Isabela ficou parada diante dos degraus da mansão com o telefone antigo nas mãos.
O carro continuava esperando por ela.
Dona Helena permanecia ao seu lado, tensa.
Por alguns segundos, Isabela só conseguiu olhar para a tela escura.
Então levantou os olhos para a porta da casa.
"Ele precisa ouvir isso."
Dona Helena assentiu.
Isabela pegou a mala e voltou.
Quando entrou no escritório, Augusto estava diante da janela.
A cadeira de rodas permanecia imóvel.
Ele não virou quando ouviu a porta.
"Eu disse que você devia ir."
Isabela fechou a porta.
"Então diga de novo."
Augusto virou lentamente.
Ela caminhou até a mesa.
Colocou o telefone diante dele.
"Se quer me mandar embora, faça isso olhando nos meus olhos."
O rosto dele ficou tenso.
"Isabela."
"Olhe para mim."
Augusto não respondeu.
Ela empurrou o aparelho.
"Dona Helena encontrou isso."
Ele olhou para o telefone.
Por um instante, pareceu reconhecê-lo.
"De onde veio?"
"Estava com você na noite do acidente."
Augusto pegou o aparelho.
Isabela reproduziu o áudio.
"Ricardo, se alguma coisa acontecer comigo..."
A gravação cortou.
Augusto ficou imóvel.
"Você lembra?"
Ele apertou o telefone.
"Não."
"Nem por que estava gravando?"
"Eu lembro daquela semana."
"Então fale."
Augusto olhou para ela.
"Você não deveria estar aqui."
Isabela perdeu a paciência.
"Chega."
Ele se surpreendeu.
"Você me chamou de profissional contratada."
"Porque é o que você é."
"Mentira."
Augusto endureceu.
"Não faça isso."
"Você não me mandou embora porque eu fiz mal meu trabalho."
"Isabela."
"Você me mandou embora porque alguém entrou na sua casa e me atacou."
Augusto fechou os olhos.
Ela continuou.
"Você ficou com medo."
Ele ergueu o rosto.
"Não use essa palavra comigo."
"Por quê? Porque seu pai dizia que medo era fraqueza?"
A frase o atingiu.
"Você não sabe do que está falando."
"Sei exatamente."
Isabela aproximou-se.
"Você acha que pode decidir por todo mundo porque está acostumado a mandar?"
Augusto segurou os braços da cadeira.
"Eu estou tentando manter você viva!"
O grito ecoou pelo escritório.
Isabela ficou em silêncio por um segundo.
Finalmente.
Ele havia admitido.
Augusto respirava pesado.
"Você não entende."
"Então me explique."
"Alguém tentou me matar."
A voz dele saiu baixa.
"Depois passou meses me mantendo fraco."
Ele apontou para o corredor.
"Ontem essa pessoa colocou as mãos em você."
Isabela engoliu seco.
Augusto continuou:
"Se você ficar perto de mim, vira alvo."
"E isso dá a você o direito de me humilhar?"
"Se fizer você ir embora, sim."
Isabela sentiu raiva.
Mas também sentiu dor.
"Não."
Augusto franziu a testa.
"Não?"
"Então pare de me tratar como se eu não tivesse escolha."
Ela se aproximou ainda mais.
"Eu sei que existe risco."
"Você não sabe."
"Então me diga."
Augusto ficou em silêncio.
Isabela respirou fundo.
"Você quer que eu vá embora porque está com medo de me perder antes mesmo de admitir que se importa."
O olhar dele mudou.
"Não transforme isso em outra coisa."
"Você continua fazendo isso."
"Isso o quê?"
"Fingindo que não sente."
Augusto olhou para ela por muito tempo.
Depois desviou.
"Sentir nunca ajudou ninguém na minha família."
"Talvez porque ninguém tenha tentado."
O silêncio voltou.
Dessa vez, não havia raiva.
Havia cansaço.
Augusto passou a mão pelo rosto.
"Antes do acidente, eu já sabia que alguma coisa estava errada."
Isabela olhou para o telefone.
"Com Ricardo?"
"Com o grupo."
Augusto abriu uma gaveta.
Tirou um pequeno dispositivo de armazenamento.
"Eu estava investigando transferências internas."
"Que tipo?"
"Dinheiro desaparecendo."
"Quanto?"
Augusto respirou fundo.
"Quase duzentos e oitenta milhões de reais."
Isabela arregalou os olhos.
"Isso não desaparece."
"Não."
"Para onde foi?"
"Empresas terceirizadas."
Ele abriu o notebook.
"Fundos de investimento."
"Contas em nome de fornecedores."
Isabela observou as planilhas.
"Quem controlava?"
"Uma subsidiária."
"Qual?"
Augusto hesitou.
"Montenegro Infraestrutura."
"Quem comandava?"
Ele olhou para ela.
"Ricardo."
A resposta caiu pesada.
Isabela sentiu um arrepio.
"Então o áudio..."
"Provavelmente era sobre isso."
Augusto passou a mão pelo teclado.
"Eu tinha convocado uma reunião extraordinária do conselho."
"Para quando?"
"Na manhã seguinte ao acidente."
Isabela ficou imóvel.
"Você ia confrontá-lo."
"Eu ia confrontar todo mundo."
"Quem sabia da reunião?"
Augusto pensou.
"Ricardo."
"Sofia."
"Bruno."
"Vitória."
"Rafael sabia que eu tinha cancelado exames naquela manhã."
Isabela aproximou-se da tela.
"Então qualquer um deles poderia saber que você estava prestes a descobrir alguma coisa."
"Sim."
Augusto olhou para ela.
"Agora entende por que quero você longe?"
"Não."
Ele fechou o notebook com força.
"Isabela."
"Eu entendo o perigo."
Ela apontou para os documentos.
"Mas também entendo que você ficou sozinho porque afastou todo mundo."
"Isso me manteve vivo."
"Tem certeza?"
Augusto não respondeu.
Ela se ajoelhou diante dele.
"Olhe para mim."
Ele olhou.
"Você não pode lutar contra isso sozinho."
"Eu fiz tudo sozinho durante a vida inteira."
"E olha onde isso levou."
Augusto ficou ferido pela frase.
Isabela percebeu.
Mas não recuou.
"Eu não estou dizendo que foi sua culpa."
Ela baixou o tom.
"Estou dizendo que talvez agora seja a hora de fazer diferente."
Augusto observou o rosto dela.
"Por que você está fazendo isso?"
"Isso o quê?"
"Ficando."
Isabela hesitou.
A resposta verdadeira parecia perigosa demais.
"Porque alguém mentiu para você."
"Isso não basta."
"Porque tentaram impedir sua recuperação."
"Também não."
Augusto aproximou um pouco a cadeira.
"Por que você está aqui?"
Isabela sentiu o coração acelerar.
Ela poderia dizer dinheiro.
Contrato.
Consciência profissional.
Mas nada disso explicava por que havia voltado depois de ser humilhada.
"Porque eu me importo."
Augusto ficou imóvel.
A frase permaneceu entre os dois.
Isabela respirou fundo.
"Mais do que deveria."
Ele não desviou o olhar.
"Isso é uma má ideia."
"Provavelmente."
"Você devia ir."
"Provavelmente."
"Mas não vai."
"Não."
Pela primeira vez, Augusto sorriu sem ironia.
Um sorriso pequeno.
Cansado.
Verdadeiro.
"Você é muito teimosa."
"Já avisaram."
Ele levantou a mão.
Tocou o rosto dela.
O gesto foi lento.
Quase inseguro.
Isabela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, Augusto ainda estava perto.
"Se alguma coisa acontecer com você..."
"Não termina essa frase."
"Isabela."
"Eu escolhi ficar."
Ela tocou a mão dele.
"Aprenda a respeitar isso."
Augusto respirou fundo.
Então a puxou.
O beijo aconteceu rápido demais para que qualquer um dos dois pudesse pensar.
Não foi delicado.
Foi raiva.
Medo.
Alívio.
Tudo o que tinham evitado dizer.
Isabela segurou o rosto dele.
Augusto a puxou mais para perto.
Por alguns segundos, o mundo inteiro pareceu desaparecer.
Quando se afastaram, ambos respiravam pesado.
Isabela ficou em silêncio.
Augusto também.
"Isso complica tudo."
Ela quase riu.
"Você acha?"
"Eu deveria pedir desculpas."
"Pelo beijo?"
"Por quase tudo desde que você entrou nesta casa."
Isabela sorriu.
"Comece devagar."
Ele olhou para ela.
"Fique."
Dessa vez, não foi uma ordem.
Foi um pedido.
Isabela assentiu.
"Eu fico."
Naquela noite, os dois continuaram analisando os arquivos.
Com a ajuda de Sofia, localizaram cópias antigas das transferências.
Os valores haviam sido divididos em dezenas de operações menores.
Quase todas passaram por empresas ligadas à subsidiária administrada por Ricardo.
Mas havia um problema.
As últimas autorizações não tinham sido assinadas apenas por ele.
Algumas tinham credenciais diferentes.
Augusto franziu a testa.
"Alguém estava trabalhando com ele."
"Ou usando ele."
Isabela respondeu.
Augusto ficou pensativo.
"Ricardo sempre quis meu cargo."
"Isso não prova que ele queria sua morte."
"Não."
Augusto fechou a pasta.
"Mas prova que ele tinha muito a ganhar se eu desaparecesse."
No dia seguinte, Isabela chegou cedo à sala de reabilitação.
A mansão ainda estava silenciosa.
Ela abriu a porta.
Parou.
Sobre o andador havia um envelope branco.
Sem nome.
Sem selo.
Isabela sentiu um frio na barriga.
Chamou Augusto.
Ele entrou poucos minutos depois com Bruno.
"Não toque."
Bruno pegou luvas.
Abriu o envelope.
Dentro havia apenas uma folha.
Uma única frase impressa.
"Ela vai morrer por sua causa."
Augusto ficou pálido.
Isabela não conseguiu falar.
Então Bruno tirou outra coisa do envelope.
Uma fotografia.
Isabela reconheceu imediatamente.
Ela estava diante do prédio onde morava na Vila Mariana.
Sozinha.
Carregando sacolas.
A foto havia sido tirada de longe.
Augusto segurou a imagem.
Virou.
No verso havia uma data.
Dois dias antes.
Antes do ataque na mansão.
Ele levantou os olhos para Isabela.
A expressão que apareceu em seu rosto não era medo.
Era terror.
Alguém já a seguia antes mesmo de ela saber que estava em perigo.