Caio não conseguiu dormir naquela noite.
A frase da ligação continuava se repetindo em sua cabeça.
"Ainda falta matar o velho."
Ele conhecia aquela voz.
Conhecia havia anos.
E sabia exatamente do que aquele homem era capaz.
Na manhã seguinte, Delegada Mariana Ribeiro recebeu um relatório com dezenas de assinaturas recuperadas dos documentos encontrados no cofre.
Quase todas levavam ao mesmo nome.
Álvaro Ferraz.
Advogado.
Consultor financeiro.
Representante legal de Otávio Montenegro durante mais de vinte anos.
Mariana colocou os papéis diante de Helena e Rafael.
"Ele aparece em tudo."
Helena começou a folhear.
Transferências.
Procurações.
Mudanças de registro.
Documentos de cavalos.
Contratos de venda.
Até os papéis usados depois da morte oficial de Augusto tinham a assinatura de Álvaro.
Rafael ficou sério.
"Eu conheço esse homem."
Helena levantou os olhos.
"Como?"
"Ele trabalhou para minha família durante anos."
"Minha mãe confiava nele."
Mariana respondeu:
"Otávio confiava ainda mais."
Ela separou um documento.
"Álvaro participou da transferência dos animais do Haras Almeida."
Outro.
"Da alteração societária."
Outro.
"Da regularização de registros dos cavalos."
Helena sentiu o estômago se contrair.
"Então ele ajudou a apagar meu pai."
"Legalmente, pelo menos no papel."
Mariana continuou:
"E talvez tenha feito muito mais."
Naquele mesmo momento, no Hospital São Gabriel Paulista, Augusto recebeu uma ligação no telefone do quarto.
A enfermeira havia saído poucos minutos antes.
Ele atendeu.
"Alô?"
Uma voz masculina respondeu:
"Senhor Augusto Almeida?"
Augusto ficou em silêncio.
"Quem está falando?"
"Tenho documentos sobre o que aconteceu com o senhor."
Augusto fechou os olhos.
"Quem é você?"
"Alguém que pode explicar tudo."
"Então fale."
"Não pelo telefone."
Augusto reconheceu alguma coisa na voz.
Não o rosto.
Não ainda.
Mas uma sensação antiga.
Medo.
"Você estava lá."
A voz ficou em silêncio por um instante.
"Se quiser saber por que João morreu, venha sozinho."
Augusto apertou o aparelho.
"Onde?"
"Na antiga Fazenda Boa Esperança."
"Hoje à noite."
A ligação terminou.
Augusto ficou parado.
Quando Helena chegou ao quarto, encontrou o pai sentado.
Ele parecia diferente.
Mais atento.
"Pai?"
Augusto ergueu os olhos.
"Ele ligou."
Helena congelou.
"Quem?"
"Não sei."
"Mas sabe alguma coisa."
"Sobre João."
Helena imediatamente chamou Mariana.
A delegada chegou pouco depois.
Augusto contou tudo.
Rafael ficou furioso.
"Você não vai."
Augusto respondeu:
"Eu vou."
"Nem pensar."
"Rafael."
"Não existe motivo para você se colocar em risco."
Augusto olhou para ele.
"Existe."
"Qual?"
"Porque ele acha que eu ainda sou o homem perdido que encontrou na estrada dezesseis anos atrás."
Mariana entendeu.
"Ele não sabe que sua memória voltou."
Augusto assentiu.
"Exatamente."
Helena se levantou.
"Isso é loucura."
"Não."
Augusto segurou a mão da filha.
"Durante dezesseis anos, eles decidiram tudo por mim."
"Agora eu decido."
Mariana ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois disse:
"Se fizermos isso, será com equipe."
Rafael balançou a cabeça.
"Não gosto."
"Você não precisa gostar."
Mariana respondeu.
"Precisamos pegar quem está por trás."
Augusto olhou para Helena.
"Eu quero acabar com isso."
Ela lutou contra as lágrimas.
"Eu acabei de encontrar você."
"Eu sei."
"Não quero perder de novo."
Augusto apertou a mão dela.
"Você não vai."
No início da noite, Augusto saiu do hospital em um carro descaracterizado.
Usava um dispositivo de áudio escondido sob a camisa.
Policiais acompanhavam de longe.
Helena e Rafael ficaram com Mariana em outro veículo.
O destino era uma propriedade abandonada na região de Atibaia.
A antiga Fazenda Boa Esperança.
Augusto reconheceu a entrada.
"Eu já estive aqui."
A voz dele chegou pelo rádio.
Mariana perguntou:
"Tem certeza?"
"Sim."
Augusto respirou fundo.
"Otávio fazia reuniões aqui."
Helena sentiu o coração acelerar.
O carro parou.
Augusto desceu.
Caminhou sozinho até um velho estábulo.
As portas estavam abertas.
Uma luz fraca vinha do interior.
Ele entrou.
"Cheguei."
Nada.
Então ouviu passos.
Caio apareceu primeiro.
Augusto ficou imóvel.
"Você."
Caio estava pálido.
Parecia não dormir havia dias.
"Não devia ter vindo."
Augusto respondeu:
"Foi você quem me chamou?"
"Não."
Uma segunda voz surgiu no fundo.
"Fui eu."
Um homem mais velho saiu da sombra.
Cabelos grisalhos.
Terno escuro.
Postura elegante.
Rafael reconheceu imediatamente pelo monitor.
"Álvaro."
Helena olhou para ele.
"Esse é o advogado?"
"Sim."
Álvaro Ferraz caminhou até Augusto.
"Demorou muito para voltar."
Augusto observou o rosto.
Fragmentos de memória começaram a surgir.
Uma mesa.
Documentos.
Assinaturas.
Um homem recolhendo papéis.
"Você."
Álvaro sorriu.
"Finalmente."
Augusto apertou os punhos.
"Foi você quem preparou os documentos."
"Alguns."
"Foi você quem apagou meu nome."
"Eu organizei o que precisava ser organizado."
Augusto sentiu a raiva crescer.
"Minha vida não era uma pasta para você organizar."
Álvaro permaneceu frio.
"Naquela época, todos fizeram escolhas."
Augusto olhou para Caio.
"Você também."
Caio desviou o rosto.
"Eu era jovem."
"Você tinha vinte e dois anos."
"Eu obedecia meu tio."
Augusto deu um passo.
"Você me ameaçou."
Caio ficou em silêncio.
"Você me empurrou."
Caio fechou os olhos.
"Eu não queria..."
"Você me acertou."
"Eu não queria matar você!"
A frase ecoou no estábulo.
Helena levou a mão à boca.
Mariana ergueu a cabeça.
"Temos a admissão."
Dentro do estábulo, Augusto olhou diretamente para Caio.
"Então você achou que tinha me matado."
Caio começou a tremer.
"Você caiu."
"Bateu a cabeça."
"Não se mexia."
Augusto respondeu:
"E depois?"
Caio olhou para Álvaro.
O advogado ficou sério.
"Caio."
"Chega."
"Não fala mais nada."
Augusto percebeu.
"Você ainda tem medo dele."
Caio virou para Álvaro.
"Medo?"
"Você acha que eu ainda tenho medo?"
Álvaro endureceu.
"Controla a boca."
Caio soltou uma risada nervosa.
"Você quer controlar tudo."
"Como sempre."
Augusto avançou.
"E João?"
O rosto de Caio mudou.
Augusto repetiu:
"O que aconteceu com João Batista?"
Álvaro respondeu:
"Não importa."
"Importa para a família dele."
"Importa para mim."
Caio começou a andar de um lado para o outro.
"João viu."
Augusto ficou imóvel.
"Viu o quê?"
Caio respirou fundo.
"Viu você no chão."
"Viu meu tio."
"Viu tudo."
Álvaro levantou a voz.
"Caio!"
Mas ele não parou.
"João queria ir à polícia."
Augusto sentiu o sangue gelar.
"E então?"
Caio começou a chorar.
"Meu tio perdeu a cabeça."
Álvaro avançou.
"Cala a boca."
Caio apontou para ele.
"Você ajudou!"
"Eu fiz o necessário para proteger todos."
"Você sempre fala isso."
Augusto perguntou:
"Quem matou João?"
Caio fechou os olhos.
Quando abriu, parecia quebrado.
"Meu tio matou João."
O silêncio caiu.
Helena começou a chorar no carro.
Mariana falou no rádio:
"Equipe, preparada."
Dentro do estábulo, Caio continuou:
"Otávio bateu nele."
"João caiu."
"E depois?"
Caio olhou para Augusto.
"Já estava morto."
Augusto quase não conseguiu respirar.
"E vocês usaram o corpo."
Álvaro falou:
"Chega."
Augusto encarou ele.
"Usaram o corpo de João para fingir que era eu."
Álvaro ficou em silêncio.
"Você preparou os documentos."
Nada.
"Colocou minhas coisas junto ao corpo."
Álvaro finalmente respondeu:
"Otávio precisava que você desaparecesse."
Augusto deu um passo.
"Vocês roubaram dezesseis anos da minha vida."
A voz saiu baixa.
Mas cheia de raiva.
"Roubaram minha filha."
"Minha esposa."
"Meu nome."
"Até meu próprio túmulo."
Caio começou a chorar.
"Eu achei que você estava morto."
"E quando descobriu que eu estava vivo?"
Caio não respondeu.
Augusto entendeu.
"A mensagem."
"A seringa."
Caio balançou a cabeça.
"Não fui eu."
Augusto olhou para Álvaro.
O advogado não demonstrou nada.
Foi suficiente.
Mariana deu a ordem.
"Agora."
As portas laterais do estábulo se abriram.
Policiais entraram.
"Polícia!"
Álvaro tentou correr.
Dois agentes o derrubaram.
Caio caiu de joelhos.
Não resistiu.
Augusto permaneceu parado no centro.
Helena entrou logo depois.
Correu até o pai.
Abraçou Augusto com força.
"Acabou."
Ele fechou os olhos.
Dessa vez, acreditou.
Nas semanas seguintes, a investigação confirmou boa parte do esquema.
Álvaro havia produzido documentos falsos.
Manipulado registros.
Participado da transferência dos bens de Augusto.
E ajudado Otávio a sustentar a falsa morte.
Caio foi acusado de participação no ataque, ocultação de provas e diversos crimes ligados ao esquema.
A morte de João também passou a integrar a investigação formal.
O Grupo Montenegro anunciou publicamente que repararia os prejuízos causados a Augusto Almeida.
Advogados calcularam valores milionários.
Terras.
Animais.
Participações.
Lucros acumulados.
Rafael entregou pessoalmente a proposta.
Augusto leu.
Depois fechou a pasta.
"Não quero tudo."
Helena ficou surpresa.
"Pai, isso é seu."
"Parte."
"Roubaram de você."
"E eu não vou passar o resto da vida contando dinheiro que chegou dezesseis anos atrasado."
Rafael perguntou:
"O que o senhor quer?"
Augusto olhou para Helena.
"Uma coisa."
Dias depois, ele pediu que a filha fosse até o hospital.
Sobre a mesa havia um documento.
Helena entrou.
"Você queria falar comigo?"
Augusto sorriu.
"Queria."
Empurrou a pasta em direção a ela.
Helena abriu.
Viu a escritura.
Depois o nome.
"Pai..."
Augusto respondeu:
"Isso sempre deveria ter sido seu."
Helena olhou novamente para o documento.
No alto da primeira página estava escrito:
"Haras Almeida."