Caio permaneceu imóvel entre a fumaça e as chamas.
Helena ainda segurava a alça do cofre.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
O barulho da madeira queimando preenchia todo o galpão.
"Você fez isso."
Caio inclinou a cabeça.
"Fez o quê?"
"Colocou fogo aqui."
Ele soltou um riso curto.
"Você realmente gosta de tirar conclusões."
Helena apertou a alça.
"Então por que está aqui?"
"Talvez pela mesma razão que você."
"Mentira."
Caio deu um passo.
Helena recuou.
"Não encosta."
Ele olhou para o cofre.
"Isso não pertence a você."
"Pertence ao meu pai."
"O que estava aqui pertencia ao Haras Montenegro."
Helena sentiu a raiva subir.
"Esse lugar existia antes de vocês roubarem tudo."
O rosto de Caio endureceu.
"Tenha cuidado com as palavras."
"Com medo de quê?"
Helena apontou para ele.
"De eu dizer em voz alta o que sua família fez?"
Caio ficou em silêncio.
Helena continuou:
"Meu pai foi atacado."
"Foi dado como morto."
"Outro homem foi enterrado no lugar dele."
"E agora alguém tenta destruir documentos."
Caio se aproximou mais.
"Você não sabe de nada."
"Então me conta."
"Nunca."
"Porque você estava lá."
A expressão dele mudou.
Muito pouco.
Mas Helena viu.
"Augusto lembrou de você."
"Augusto tem o cérebro destruído."
"Ele lembrou do seu nome."
"Isso não prova nada."
"Prova que você fazia parte."
Caio respirou fundo.
Depois olhou para o fogo.
"Você deveria ter deixado isso quieto."
Helena sentiu um arrepio.
"O quê?"
"Seu pai reapareceu."
"Você transformou isso em investigação."
"Você transformou em escândalo."
"Você tentou me destruir na imprensa."
"Eu tentei impedir que você destruísse minha família."
Helena deu um passo.
"Minha família já foi destruída."
Caio olhou diretamente para ela.
"Seu pai deveria ter continuado morto."
O tempo pareceu parar.
Helena sentiu o corpo gelar.
"Repete."
Caio percebeu tarde demais o que havia dito.
"Você ouviu."
"Repete."
"Helena!"
A voz de Rafael veio do outro lado do galpão.
Caio se virou.
Rafael surgiu entre a fumaça.
Quando viu o primo, parou.
"Caio."
Caio tentou recuperar a calma.
"Rafael."
"O que você está fazendo aqui?"
"Pergunta para ela."
Helena apontou.
"Ele acabou de dizer que meu pai deveria ter continuado morto."
Rafael ficou imóvel.
Olhou para Caio.
"Você disse isso?"
Caio não respondeu.
Rafael caminhou até ele.
"Eu perguntei se você disse isso."
"Você está emocional."
Rafael segurou Caio pela camisa.
"Responde!"
"Me solta."
"Você estava lá naquela noite?"
"Rafael."
"Você estava?"
Caio empurrou o primo.
"Eu não devo explicações para você."
Rafael avançou novamente.
"Você deve para mim."
"Você escolheu o lado dela."
"Eu escolhi não proteger criminoso."
O rosto de Caio mudou.
"Criminoso?"
Ele soltou um riso amargo.
"Você não faz ideia do que está dizendo."
"Então fala."
"Não aqui."
"Não existe mais lugar para esconder."
Uma viga caiu alguns metros adiante.
Helena gritou.
"Precisamos sair!"
Rafael agarrou o cofre.
"Vamos."
Helena tentou ajudar.
Caio recuou.
Rafael olhou para ele.
"Você vem."
Caio respondeu:
"Não."
"Vai ficar aqui?"
"Tenho outra saída."
Rafael franziu a testa.
"Como você sabe?"
Caio percebeu o erro.
Helena também.
"Porque ele conhece esse galpão."
Rafael olhou para o primo.
"Você já esteve aqui antes."
Caio virou.
Correu para o fundo.
"Caio!"
Rafael tentou ir atrás.
Helena segurou seu braço.
"Não!"
Outra parte do teto caiu.
"Vai morrer!"
Rafael hesitou.
Depois pegou o cofre.
Os dois correram.
Conseguiram sair segundos antes de uma parte lateral do galpão desabar.
Helena caiu de joelhos na terra.
Tossia sem conseguir respirar direito.
Rafael colocou o cofre no chão.
"Você está bem?"
Ela assentiu.
"Caio."
Rafael olhou para o galpão.
Não havia sinal dele.
Ao longe, sirenes começaram a se aproximar.
Delegada Mariana chegou com os bombeiros.
Quando viu Helena e Rafael, correu até eles.
"O que vocês fizeram?"
"Caio estava lá."
Mariana parou.
"O quê?"
"Ele estava dentro."
"Vocês viram ele sair?"
"Não."
Mariana chamou dois policiais.
"Verifiquem toda a área."
Helena segurou o braço dela.
"Ele conhece outra saída."
"Como sabe?"
"Porque ele mesmo entregou."
Mariana olhou para o galpão.
Depois para o cofre.
"Isso estava lá dentro?"
Helena assentiu.
"Meu pai lembrou."
"Disse que tinha um livro."
Mariana se agachou.
O metal estava queimado.
Mas a estrutura permanecia fechada.
"Não mexam mais."
Um bombeiro se aproximou.
"O fogo começou em dois pontos diferentes."
Mariana virou.
"Dois?"
"Sim."
"Isso não parece acidente."
Helena olhou para Rafael.
Nenhum dos dois precisava dizer nada.
Caio havia ido até lá por uma razão.
Horas depois, o cofre foi levado para análise.
A equipe conseguiu abrir sem destruir o conteúdo.
Helena estava na delegacia quando Mariana colocou os primeiros materiais sobre a mesa.
Um caderno grosso.
Capas gastas.
Páginas amareladas.
"Esse deve ser o livro que Augusto lembrava."
Helena abriu.
Havia nomes de cavalos.
Datas.
Valores.
Transportadoras.
Microchips.
Proprietários anteriores.
Rafael analisou as colunas.
"Tem animais marcados como mortos."
Mariana assentiu.
"E depois aparecem em outro registro."
"Com nome diferente."
Helena virou outra página.
"Isso é enorme."
"É uma rede."
Mariana separou outro conjunto.
Documentos de registro.
Cópias de chips.
Certificados falsos.
Fotografias de animais.
Em uma delas, o mesmo cavalo aparecia com dois nomes diferentes.
"Otávio fazia isso há anos."
Rafael parecia enjoado.
"Ele roubava cavalos e criava identidades novas."
Mariana respondeu:
"É o que os documentos indicam."
Helena continuou procurando.
No fundo do cofre havia uma pequena caixa plástica.
Dentro dela, várias fitas cassete.
Uma estava etiquetada.
"Otávio."
Helena sentiu o coração acelerar.
"Meu pai gravou ele."
Mariana pegou a fita.
"Vamos ouvir."
Encontraram um aparelho antigo no setor de perícia.
O som começou ruim.
Chiado.
Ruído.
Depois veio uma voz.
Augusto.
Mais jovem.
"Eu tenho cópia de tudo."
Helena fechou os olhos.
Era o pai.
Dezesseis anos antes.
Outra voz respondeu.
Otávio.
"Você não sabe com quem está mexendo."
Augusto falou:
"Eu sei exatamente."
"Animais roubados."
"Documentos falsos."
"Fraude de registro."
"Isso acabou."
Otávio respondeu:
"Você vai acabar com todos nós."
Helena olhou para Rafael.
Era a mesma frase que Augusto lembrara no hospital.
A gravação continuou.
Augusto:
"Eu vou à polícia amanhã."
Barulho.
Alguém bateu em alguma coisa.
Então outra voz apareceu.
Mais jovem.
Mais agressiva.
"Você não vai denunciar ninguém."
Augusto respondeu:
"Sai da minha frente."
A voz jovem gritou:
"Se você denunciar meu tio, eu acabo com você."
Rafael ficou pálido.
Helena sentiu um arrepio.
Mariana parou a fita.
"Reconhece?"
Rafael não respondeu.
Helena olhou para ele.
"Rafael."
Ele respirou fundo.
"Pode ser Caio."
"Pode?"
"Ele tinha outra voz."
"Dezesseis anos atrás."
Mariana voltou a fita.
Tocou novamente.
Rafael fechou os olhos.
Dessa vez, não hesitou.
"É ele."
Helena sentiu a raiva crescer.
"Então ele mentiu."
"Sim."
"Ele estava lá."
"Sim."
Naquela tarde, levaram a gravação até Augusto.
Doutor Felipe autorizou alguns minutos.
Quando a voz de Caio tocou, Augusto começou a tremer.
Helena segurou sua mão.
"Pai."
Augusto abriu os olhos.
"Eu lembro."
"Dele?"
"Caio."
"Ele ameaçou você?"
Augusto assentiu.
"Estava com Otávio."
"Foi ele quem te bateu?"
Augusto fechou os olhos.
As mãos tremiam.
"Não sei."
"Não força."
"Eu lembro de empurrão."
"Vidro."
"Sangue."
Ele respirou fundo.
"Alguém caiu."
Helena sentiu um aperto.
"Quem?"
"Não consigo ver."
Felipe pediu para parar.
Mas Augusto segurou o braço da filha.
"Mais."
Helena hesitou.
Depois concordou.
A gravação continuou.
Otávio gritava.
Caio dizia alguma coisa incompreensível.
Augusto falava em polícia.
Então surgiu outra voz.
Uma mulher.
Forte.
Desesperada.
"Chega!"
Todos no quarto ficaram imóveis.
A voz continuou:
"Deixem Augusto sair!"
Rafael abriu os olhos.
Helena virou devagar para ele.
"Você conhece essa voz?"
Rafael não respondeu.
Augusto começou a chorar.
"Vitória."
Helena sentiu o chão desaparecer.
Mariana parou a fita.
"Tem certeza?"
Augusto assentiu.
"Era ela."
Rafael passou a mão pelo rosto.
"Minha mãe estava lá."
Helena ficou em silêncio.
A gravação havia mudado tudo.
Vitória não estava ajudando Otávio a impedir Augusto.
Ela estava mandando que o deixassem sair.
Ela havia tentado protegê-lo.
Helena lembrou de tudo o que Vitória esconderia depois.
A delegacia.
Os objetos.
O caixão.
O silêncio.
Dezesseis anos.
Se Vitória tentou salvar Augusto naquela noite, então uma pergunta se tornou ainda pior.
Helena olhou para Rafael.
"Por que sua mãe ficou calada por dezesseis anos?"