《O Cavalo Branco Que Interrompeu Meu Casamento》Capítulo 9

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Vitória ouviu a gravação sem interromper uma única vez.

Quando a própria voz surgiu na fita, dezesseis anos mais jovem, mandando Otávio deixar Augusto sair, ela fechou os olhos.

Rafael permaneceu em pé diante dela.

Helena não desviava o olhar.

"Agora fala."

Vitória demorou alguns segundos.

"Eu tentei impedir."

Helena respondeu:

"Então por que ficou calada?"

Vitória apertou as mãos.

"Porque quando eu cheguei ao galpão, a discussão já tinha começado."

Mariana Ribeiro ligou o gravador sobre a mesa.

"Conte desde o início."

Vitória respirou fundo.

"Otávio sabia que Augusto iria à polícia."

"Como?"

"Caio ouviu uma conversa."

Rafael ficou tenso.

"Caio contou para Otávio?"

"Sim."

Vitória continuou:

"Otávio mandou chamar Augusto para conversar."

"Conversar?"

Helena riu sem humor.

"Era assim que ele chamava uma emboscada?"

Vitória baixou os olhos.

"Eu não sabia o que eles pretendiam fazer."

Mariana perguntou:

"Mas sabia que haveria confronto."

"Sabia."

"Mesmo assim não chamou a polícia."

Vitória não respondeu.

Helena sentiu a raiva voltar.

"Continua."

Vitória passou a mão pelo rosto.

"Quando cheguei, Augusto estava no galpão."

"Otávio estava gritando."

"Caio também."

"E então?"

"Augusto queria sair."

Vitória olhou para Helena.

"Foi quando eu entrei."

"Essa parte está na gravação."

"Sim."

"Depois disso?"

Vitória demorou.

"Caio empurrou Augusto."

Rafael fechou os olhos.

Helena ficou imóvel.

"Empurrou?"

"Augusto bateu em uma estrutura de metal."

Vitória tocou a própria cabeça.

"Aqui."

Helena sentiu o estômago revirar.

"Ele caiu?"

"Sim."

"E você fez o quê?"

"Corri até ele."

"Estava consciente?"

"No começo."

Vitória engoliu em seco.

"Depois começou a ficar confuso."

Mariana perguntou:

"Havia sangue?"

"Sim."

"De Augusto?"

"Parte."

Helena lembrou do segundo material genético encontrado no carro.

"E o outro sangue?"

Vitória fechou os olhos.

"Caio cortou a mão durante a briga."

Rafael levantou a cabeça.

"Então era dele."

"Provavelmente."

Mariana anotou.

"Depois do galpão, o que aconteceu?"

Vitória começou a falar mais devagar.

"Otávio disse que Augusto precisava ser levado a um hospital."

"Eu acreditei."

"Ele colocou Augusto no carro."

"Quem dirigiu?"

"Otávio."

"Caio foi junto?"

"Sim."

"E você?"

"Fiquei no haras."

Helena encarou Vitória.

"Você deixou meu pai entrar num carro com os dois homens que tinham acabado de atacá-lo?"

A voz de Vitória falhou.

"Eu achei que iam levá-lo ao hospital."

"Você achou."

Helena deu um passo.

"Você sempre acha alguma coisa."

Rafael interferiu:

"Helena..."

"Não."

Ela apontou para Vitória.

"Ela passou dezesseis anos escolhendo acreditar no que era mais confortável."

Vitória começou a chorar.

"No dia seguinte, Otávio voltou."

"Sem Augusto?"

"Sim."

"O que ele disse?"

"Que Augusto tinha acordado no carro."

"E depois?"

"Que ficou agressivo."

"Que mandou parar."

Vitória respirou fundo.

"Otávio disse que Augusto abriu a porta e fugiu."

Helena ficou incrédula.

"Com uma lesão na cabeça?"

"Eu perguntei a mesma coisa."

"E acreditou?"

"Não totalmente."

"Mas não foi à polícia."

Vitória olhou para Rafael.

"Otávio disse que, se aquilo viesse a público, toda a operação seria investigada."

Rafael falou:

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"Operação criminosa."

"Sim."

"Então você já sabia."

"Eu sabia que havia irregularidades."

"Não chama crime de irregularidade."

Vitória abaixou a cabeça.

"Ele disse que Henrique também seria envolvido."

Rafael congelou.

"Meu pai?"

"Seu pai assinava documentos da empresa."

"Sem saber."

"Talvez."

"Talvez?"

Rafael perdeu a calma.

"Você deixou meu pai ser usado como ameaça?"

Vitória respondeu:

"Eu tinha medo de perder tudo."

Helena soltou uma risada triste.

"Eu perdi meu pai."

Vitória não conseguiu olhar para ela.

"Três dias depois, encontraram o corpo."

Mariana perguntou:

"E quem avisou a senhora?"

"Otávio."

"Antes da polícia?"

Vitória assentiu.

Helena ficou séria.

"Como ele sabia?"

Silêncio.

Mariana repetiu:

"Como Otávio sabia de um corpo que ainda nem tinha sido oficialmente identificado?"

Vitória começou a tremer.

"Foi aí que eu desconfiei."

"Desconfiou de quê?"

"De que ele sabia mais."

Helena se aproximou.

"Mesmo assim foi à delegacia."

"Fui."

"E viu as coisas do meu pai."

"Vi."

"Quem levou aqueles objetos?"

Vitória fechou os olhos.

"Otávio."

A sala inteira ficou em silêncio.

Mariana falou:

"Ele entregou os objetos como se tivessem sido encontrados junto ao corpo?"

"Sim."

"E a senhora sabia que isso podia ser mentira?"

Vitória começou a chorar.

"Eu suspeitei."

Helena sentiu algo se partir dentro dela.

"Você suspeitou."

"Sim."

"Você viu o relógio."

"Sim."

"A carteira."

"Sim."

"O medalhão."

"Sim."

"E não falou nada."

"Eu estava com medo."

Helena aproximou o rosto.

"De quem?"

"Otávio."

"Ele ameaçou você?"

"Sim."

"O que ele disse?"

Vitória demorou a responder.

"Que se eu abrisse a boca, Henrique seria preso."

Rafael ficou imóvel.

"Meu pai."

"Sim."

"E o grupo seria destruído."

Vitória continuou:

"Ele disse que centenas de funcionários perderiam tudo."

Helena balançou a cabeça.

"E você escolheu acreditar."

"Eu tinha dois filhos pequenos."

"Eu também era filha de alguém."

Vitória começou a chorar mais forte.

Helena não recuou.

"Você não matou meu pai."

Vitória levantou os olhos.

"Mas deixou minha família enterrá-lo."

A frase atingiu todos.

Rafael baixou a cabeça.

Mariana permaneceu em silêncio.

Vitória não tentou se defender.

"Eu sei."

Helena ficou surpresa.

Vitória continuou:

"Passei dezesseis anos sabendo que talvez tivesse escolhido o silêncio quando deveria ter escolhido a verdade."

"Talvez?"

Helena respondeu.

"Não existe mais talvez."

Antes que Vitória falasse, o celular de Mariana tocou.

A delegada olhou para a tela.

"É o Instituto Médico Legal."

Todos ficaram tensos.

Mariana atendeu.

Ouviu por alguns segundos.

Depois se levantou.

"Recebemos o resultado preliminar."

Helena sentiu o coração acelerar.

"Da exumação?"

"Sim."

"É Augusto?"

Mariana olhou diretamente para ela.

"Não."

Helena fechou os olhos.

Ela já sabia.

Mas ouvir ainda doía.

"Quem é?"

"Conseguimos correspondência com material genético de familiares localizados pela polícia."

Mariana abriu a pasta eletrônica no tablet.

"O corpo é de João Batista Ferreira."

Rafael ficou pálido.

"O funcionário de Otávio."

"Sim."

Vitória levou a mão à boca.

"Meu Deus."

Helena sentou.

Durante dezesseis anos, aquele homem havia recebido flores com o nome de Augusto.

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Sua mãe havia chorado diante daquele túmulo.

Ela havia falado com ele em aniversários.

Em Natal.

No dia em que se formou.

No dia em que conheceu Rafael.

Mas ali estava João.

Um homem cuja própria família não sabia onde enterrá-lo.

Mariana ainda não tinha terminado.

"Tem mais."

Helena levantou os olhos.

"A análise do crânio mostrou uma lesão antiga."

Vitória ficou imóvel.

"Lesão?"

"Trauma causado por objeto contundente."

Rafael perguntou:

"Ele caiu?"

Mariana respondeu:

"Não é o que os peritos acreditam."

Helena sentiu um arrepio.

"Então como João morreu?"

"Essa ainda é a pergunta."

Mariana fechou o tablet.

"Mas ele não morreu da maneira descrita no relatório original."

"O laudo antigo dizia queda em barranco."

"E estava errado?"

"Ou incompleto."

Helena olhou para Vitória.

"João estava no galpão naquela noite?"

Vitória balançou a cabeça.

"Eu não vi."

"Você conhecia ele?"

"Sim."

"Ele trabalhava com Otávio havia anos."

Mariana se levantou.

"Agora temos dois acontecimentos ligados."

Ela falou com firmeza.

"Augusto foi atacado."

"João desapareceu."

"Depois o corpo de João apareceu com os objetos de Augusto."

Rafael completou:

"Alguém criou uma morte falsa."

"Sim."

Helena sentiu o medo aumentar.

"E matou João."

Mariana não suavizou.

"É uma possibilidade muito forte."

O caso havia mudado.

Já não era apenas fraude.

Nem apenas agressão.

Nem apenas encobrimento.

Mariana olhou para todos.

"Agora estamos procurando um assassino."

Na mesma noite, Caio Montenegro estava em um apartamento vazio próximo à Avenida Faria Lima.

Uma mala aberta ocupava a cama.

Camisas.

Dinheiro.

Documentos.

Um notebook.

E o passaporte.

Caio jogou mais algumas roupas dentro.

Pegou o celular.

Havia uma passagem para Buenos Aires marcada para a manhã seguinte.

Ele fechou a mala.

O telefone tocou.

Número privado.

Caio hesitou.

Depois atendeu.

"Alô?"

Silêncio.

"Quem é?"

Uma voz masculina respondeu.

Baixa.

Controlada.

"Você está fazendo besteira."

Caio empalideceu.

"Como conseguiu esse número?"

"Você não pode fugir."

Caio caminhou até a janela.

"E quem vai me impedir?"

A voz respondeu:

"Eu."

Caio apertou o telefone.

"Acabou."

"Não."

"Augusto voltou."

"Vitória falou."

"A polícia abriu o túmulo."

Caio respirou com dificuldade.

"Eu vou embora."

A voz ficou mais fria.

"Você não pode fugir."

Caio fechou os olhos.

Então ouviu:

"Ainda falta matar o velho."

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