Caio Montenegro chegou ao Hospital São Gabriel Paulista pouco depois das nove da manhã.
Não veio sozinho.
Dois advogados caminhavam atrás dele.
Caio usava um terno escuro impecável e carregava no rosto a tranquilidade de um homem acostumado a entrar em qualquer sala como se fosse dono dela.
Rafael o esperava no corredor.
Quando viu o primo, não se moveu.
Caio abriu os braços.
"Rafael."
"Não."
Caio parou.
"Não o quê?"
"Não vem me abraçar como se nada estivesse acontecendo."
O sorriso desapareceu.
Caio olhou para a porta do quarto de Augusto.
"Então é verdade."
"Meu tio está vivo?"
Helena surgiu atrás de Rafael.
"Meu pai."
Caio virou lentamente.
Os dois se olharam pela primeira vez desde que Augusto pronunciara aquele nome.
Helena analisou cada detalhe.
Trinta e oito anos.
Cabelos escuros cuidadosamente penteados.
Postura segura.
Um rosto que aparecia com frequência nas reuniões do Grupo Montenegro, em eventos beneficentes e nas fotografias de família.
Ela o conhecia.
Já havia jantado com ele.
Já havia brindado ao lado dele.
Caio estivera na lista de convidados do casamento.
"Quero falar com Augusto."
Helena respondeu imediatamente:
"Não."
"Ele citou meu nome."
"Exatamente por isso."
Um dos advogados se aproximou.
"Senhora Helena, meu cliente deseja apenas esclarecer..."
"Seu cliente não entra naquele quarto."
Caio levantou a mão, fazendo o advogado parar.
Depois olhou para Helena.
"Você acha que eu fiz alguma coisa com seu pai?"
"Eu ainda não disse o que acho."
"Mas está dizendo com os olhos."
A porta do elevador se abriu.
Delegada Mariana Ribeiro saiu acompanhada por dois investigadores.
Caio sorriu.
"Delegada."
"Senhor Caio Montenegro."
"Imagino que queira conversar comigo."
"Imagino que o senhor também queira explicar algumas coisas."
Caio abriu os braços.
"Não tenho nada a esconder."
Duas horas depois, a frase já não parecia tão convincente.
Caio admitiu que conhecia Augusto.
Admitiu que frequentava o Haras Montenegro quando tinha vinte e dois anos.
Admitiu que trabalhava ocasionalmente com Otávio.
Mas negou ter participado de qualquer crime.
"Augusto sofreu uma lesão cerebral gravíssima."
Ele falava diante de Mariana com os advogados ao lado.
"Passou dezesseis anos desaparecido."
"Isso não responde à pergunta."
"Responde à credibilidade da acusação."
Mariana manteve a voz fria.
"Ele disse que o senhor estava naquela noite."
Caio inclinou-se na cadeira.
"E amanhã pode dizer que viu outra pessoa."
"Então o senhor não estava?"
"Não me lembro."
Mariana ergueu uma sobrancelha.
"Agora quem tem problema de memória é o senhor?"
Caio sorriu sem humor.
"Estamos falando de dezesseis anos atrás."
"Curioso."
Mariana fechou a pasta.
"Porque o senhor lembra perfeitamente de todo o resto."
Caio não respondeu.
Na saída, vários jornalistas já esperavam diante do hospital.
Helena não sabia como haviam descoberto.
Mas descobriu assim que ligou o celular.
Uma entrevista de Caio estava circulando nas redes sociais.
Ele havia falado com um portal poucas horas antes.
"Minha família está sendo vítima de uma tentativa oportunista de transformar uma tragédia pessoal em disputa patrimonial."
Helena sentiu o sangue ferver.
Continuou assistindo.
Caio aparecia sério diante da câmera.
"Todos lamentamos o estado de saúde do senhor Augusto Almeida."
"Mas não podemos tratar lembranças fragmentadas de um paciente com trauma cerebral como fatos."
A repórter perguntou:
"A família acredita que Helena Almeida busca parte do patrimônio Montenegro?"
Caio fez uma pausa calculada.
"Espero sinceramente que não."
Foi suficiente.
No fim daquela tarde, o rosto de Helena estava em todos os lugares.
A noiva do cavalo branco.
A mulher que encontrou o pai morto havia dezesseis anos.
A história que inicialmente parecia um milagre havia mudado.
Agora os títulos perguntavam se ela queria dinheiro.
Se o reaparecimento de Augusto colocava em risco o patrimônio Montenegro.
Se o casamento com Rafael teria sido uma estratégia.
Helena desligou o celular.
"Ele fez isso de propósito."
Rafael estava ao lado dela.
"Eu sei."
"Ele me transformou em golpista."
"Eu vou falar com ele."
"Não."
Helena se levantou.
"Não quero que você me defenda porque sou sua noiva."
Rafael ficou em silêncio.
"Quero que você descubra quem é sua família."
Na manhã seguinte, Rafael foi convocado para uma reunião extraordinária do conselho do Grupo Montenegro.
Quando entrou na sala, Caio já estava sentado.
Vitória também.
Outros seis conselheiros aguardavam.
O presidente do conselho não perdeu tempo.
"Precisamos separar a empresa desse escândalo."
Rafael permaneceu em pé.
"Que escândalo?"
"Não seja ingênuo."
Um dos conselheiros empurrou um tablet pela mesa.
As ações das empresas do grupo haviam sofrido pressão.
Patrocinadores pediam explicações.
"Helena está acusando um antigo membro da família de crimes."
"Ela está investigando o desaparecimento do pai."
"É a mesma coisa."
Rafael encarou Caio.
"Não."
"Não é."
Caio cruzou as mãos.
"Rafael, ninguém está pedindo para você atacar Helena."
"Que generoso."
"Estamos pedindo distância."
"Distância?"
"Até tudo ser esclarecido."
Outro conselheiro completou:
"Anuncie o fim do noivado."
Rafael soltou uma risada curta.
"Vocês estão falando sério?"
Vitória permaneceu em silêncio.
"Uma nota simples."
"Não."
"Rafael..."
"Eu disse não."
Caio levantou.
"Você vai arriscar tudo por uma mulher que está tentando destruir nossa família?"
Rafael caminhou até ele.
"Você está com medo de quê?"
O sorriso de Caio desapareceu.
"Tenha cuidado."
"Meu tio está vivo."
"Seu tio?"
Caio corrigiu com ironia.
"O pai dela."
Rafael ficou ainda mais sério.
"Você cresceu chamando Augusto de tio?"
Caio não respondeu.
Vitória finalmente levantou.
"Chega."
Todos olharam.
Ela se aproximou do filho.
"Rafael, pense no que está fazendo."
"Estou pensando."
"Seu pai construiu parte desse grupo."
"Augusto também."
Vitória fechou os olhos.
A frase atingiu a sala inteira.
"Não sabemos até onde Helena pretende ir."
Rafael olhou para a mãe.
Vitória falou baixo:
"Escolha sua família."
O silêncio durou vários segundos.
Rafael olhou para Caio.
Depois para os conselheiros.
Por fim, caminhou até a porta.
Helena estava do lado de fora.
Ela havia chegado para entregar a Rafael documentos solicitados por Mariana.
Não esperava ouvir a discussão.
Os olhos dos dois se encontraram.
Rafael caminhou até ela.
Parou ao seu lado.
Então olhou novamente para Vitória.
"Eu já escolhi."
Helena não disse nada.
Mas quando Rafael segurou sua mão, ela não soltou.
Pela primeira vez desde o casamento interrompido, sentiu que não estava enfrentando aquilo sozinha.
Naquela tarde, Mariana telefonou.
"Encontramos uma coisa."
Helena e Rafael foram até a delegacia.
Mariana colocou uma fotografia antiga sobre a mesa.
Um homem de aproximadamente quarenta anos aparecia diante do Haras Almeida.
"João Batista Ferreira."
Helena nunca tinha visto aquele rosto.
"Quem era?"
"Funcionário de Otávio."
Mariana abriu outra pasta.
"Tratador de cavalos."
"E o que ele tem a ver com meu pai?"
"João desapareceu na mesma semana que Augusto."
Rafael franziu a testa.
"Na mesma semana?"
"Três dias depois."
"Por que ninguém ligou os casos?"
"Porque João não tinha família próxima em São Paulo."
Mariana colocou outro documento sobre a mesa.
"Foi registrado como funcionário que abandonou o emprego."
Helena sentiu um arrepio.
"Você acha que..."
Mariana assentiu.
"Existe uma possibilidade de que o corpo enterrado como Augusto seja João."
Helena ficou pálida.
"Como descobrimos?"
"Exumação."
A palavra atingiu Helena com força.
O túmulo que visitara durante dezesseis anos seria aberto.
Mas agora ela precisava saber.
"Faça."
Mariana assentiu.
"Já pedimos autorização judicial."
Do outro lado da cidade, Caio recebeu a notícia poucas horas depois.
O copo em sua mão caiu.
Quebrou no chão.
"Quem autorizou isso?"
O advogado respondeu:
"A Justiça."
Caio caminhou até a janela.
"Não podem abrir aquele túmulo."
"Não temos como impedir."
Caio ficou em silêncio.
Pela primeira vez, o controle desapareceu de seu rosto.
Naquela noite, Augusto acordou assustado.
Helena estava ao lado dele.
"Pai?"
Augusto tentou se levantar.
"Galpão."
"Calma."
"O galpão."
"Qual?"
Augusto segurou a mão dela.
"Mairiporã."
Helena ficou tensa.
"O que tem lá?"
"Livro."
"Que livro?"
Augusto respirou com dificuldade.
"Contas."
"Do Otávio?"
Ele assentiu.
"Escondido."
Helena chamou Rafael.
Meia hora depois, os dois já estavam no carro.
Mariana havia sido avisada, mas estava do outro lado da cidade acompanhando os procedimentos da exumação.
A antiga propriedade ficava em uma estrada isolada de Mairiporã.
Quando Helena e Rafael se aproximaram, viram o clarão.
"Meu Deus."
O galpão estava em chamas.
Rafael freou.
"Fica no carro."
Helena já estava abrindo a porta.
"Não."
"Helena!"
Ela correu.
As chamas avançavam pelo telhado.
Fumaça saía das janelas quebradas.
"Tem alguém aí?"
Nenhuma resposta.
Rafael tentou segurá-la.
"Não entra!"
"Se o livro estiver lá, vai desaparecer!"
"Você pode morrer!"
Uma parte lateral do galpão ainda não havia sido atingida.
Helena cobriu o rosto com o braço.
Entrou.
"Helena!"
Rafael correu atrás.
A fumaça queimava os olhos.
Caixas estavam espalhadas pelo chão.
Prateleiras começavam a pegar fogo.
"Livro!"
Helena tossiu.
"Onde você esconderia um livro?"
Ela viu uma mesa antiga.
Nada.
Um armário.
Vazio.
Então percebeu uma placa de metal sob alguns sacos.
"Rafael!"
Os dois afastaram o material.
Havia um pequeno cofre embutido no chão.
O metal estava quente.
"Achamos."
Rafael tentou puxar.
"Precisamos sair."
Helena enrolou um pedaço de tecido na mão.
Agarrou a alça.
O cofre cedeu alguns centímetros.
"Mais uma vez."
Rafael olhou para o teto.
"Agora!"
Ele correu para afastar uma viga caída que bloqueava parte da passagem.
Helena puxou o cofre.
Conseguiu soltá-lo.
Então ouviu passos atrás dela.
Pensou que fosse Rafael.
"Me ajuda!"
Ninguém respondeu.
Helena se virou.
A fumaça abriu por um instante.
Um homem estava parado a poucos metros.
Camisa escura.
Rosto iluminado pelas chamas.
Helena congelou.
"Caio?"