Victor não tirava os olhos de Gabriel.
Mariana percebeu antes de todos.
Puxou o filho para trás do próprio corpo.
"Você não vai chegar perto dele."
Victor soltou um riso cansado.
"Eu não sou o problema agora."
Dante deu um passo à frente.
"Então explica."
Victor passou a língua pelo canto ferido da boca.
"Augusto sabe que os arquivos do Projeto Vértice saíram do controle."
Rafael cruzou os braços.
"Isso nós já sabemos."
"Não."
Victor olhou para ele.
"Vocês sabem uma parte."
Dante perdeu a paciência.
"Fala."
Victor apontou com o queixo para Gabriel.
"A pulseira não guardava só provas."
Mariana sentiu o coração acelerar.
"Que mais tinha lá?"
"Chaves."
Rafael franziu a testa.
"Que tipo de chaves?"
"Criptográficas."
Victor respirou com dificuldade.
"Eduardo não era idiota. Ele sabia que, se roubasse tudo de Augusto, seria caçado."
Dante se aproximou.
"E foi."
Victor assentiu.
"Então ele dividiu o acesso."
Mariana ficou imóvel.
"Dividiu como?"
"Uma parte estava na pulseira."
"E a outra?"
Victor olhou para ela.
"Nos registros de nascimento de Gabriel."
Mariana sentiu o chão desaparecer.
"Que registros?"
"Data exata."
"Horário."
"Hospital."
"Identificador interno."
Victor fechou os olhos.
"Eduardo usou informações que só você teria motivo para guardar."
Mariana apertou os punhos.
"Então Augusto precisa de mim."
"Precisa."
Victor voltou a olhar para Gabriel.
"E precisa dele vivo."
Dante virou imediatamente para Rafael.
"Leva os meninos para outro lugar."
Isabela se levantou.
"Agora?"
"Agora."
Rafael assentiu.
"Eu conheço uma casa fora do circuito do grupo."
Dante negou.
"Não usa nada ligado à Montenegro."
"Concordo."
Mariana segurou Gabriel.
"Eu vou junto."
Dante olhou para ela.
"Não."
Ela endureceu.
"Ele é meu filho."
"Exatamente."
"Não me manda ficar."
"Augusto pode estar esperando você acompanhar."
Mariana respirou fundo.
"E pode estar esperando eu ficar."
Dante ficou em silêncio.
Victor soltou uma risada amarga.
"Vocês ainda acham que Augusto precisa ver vocês para saber onde estão."
Rafael olhou para ele.
"Tem um infiltrado?"
Victor não respondeu.
Rafael agarrou a gola dele.
"Tem alguém passando informação?"
Victor encarou.
"Augusto sempre tem alguém."
A frase mudou tudo.
Em menos de vinte minutos, a casa segura foi esvaziada.
Gabriel e Lucas seguiram em um carro separado, acompanhados por Isabela e dois agentes escolhidos por Rafael.
Mariana não gostou.
Nada parecia seguro.
Mas Dante insistiu que ela permanecesse para ajudar a reconstruir as chaves de acesso.
"Eu vou buscar ele depois."
Mariana falou.
Dante assentiu.
"Assim que o local estiver estabilizado."
Ela olhou para Victor.
"Se alguma coisa acontecer com Gabriel..."
Victor interrompeu.
"Vai acontecer se você continuar perdendo tempo comigo."
Mariana quis bater nele.
Não bateu.
O novo esconderijo ficava em uma chácara discreta, longe das propriedades conhecidas do Grupo Montenegro.
Sem funcionários antigos.
Sem câmeras corporativas.
Sem carros oficiais.
Rafael escolheu tudo em menos de uma hora.
No começo, funcionou.
Isabela ligou quando chegou.
"Estamos bem."
Mariana fechou os olhos.
"Deixa eu falar com ele."
Gabriel apareceu na chamada.
"Mamãe."
"Está tudo bem?"
"Tem um quarto com cama grande."
Mariana sorriu apesar do medo.
"E o Lucas?"
"Está desenhando."
"Você fica perto da tia Isabela."
"Tá bom."
"Não abre porta."
"Tá."
"Não sai."
"Tá."
Mariana respirou fundo.
"Eu amo você."
Gabriel sorriu.
"Eu amo mais."
A ligação terminou.
Por quase duas horas, nada aconteceu.
Dante e Rafael trabalharam com os técnicos.
Victor ficou preso em uma sala protegida.
Mariana tentou reconstruir memórias antigas.
O nascimento.
O horário.
O nome da enfermeira.
O número do quarto.
Qualquer coisa que Eduardo pudesse ter usado.
Então o celular de Rafael vibrou.
Ele olhou.
A expressão mudou.
"Perdemos contato."
Mariana levantou imediatamente.
"Com quem?"
Rafael já estava ligando.
"Com a equipe da chácara."
Dante ficou de pé.
"Quanto tempo?"
"Três minutos."
Mariana pegou o celular.
Ligou para Isabela.
Nada.
De novo.
Nada.
"Rafael."
Ele não respondeu.
Mariana gritou.
"RAFAEL."
"Estamos indo."
O trajeto pareceu eterno.
Quando chegaram, o portão estava aberto.
Um dos carros estava atravessado na entrada.
Dante sacou a arma.
"Mariana, fica aqui."
Ela saiu do carro.
"Nem tenta."
Rafael entrou primeiro.
A casa estava escura.
Sem energia.
O quadro elétrico havia sido destruído.
Um dos agentes estava desacordado perto da cozinha.
Outro tinha sido amarrado.
"Isabela!"
Dante gritou.
Uma voz respondeu do andar de cima.
"Dante!"
Ele correu.
Mariana foi atrás.
Isabela estava no corredor.
Descalça.
Chorando.
Lucas agarrado à perna dela.
Mariana olhou em volta.
Gabriel não estava.
O corpo dela gelou.
"Cadê meu filho?"
Isabela tentou falar.
Nada saiu.
Mariana agarrou seus braços.
"CADÊ O GABRIEL?"
"Levaram."
A palavra destruiu o ar.
Mariana recuou.
"Não."
Isabela chorou.
"A luz apagou."
"Não."
"Os seguranças foram atacados."
"Não."
"Eu fui até o quarto..."
Mariana correu.
Abriu a porta.
Lucas dormia ali antes.
Havia dois travesseiros.
Dois cobertores.
Mas apenas uma criança estava na casa.
Na cama, alguma coisa chamou atenção.
Um livro.
Mariana parou.
Era o livro de colorir de Gabriel.
O mesmo que ele levara escondido para a Mansão Montenegro.
O mesmo que estava com ele na noite em que tirou o dispositivo da orelha de Dante.
Mariana pegou.
Uma página estava dobrada.
Em cima dela havia um bilhete.
Dante entrou atrás.
Mariana abriu.
"TRAGA O ACESSO."
Abaixo:
"PORTO DE SANTOS."
"SOZINHA."
Mariana fechou os olhos.
Dante pegou o papel.
"Você não vai."
Ela virou.
"Como é?"
"Isso é uma armadilha."
"Meu filho está lá."
"Justamente."
"Dante..."
"Augusto quer você isolada."
"E eu quero meu filho."
"Ele vai matar você."
Mariana perdeu o controle.
"VOCÊ PERDEU TRÊS ANOS DA SUA VIDA."
Todos ficaram em silêncio.
Ela apontou para ele.
"Três anos."
"Eu sei."
"Não."
A voz dela quebrou.
"Você não sabe."
Dante ficou imóvel.
Mariana continuou.
"Você perdeu som."
"Perdeu Isabela."
"Perdeu o começo da vida do seu filho."
As lágrimas começaram a cair.
"Então não me peça para ficar sentada esperando alguém decidir se Gabriel volta vivo."
Dante tentou se aproximar.
Mariana recuou.
"Você perdeu três anos da sua vida."
Ela bateu a mão no próprio peito.
"Eu não vou perder meu filho nem por três minutos."
Dante ficou sem resposta.
Rafael apareceu no corredor.
"Tem outra coisa."
Todos olharam.
Ele segurava o celular de um dos agentes.
"A câmera externa gravou parte da invasão antes de cair."
A imagem mostrava homens entrando.
Um deles usava uniforme de manutenção.
Outro conhecia exatamente o ponto cego.
Isabela ficou pálida.
"Alguém passou a planta."
Rafael assentiu.
"Augusto sabia o lugar."
Dante fechou os olhos.
Victor tinha razão.
Havia um infiltrado.
Mas não havia tempo para descobrir.
Os técnicos prepararam uma unidade falsa.
Uma memória idêntica.
Arquivos sem valor.
Camadas de criptografia falsas.
Rafael colocou dentro de uma bolsa pequena.
"Se Augusto testar rapidamente, vai parecer real."
Mariana pegou.
Dante segurou a mão dela.
"Eu vou com você."
"Não."
"Não existe discussão."
"Existe."
"Mariana."
"Ele pediu sozinha."
"Ele é um sequestrador. Não merece confiança."
"Mas está com meu filho."
Dante apertou a mandíbula.
"Vou manter distância."
Ela respirou fundo.
"Se ele perceber..."
"Não vai."
Rafael preparou uma equipe fora do perímetro.
Nenhum carro oficial.
Nenhuma comunicação aberta.
Mariana seguiu sozinha na parte final.
O Porto de Santos estava coberto por uma névoa úmida.
Contêineres formavam corredores enormes.
Guindastes apareciam ao longe.
O endereço levava a um armazém abandonado perto de uma área desativada.
Mariana saiu do carro.
A bolsa tremia em sua mão.
Ela entrou.
Luzes antigas se acenderam uma a uma.
No centro do galpão havia uma cadeira.
Vazia.
Mariana sentiu o coração bater na garganta.
"Gabriel!"
Nada.
"Gabriel!"
Passos surgiram no piso metálico do mezanino.
Um homem apareceu.
Augusto Montenegro.
Calmo.
Bem vestido.
Como se estivesse chegando a uma reunião.
Mariana o reconheceu imediatamente.
Ele desceu devagar.
"Então você é Mariana."
Ela apertou a bolsa.
"Cadê meu filho?"
Augusto sorriu.
"Direta."
"Cadê ele?"
"Você trouxe?"
"Primeiro eu quero ver Gabriel."
Augusto observou.
"Eduardo sempre dizia que você era teimosa."
Mariana parou.
"Não fala dele."
"Por quê?"
Ele continuou se aproximando.
"Porque ainda dói?"
"Cadê meu filho?"
Augusto ficou a poucos metros.
"Os arquivos."
Mariana ergueu a bolsa.
"Estão aqui."
"Não."
Ele sorriu.
"Os arquivos são inúteis sem o acesso."
"Então você precisa de mim."
"Preciso de algumas respostas."
"Depois eu quero Gabriel."
Augusto fez um gesto.
Uma porta lateral abriu.
Mariana parou de respirar.
Gabriel apareceu.
Dois homens estavam com ele.
O menino parecia assustado.
Mas estava vivo.
"Mamãe!"
Mariana deu um passo.
"Gabriel!"
Um dos homens segurou o ombro dele.
Mariana congelou.
"Não toca nele."
Augusto sorriu.
"Ele é corajoso."
"Deixa ele vir."
"Depois."
Mariana olhou para o filho.
"Está machucado?"
Gabriel balançou a cabeça.
"Não."
Ela respirou.
"Eu estou aqui."
Augusto observou os dois.
"Bonito."
Mariana virou para ele.
"Você conseguiu o que queria."
"Quase."
"Então fala logo."
Augusto pegou a bolsa.
Abriu.
Olhou a memória.
Depois encarou Mariana.
"Você sabia que Eduardo tentou fazer a mesma coisa?"
Ela gelou.
"O quê?"
"Negociar."
"Ele tentou salvar você."
Mariana ficou imóvel.
"Você sabe onde ele está?"
Augusto soltou um pequeno sorriso.
"Eu sei exatamente onde Eduardo terminou."
Mariana perdeu a cor.
"Não."
"Ele fez uma escolha."
Augusto apontou para Gabriel.
"Uma escolha muito cara."
Mariana sentiu as pernas enfraquecerem.
Augusto se aproximou e falou baixo:
"Seu filho só está vivo porque o pai dele morreu no lugar dele."