa de Bruno."
Sofia completou:
"E o acesso de Ricardo."
Bruno assentiu.
"Sem aparecer em lugar nenhum."
Augusto ficou em silêncio.
"Por quê?"
Ninguém respondeu.
Ele se levantou com esforço.
"Se Vitória estava por trás disso, por que colocar Ricardo no comando?"
Isabela pensou.
"Talvez porque ele fosse útil."
"Útil para quê?"
"Para todos olharem para ele."
A frase fez Augusto parar.
Ricardo era óbvio demais.
O irmão invejoso.
O substituto.
O homem que ganhava poder com a incapacidade de Augusto.
Enquanto todos investigavam Ricardo, ninguém olhava para a mulher sentada ao lado dele.
Naquela noite, Isabela voltou à mansão com Dona Helena.
Precisava encontrar uma coisa.
Documentos antigos de Otávio Montenegro.
"Ele guardava tudo."
Dona Helena abriu uma sala fechada havia anos.
"Contratos, cartas, documentos pessoais."
"Até testamento?"
Dona Helena ficou séria.
"Talvez."
Passaram quase duas horas entre caixas antigas.
Até Isabela encontrar uma pasta de couro.
No interior havia uma cópia autenticada de um instrumento de sucessão patrimonial.
Ela começou a ler.
Augusto era o principal controlador.
Ricardo aparecia em seguida.
Mas havia uma cláusula específica.
Em caso de morte de Augusto ou incapacidade permanente reconhecida judicialmente, determinada parcela das ações não passaria diretamente ao irmão.
Seria transferida para um fundo fiduciário criado por Otávio.
Isabela virou a página.
"Helena."
Dona Helena aproximou-se.
"O que foi?"
Isabela apontou para uma linha.
"O beneficiário final."
Dona Helena leu.
Seu rosto perdeu a cor.
"Isso não pode estar certo."
Isabela releu lentamente.
Não havia erro.
Não havia dúvida.
Se Augusto morresse ou fosse considerado permanentemente incapaz, uma das maiores participações acionárias do Grupo Montenegro passaria para um truste.
E o nome indicado como beneficiário definitivo era um só.
Vitória Albuquerque Montenegro.