Augusto não deixou a fotografia sair de sua mão durante vários minutos.
Isabela permaneceu diante dele, tentando manter a calma.
Mas aquilo era diferente.
Não era mais uma ameaça vaga.
Alguém sabia onde ela morava.
Sabia sua rotina.
Sabia quando ela estava sozinha.
"Você não volta para a Vila Mariana."
Isabela ergueu os olhos.
"Como é?"
"Você fica aqui."
"Augusto..."
"Bruno vai mandar buscar suas coisas."
"Você enlouqueceu?"
Ele colocou a fotografia sobre a mesa.
"Você está sendo seguida."
"Isso não significa que você pode decidir onde eu moro."
"Significa que você não vai dormir sozinha em um apartamento sem segurança."
Isabela cruzou os braços.
"Você está me protegendo ou me prendendo?"
Augusto apertou o maxilar.
"Não faça isso."
"Isso o quê?"
"Transformar uma ameaça real em discussão sobre liberdade."
"É exatamente sobre liberdade."
Ele olhou para Bruno.
"Quero dois homens com ela o tempo inteiro."
Isabela virou imediatamente.
"Nem pense nisso."
Bruno ficou desconfortável.
Augusto continuou:
"Um carro sempre disponível. Ninguém informa os deslocamentos dela com antecedência."
"Eu não sou parte do Grupo Montenegro."
"Agora é parte do problema."
A frase saiu mais dura do que Augusto pretendia.
Isabela percebeu.
"Parte do problema."
Ele fechou os olhos.
"Você sabe o que eu quis dizer."
"Sei."
A voz dela ficou baixa.
"Você está com medo."
Augusto voltou a olhar para ela.
"Claro que estou."
A resposta a surpreendeu.
Pela primeira vez, ele não tentou esconder.
"Eu sei o que fizeram comigo."
Ele apontou para a fotografia.
"Não vou assistir acontecer com você."
Isabela respirou fundo.
"Então confie em mim."
"Confiar não impede uma bala."
"Controlar minha vida também não."
Augusto ficou em silêncio.
Bruno percebeu que não deveria continuar ali.
"Vou verificar as câmeras."
Saiu.
Isabela se aproximou.
"Eu fico na mansão por alguns dias."
Augusto relaxou um pouco.
"Mas não porque você mandou."
"Está bem."
"E eu continuo trabalhando."
"Com segurança."
"Sem alguém respirando no meu pescoço."
"Negociável."
"Augusto."
"Um segurança."
"Dois quarteirões de distância."
"Um carro."
"Sem me seguir até o banheiro."
Ele quase sorriu.
"Isso eu posso prometer."
A tensão diminuiu por alguns segundos.
Mas desapareceu quando o celular de Isabela começou a tocar.
Camila.
Ela atendeu.
"Oi."
Do outro lado, só havia respiração acelerada.
"Camila?"
"Isabela..."
A voz estava trêmula.
"Tem alguém aqui."
Isabela ficou imediatamente séria.
"Onde?"
"No meu apartamento."
Augusto percebeu a mudança no rosto dela.
"Camila, saia daí."
"Eu acabei de chegar."
"Não toque em nada."
"Está tudo revirado."
Isabela fechou os olhos.
Augusto já estava chamando Bruno.
Camila continuou:
"Meu quarto. A sala. Até o armário da cozinha."
"Levaram alguma coisa?"
"Eu não sei."
"Vai para a portaria."
"Isabela..."
"Agora."
Vinte minutos depois, Bruno já havia enviado uma equipe.
Isabela insistiu em ir.
Augusto também.
"Você não precisa ir."
"Ela se envolveu por minha causa."
"Então justamente por isso você fica."
Isabela pegou a bolsa.
"Não começa."
Augusto a encarou.
Desta vez, não discutiu.
"Eu vou junto."
Ela olhou para a cadeira.
"Você não precisa se colocar em risco."
"Curioso."
Isabela entendeu a provocação.
"Está aprendendo rápido."
O apartamento de Camila ficava na Saúde.
Quando chegaram, dois seguranças já estavam no corredor.
Camila estava sentada em uma cadeira perto da porta.
Ao ver Isabela, levantou e a abraçou.
"Eu estou bem."
"Tem certeza?"
"Assustada."
Isabela entrou.
O apartamento parecia ter sido atingido por uma tempestade.
Gavetas abertas.
Livros espalhados.
Almofadas rasgadas.
Documentos jogados no chão.
Augusto observou tudo em silêncio.
Bruno apareceu vindo do quarto.
"Não parece roubo comum."
"Por quê?"
"Notebook ficou."
Ele apontou para a televisão.
"Joias também."
Isabela olhou para Camila.
"O que sumiu?"
Camila pensou.
"Uma pasta."
"Qual?"
Ela ficou pálida.
"Aquela que usei quando te falei do trabalho."
Isabela sentiu o estômago apertar.
Augusto virou-se.
"Que pasta?"
Camila olhou para ele.
"Documentos médicos iniciais."
"Do Augusto?"
"Alguns."
Isabela se aproximou.
"Quais?"
"Relatórios que recebi para avaliar se você poderia assumir o caso."
Augusto ficou sério.
"Quem sabia que você tinha isso?"
Camila respondeu:
"A clínica."
"Quem mais?"
"Talvez alguém do hospital."
A palavra fez Isabela olhar para Augusto.
Hospital.
Até então, tudo parecia apontar para o Grupo Montenegro.
Ricardo.
As empresas.
Os acessos internos.
Mas os medicamentos tinham sido prescritos e administrados por gente da área médica.
Os relatórios também.
"Rafael."
Augusto franziu a testa.
"Você ainda acha que é ele?"
"Eu acho que alguém do hospital está envolvido."
Camila se aproximou.
"Tem mais uma coisa."
"O quê?"
"Na época em que recebi os documentos, achei estranho."
"Por quê?"
"Havia versões diferentes do mesmo relatório."
Isabela ficou imóvel.
"Diferentes como?"
"Em um deles aparecia resposta motora."
Augusto olhou para ela.
"Como você encontrou."
Camila assentiu.
"Em outro, não."
O silêncio ficou pesado.
Bruno perguntou:
"Quem enviou os arquivos?"
Camila pensou.
"Hospital São Gabriel."
"Algum nome?"
"Setor administrativo."
Isabela respondeu:
"Então precisamos voltar para a origem."
Augusto não gostou.
"Não."
Ela olhou para ele.
"De novo?"
"Você não vai ao hospital sozinha."
"Eu não disse sozinha."
Augusto se aproximou.
"Isabela."
"Alguém está apagando evidências médicas."
"Eu sei."
"E entrou na casa da Camila para recuperar documentos."
"Eu sei."
"Então não adianta fingir que isso vai parar."
Augusto passou a mão pelo rosto.
A raiva dele já não era contra ela.
Era contra a impossibilidade de controlar tudo.
"Eu não consigo proteger todo mundo."
A frase saiu baixa.
Isabela ouviu.
"Não precisa."
Ele levantou os olhos.
"Eu preciso proteger você."
"Não."
Ela segurou a mão dele.
"Você precisa confiar em mim."
Augusto não respondeu.
Naquela noite, Isabela voltou para a mansão.
Mas, em vez de dormir, ficou revisando cópias de prescrições e registros de visitas.
Tinha uma hipótese.
Precisava confirmar.
Abriu o histórico de medicação.
Localizou cada mudança de dose.
Primeiro aumento.
Depois outro.
Depois manutenção.
Separou por datas.
Em seguida, pediu a Sofia registros antigos de acesso à mansão.
Quase meia hora depois, recebeu uma planilha.
Isabela começou a comparar.
Parou na terceira linha.
Olhou novamente.
Primeiro aumento da medicação.
Ricardo havia visitado Augusto na noite anterior.
Segunda alteração.
Ricardo estava na mansão.
Terceira.
Outra visita.
Quarta.
Mais uma.
Isabela sentiu um frio subir pela nuca.
Pegou o telefone e chamou Augusto.
Ele chegou pouco depois.
"O que aconteceu?"
Ela virou o notebook.
"Olha as datas."
Augusto passou os olhos.
"Visitas do Ricardo."
"Compare com as alterações da medicação."
Ele leu.
O rosto ficou cada vez mais duro.
"Todas."
"Quase todas."
"Isso não pode ser coincidência."
"Pode."
Isabela respondeu com cuidado.
"Mas está ficando difícil acreditar."
Augusto ficou em silêncio.
"Rafael nunca mudava minhas doses sem falar comigo."
Isabela olhou para ele.
"Tem certeza?"
Ele hesitou.
"Antes do acidente, sim."
"Depois?"
Augusto não respondeu.
Isabela fechou o notebook.
"Preciso falar com Rafael."
"Ele vai mentir."
"Então quero ouvir de perto."
"Não vai."
Isabela ficou irritada.
"Você disse que confiaria em mim."
"Isso foi antes de alguém invadir o apartamento da Camila."
"Eu não vou continuar investigando se você me tratar como criança."
Augusto aproximou a cadeira.
"Eu prefiro você com raiva de mim do que morta."
Isabela ficou em silêncio.
A frase doeu porque era sincera.
Antes que respondesse, seu celular vibrou.
Número desconhecido.
Ela abriu.
Uma mensagem.
"Precisamos conversar."
Outra chegou logo depois.
"Sem Augusto."
Isabela mostrou a tela.
O rosto dele mudou.
"Não."
Então apareceu a terceira mensagem.
"Eu sei quem alterou os medicamentos."
Isabela sentiu o coração acelerar.
A última mensagem trouxe um endereço.
Hospital São Gabriel.
Estacionamento subterrâneo.
Dez da noite.
E uma assinatura.
"Rafael."
Augusto tentou pegar o telefone.
"Você não vai."
Isabela afastou a mão.
"Ele está com medo."
"Ou está armando uma coisa."
"Se quisesse me machucar, não precisava me chamar para um hospital cheio de câmeras."
"Você está racionalizando."
"Estou investigando."
Augusto ficou furioso.
"Você está arriscando a vida."
"Ela já está em risco."
Os dois se encararam.
Nenhum cedeu.
No fim, Isabela foi.
Sem contar a ele o horário exato.
Mas Bruno percebeu.
E Augusto também.
Pouco antes das dez, Isabela entrou no estacionamento subterrâneo do Hospital São Gabriel.
O lugar estava quase vazio.
Luzes frias.
Colunas de concreto.
Eco de passos.
Rafael estava perto de um carro prata.
Parecia diferente.
Mais velho.
Cansado.
Assustado.
Isabela parou a alguns metros.
"Você me chamou."
Rafael olhou ao redor.
"Veio sozinha?"
"Isso importa?"
"Importa."
"Então fale."
Ele respirou fundo.
"Eu não tentei impedir Augusto de se recuperar."
Isabela manteve os olhos nele.
"Então quem tentou?"
Rafael ficou pálido.
Abriu a boca.
"Foi..."
Um barulho explodiu ao fundo.
Metal contra concreto.
Isabela virou o rosto.
Faróis acenderam.
Um carro preto surgiu entre as colunas em alta velocidade.
Rafael arregalou os olhos.
"Corre!"
O motor rugiu.
O veículo avançou diretamente na direção dos dois.