Sara saiu da sombra das árvores com o vestido rasgado nos joelhos e Leo preso ao peito.
Henrique atravessou o pátio, caiu de joelhos e segurou os dois. Retirou o filho do sling improvisado, verificou o rosto e beijou sua testa repetidas vezes.
— Vocês estão vivos.
— Eu prometi protegê-lo.
Helena aproximou dois paramédicos. Sara entregou Leo para avaliação e só então deixou que examinassem seus braços cortados.
Vitória permaneceu junto ao carro.
— Que cena comovente — disse. — Pergunte onde ela estava quando o fogo começou.
Sara retirou o gravador do bolso. O plástico estava arranhado, porém a luz vermelha continuava acesa.
— No seu telefone, a senhora falou alto.
Vitória perdeu a cor.
Sara apertou play. Primeiro surgiram passos e vento. Depois a voz nítida:
"O plano A falhou. Incendeie tudo hoje. Quero a casa no chão, com o bebê dentro."
Helena ouviu até o fim e ordenou a prisão. Vitória tentou entrar no carro; dois agentes algemaram seus pulsos.
— Isso foi montado!
— A perícia decide — respondeu Helena.
Rogério e os outros homens foram capturados na estrada do riacho. Um carregava o telefone criptografado com as mensagens de Vitória.
Sara descreveu a fuga: a grade, a varanda, a treliça e o tronco oco onde se escondera. Um perseguidor passara a menos de um metro. Leo encostara o rosto em seu ombro e permanecera quieto.
— Como voltou ao portão? — perguntou Helena.
— Eles desceram para o riacho. Eu subi pela trilha dos funcionários e segui as sirenes.
Henrique apertou a manta térmica em torno dos ombros dela.
— Você atravessou a casa em chamas com meu filho.
— Atravessei um duto. A casa estava em volta.
— Podia ter morrido.
— Ele também.
A resposta encerrou qualquer tentativa de agradecimento fácil.
No hospital, Leo recebeu oxigênio preventivo e foi liberado. Sara levou pontos no antebraço. Henrique tinha uma costela fissurada e queimaduras leves.
Durante a madrugada, os três permaneceram no mesmo quarto. Leo dormiu entre a poltrona de Sara e a cama de Henrique.
— Não volte a me trancar do lado de dentro — disse ela.
— Eu precisava tirar vocês da mira.
— Precisava confiar que eu ajudaria a decidir.
Henrique apoiou a cabeça no travesseiro.
— Tem razão.
— Essa resposta veio rápido.
— Quase perdi vocês. Algumas lições chegam sem espaço para orgulho.
Sara segurou a mão de Leo por cima do berço hospitalar. Henrique estendeu a sua do outro lado. Os dedos deles se tocaram junto ao punho do bebê.
— Vitória disse que eu queria sua vida — falou Sara. — Amanhã a imprensa vai repetir.
— Amanhã meu advogado entrega o áudio completo.
— Não quero ser transformada em santa nem em amante secreta.
— O que quer?
— Segurança para Leo. Contrato claro para mim. E que a fundação pare de tratar cuidadora como mobília.
Henrique assentiu.
— Você vai participar de cada decisão.
Do corredor veio a notícia de que a ala oeste fora controlada. A sala clara, o piano e parte da galeria tinham sido destruídos.
Sara olhou para Leo.
— A casa pode ser refeita.
Henrique cobriu a mão dela.
— Família também?
Ela não retirou os dedos, mas deixou a pergunta sem resposta.
Pouco depois, Helena entrou no quarto com sacos de prova. O gravador havia sobrevivido, mas precisaria ser copiado antes que a bateria acabasse. Sara autorizou a retirada na presença de seu advogado.
— Eu não tenho advogado.
Henrique abriu a boca.
— A fundação vai fornecer um independente — disse Helena antes dele. — Pago pela instituição, escolhido pela senhora.
Sara assentiu.
A capitã colocou sobre a mesa o telefone de Rogério dentro de uma embalagem transparente. Na tela quebrada havia uma transferência de Vitória e uma mensagem:
A governanta usa gravador no avental. Pegue antes de queimar.
— Ela sabia do aparelho — disse Sara.
— Provavelmente ouviu você comentar o inventário — respondeu Henrique.
— Então o incêndio também servia para destruir prova.
Helena confirmou. O ferro, a bandeja e parte do sofá tinham sido resgatados antes de o teto ceder. Peritos localizaram acelerante em quatro pontos e o bloqueador junto ao quadro.
— Vitória alega que foi chamada por um funcionário e voltou para ajudar.
Sara mostrou os próprios pés enfaixados.
— Ela estava no jardim antes de a polícia chegar. Mandou dois homens atrás de mim.
— Seu depoimento será gravado amanhã. Hoje descanse.
Sara olhou Leo dormindo.
— Quando ele estiver num lugar com acesso controlado.
O hospital transferiu os três para um andar reservado. Dois policiais ficaram na porta. A equipe verificou nomes e bolsas. Sara pediu uma lista escrita de quem podia entrar.
Henrique observou enquanto ela prendia a folha à parede.
— Você ainda está trabalhando.
— Estou impedindo que a mesma coisa aconteça duas vezes.
— Deixe alguém cuidar de você.
Sara levantou o braço com pontos.
— A enfermeira cuidou. Agora preciso saber onde está Célia.
Henrique ligou para o hotel. Célia e os demais funcionários estavam seguros. O homem preso no quadro fora detido. A polícia capturara outro perto do riacho; Rogério continuava escondido.
— Enquanto ele estiver solto, ninguém anuncia onde estamos — Sara disse.
Helena concordou e proibiu boletins com localização.
Na madrugada, um alarme de equipamento tocou no corredor. Sara acordou de pé, segurando o suporte de soro como arma. Henrique abriu os olhos na cama ao lado.
— Foi uma bomba de infusão — explicou a enfermeira.
Sara soltou o metal. As mãos tremiam.
Henrique não se levantou nem tentou abraçá-la. Estendeu a palma sobre o lençol, deixando a distância para que ela escolhesse.
Sara sentou e colocou a mão na dele.
— Eu ouvi o maçarico de novo.
— Aqui é o hospital.
— Eu sei onde estou.
Henrique permaneceu calado até a respiração dela diminuir.
Ao amanhecer, Helena recebeu uma mensagem da equipe na mata. Rogério fora encontrado numa cabine abandonada, com o telefone de Vitória, uma arma e o saldo restante do pagamento.
Sara apertou a mão de Henrique uma vez e soltou.
— Agora podemos começar a provar tudo.
O primeiro depoimento foi tomado no hospital. Sara pediu que Henrique não permanecesse na sala, evitando qualquer acusação de versões combinadas.
Ela descreveu apenas o que viu. Quando o investigador sugeriu que Vitória encostara o ferro, corrigiu:
— Vi o aparelho perto. Não vi contato com a pele.
— Isso pode enfraquecer a acusação.
— É o que aconteceu.
Na sala ao lado, Henrique deu sua versão separadamente. Os horários coincidiram. A gravação preencheu o que nenhum deles presenciara.
Quando terminaram, Sara pediu cópia do protocolo e guardou na pasta médica de Leo. Cada passo teria data, nome e responsável.
Henrique voltou apenas quando o investigador autorizou. Trouxe café, água e uma muda de roupa, deixando tudo sobre a cadeira.
— Posso ficar?
Sara olhou Leo dormindo entre eles.
— Pode. Sem responder por mim.
— Combinado.
Ele sentou no outro lado do quarto. Quando uma enfermeira pediu autorização para dar banho no bebê, Henrique esperou Sara conferir o nome no acesso antes de consentir.
O banho retirou fuligem das dobras do pescoço de Leo. Sara fotografou apenas as pequenas marcas para o prontuário, sem mostrar o rosto. Henrique assinou a autorização médica e pediu cópia dos exames.
Quando a enfermeira saiu, ele colocou o telefone no modo avião.
— A fundação pode esperar uma hora.
— Leo não vai dormir esse tempo todo.
— Então espero acordado com ele.
Sara recostou na poltrona pela primeira vez desde o incêndio. Henrique permaneceu junto ao berço, contando cada respiração sem tocar no bebê.