Helena continuou olhando para a fotografia.
Augusto estava de um lado.
Otávio, do outro.
E Vitória Montenegro sorria entre os dois como se pertencessem à mesma história.
Teresa permaneceu perto da cama, em silêncio.
"Quando essa foto foi tirada?"
Helena virou o papel.
Havia uma data escrita à mão.
Ela sentiu o estômago se contrair.
"Três dias antes."
Teresa abaixou os olhos.
"Antes de seu pai desaparecer."
Helena releu a data.
Três dias.
Não dez anos antes.
Não quando todos eram apenas jovens amigos.
Três dias antes de Augusto sumir.
"Por que eles estavam juntos?"
"Eu não sei exatamente."
"Você nunca perguntou?"
"Perguntei."
"E?"
"Augusto disse que precisava resolver uma coisa."
Helena levantou a fotografia.
"Com os dois?"
Teresa não respondeu.
Helena já não aguentava mais respostas incompletas.
"Você passou dezesseis anos escondendo isso."
"Eu tive medo."
"De quê?"
"De tudo."
Teresa se aproximou.
"Depois que seu pai morreu, eu recebi telefonemas sem ninguém falar."
Helena ficou imóvel.
"Que telefonemas?"
"Durante semanas."
"Por que nunca me contou?"
"Porque você tinha dezesseis anos!"
"Eu tenho trinta e dois agora."
Teresa chorou.
"E eu passei todos esses anos tentando esquecer."
Helena guardou a fotografia.
"Eu não quero esquecer."
Ela encarou a mãe.
"Eu quero descobrir."
Naquela mesma tarde, Helena voltou ao Hospital São Gabriel Paulista.
Augusto dormia.
Seu rosto estava mais tranquilo.
Delegada Mariana Ribeiro estava no corredor conversando com doutor Felipe.
Quando viu Helena, fez um gesto.
"Precisamos falar."
Helena entregou a fotografia.
Mariana analisou a frente.
Depois virou.
"Essa data é importante."
"Minha mãe guardou isso durante dezesseis anos."
"A senhora Vitória já foi chamada para prestar esclarecimentos."
Helena respirou fundo.
"E os arquivos que encontramos?"
"Minha equipe vai solicitar formalmente os documentos."
"Formalmente?"
"Se eu simplesmente recolher material de propriedade privada sem autorização, posso destruir o caso antes de começar."
Helena assentiu, impaciente.
"Então comece."
Mariana não se ofendeu.
"Já comecei."
Ela abriu uma pasta.
"Conseguimos recuperar parte dos registros comerciais do antigo Haras Almeida."
Helena se aproximou.
"O que descobriram?"
"Seu pai não era apenas fornecedor de Otávio."
Mariana colocou dois documentos sobre a mesa.
"Eles começaram o negócio juntos."
Helena franziu a testa.
"Juntos?"
"Augusto tinha experiência técnica."
"Otávio tinha capital."
"Exatamente."
Mariana apontou para as assinaturas.
"Boa parte das primeiras matrizes, dos primeiros animais de competição e dos contatos comerciais veio do trabalho do seu pai."
Helena ficou em silêncio.
Durante toda a vida, havia ouvido falar da tradição equestre dos Montenegro.
Revistas.
Eventos.
Leilões.
Patrocínios.
Era apresentada como uma história construída por Otávio.
Mas o nome de Augusto aparecia no início de tudo.
"Então eles apagaram meu pai."
Mariana respondeu com cuidado.
"Ainda não podemos dizer que foi intencional."
Helena soltou uma risada amarga.
"Depois que ele morreu, Otávio comprou os animais por quase nada."
"Isso também está sendo analisado."
"E transformou tudo em patrimônio Montenegro."
Mariana fechou a pasta.
"Helena, uma coisa de cada vez."
"Meu pai perdeu dezesseis anos."
Helena encarou a delegada.
"Eu já perdi tempo demais."
Uma voz veio atrás delas.
"Ela tem razão."
Vitória estava no corredor.
Rafael vinha alguns passos atrás.
Helena endureceu imediatamente.
Vitória olhou para a fotografia nas mãos de Mariana.
"Você trouxe."
"Minha mãe trouxe."
Vitória respirou fundo.
"Então Teresa finalmente resolveu falar."
Helena avançou.
"Agora você vai falar também."
Rafael entrou entre as duas.
"Sem briga."
"Eu não vim brigar."
Vitória olhou para Helena.
"Vim contar o que aconteceu naquela fotografia."
Mariana abriu a porta de uma pequena sala reservada.
Todos entraram.
Vitória sentou.
Pela primeira vez, parecia cansada.
"Augusto, Otávio e eu nos conhecíamos desde muito antes de Rafael nascer."
Helena permaneceu em pé.
"Vocês eram sócios."
"Augusto e Otávio eram."
"E você?"
"Eu ajudava."
"Como?"
"Organizava clientes, eventos, documentos."
Vitória olhou para Rafael.
"Naquela época, os Montenegro não eram o que são hoje."
Rafael cruzou os braços.
"Então a história do tio fundando tudo sozinho..."
"Não é verdadeira."
O silêncio caiu.
Vitória continuou:
"Augusto conhecia cavalos melhor do que qualquer pessoa que eu já vi."
"Ele escolhia os animais."
"Treinava."
"Sabia identificar linhagem apenas olhando estrutura e movimento."
Helena sentiu uma dor estranha.
Era como conhecer uma parte do próprio pai depois de perdê-lo duas vezes.
"Otávio cuidava do dinheiro."
Vitória apertou as mãos.
"No começo, funcionou."
"E depois?"
"Otávio ficou ganancioso."
Mariana perguntou:
"Em que momento começaram as fraudes?"
Vitória respirou fundo.
"Eu não sei exatamente."
"Mas Augusto começou a desconfiar quando alguns animais apareciam sem documentação completa."
Helena lembrou dos arquivos.
"Cavalos roubados."
Vitória assentiu.
"Alguns."
"E os outros?"
"Animais com histórico alterado."
"Pedigrees falsificados."
"Registros veterinários adulterados."
Rafael ficou pálido.
"Minha família construiu patrimônio com isso?"
"Não tudo."
Vitória falou rápido.
"Depois muita coisa foi regularizada, novas empresas foram abertas..."
"Mas começou assim."
Rafael a interrompeu.
Vitória não conseguiu negar.
Helena perguntou:
"Meu pai descobriu."
"Sim."
"E tentou parar Otávio."
"Sim."
"Você tentou impedir meu pai de denunciar."
Vitória fechou os olhos.
"Sim."
Rafael olhou para a mãe como se não a reconhecesse.
"Você pediu para Augusto ficar calado?"
"Eu estava tentando impedir uma tragédia."
Helena perdeu a paciência.
"Você estava tentando proteger Otávio."
"Eu estava tentando proteger todos nós."
"Meu pai não era parte desse 'nós'?"
Vitória ficou em silêncio.
Helena sentiu a resposta.
"Claro."
"Quando ele quis fazer a coisa certa, deixou de ser."
Vitória levantou o olhar.
"Eu disse a Augusto que procurasse um advogado."
"Ele respondeu que já tinha provas suficientes."
"Provas contra quem?"
"Otávio."
"Mais alguém?"
Vitória demorou demais.
Mariana percebeu.
"Senhora Vitória?"
"Eu não sei."
"Não sabe ou não quer dizer?"
Vitória olhou para a delegada.
"Augusto acreditava que havia outras pessoas participando."
Helena lembrou da frase de Teresa.
Otávio não estava sozinho.
"Quem?"
"Ele nunca me disse."
Antes que Helena respondesse, o celular de Mariana tocou.
A delegada olhou para a tela.
"Com licença."
Ela saiu.
Voltou poucos minutos depois com outra expressão.
"Encontraram uma caixa de evidências do caso antigo."
Helena ficou tensa.
"Do carro?"
"Sim."
"O carro do meu pai ainda existe?"
"Não."
Mariana respondeu.
"Mas parte das amostras foi preservada."
Vitória levantou.
"Que amostras?"
"Sangue."
O silêncio mudou de peso.
Mariana olhou para Helena.
"Vamos refazer os exames usando técnicas atuais."
Dois dias depois, o resultado chegou.
Helena estava ao lado de Augusto quando Mariana entrou no quarto.
Rafael também estava presente.
"Temos o laudo."
Helena levantou.
"E?"
Mariana abriu a pasta.
"O sangue encontrado no banco do motorista era de Augusto."
Helena assentiu lentamente.
"Isso já sabíamos."
"Mas havia uma segunda amostra."
Rafael franziu a testa.
"De quem?"
"Ainda não sabemos."
Mariana colocou o documento sobre a mesa.
"Mas não era de Augusto."
Helena sentiu um arrepio.
"Então havia outra pessoa ferida no carro."
"Provavelmente."
Augusto abriu os olhos.
Até aquele momento, todos acreditavam que ele dormia.
Seu peito começou a subir mais rápido.
Helena percebeu.
"Pai?"
Augusto olhou para Mariana.
"Sangue..."
Felipe, que estava próximo, aproximou-se.
"Senhor Augusto, não precisa forçar a memória."
Augusto ignorou.
"Carro."
Helena sentou ao lado dele.
"O que você lembra?"
Ele levou uma mão à testa.
"Chuva."
"Naquela noite estava chovendo?"
Augusto fechou os olhos.
"Faróis."
"Uma discussão."
Rafael se aproximou.
"Com Otávio?"
Augusto não respondeu.
Sua respiração acelerou.
Helena segurou sua mão.
"Pai, olha para mim."
Ele abriu os olhos.
"Um rapaz."
Helena franziu a testa.
"Que rapaz?"
Augusto parecia lutar contra algo dentro da própria cabeça.
"Jovem."
"Estava com Otávio?"
Augusto apertou os dedos de Helena.
"Sim."
Vitória, que acabara de chegar à porta, congelou.
Augusto virou lentamente o rosto.
Olhou para ela.
O medo nos olhos de Vitória foi imediato.
"Augusto..."
Ele começou a respirar mais forte.
"Eu conhecia."
"Quem?"
Helena perguntou.
Augusto fechou os olhos.
Uma imagem parecia finalmente atravessar a névoa de dezesseis anos.
Então ele pronunciou um nome.
"Caio."
Rafael ficou imóvel.
Vitória levou a mão à boca.
Helena olhou de um para o outro.
"Quem é Caio?"
Rafael demorou a responder.
Quando conseguiu, sua voz estava baixa.
"Meu primo."
Ele parecia não acreditar no que dizia.
"Caio Montenegro."
Helena sentiu o peito apertar.
Rafael passou as mãos pelos cabelos.
"Isso não faz sentido."
"Ele tinha vinte e dois anos naquela época."
Rafael olhou para Augusto.
"Caio era praticamente meu irmão."
Augusto abriu os olhos.
Dessa vez, não havia confusão.
Não havia hesitação.
Ele fixou o olhar em Rafael e disse:
"Ele estava naquela noite."