Seis meses depois, Davi entrou no Renascença dez minutos antes do turno e reclamou do peso do primeiro balde de gelo.
— Isso devia contar como academia — disse.
Paula apontou para o relógio.
— Chegou cedo. Tá doente?
— Responsável.
— Piorou.
Sara conferiu a escala e marcou o horário. Davi usava os dois braços sem dificuldade. No bolso do uniforme, carregava a ficha de cento e oitenta dias sem aposta dobrada em quatro.
O lounge reabrira após reforma. A madeira chamuscada do balcão fora preservada numa faixa estreita, a pedido de Paula. "Pra lembrar que gerente nova dá trabalho", dizia.
Ricci aguardava julgamento por tentativa de homicídio, extorsão, fraude e incêndio. As empresas legais de Gabriel haviam passado por auditoria externa. Duas foram vendidas. O sistema de apostas clandestinas encolheu até desaparecer dos lugares que Sara conseguia ver.
Ela nunca perguntou se desaparecera de todos.
O apartamento novo tinha aquecimento, fechadura que funcionava e contrato no nome dela. Sara pagava parte do aluguel com o próprio salário. O relógio antigo de Gabriel ficava numa caixa sobre a cômoda.
À 1h40, o último cliente saiu. Paula levou Davi até o metrô sob o pretexto de impedir que ele comprasse pastel.
Gabriel ocupava o banco no fim do balcão.
Vinha quase todas as noites perto do fechamento. Pedia uma dose, girava o copo e observava Sara conferir estoque.
— Você tá fazendo isso de novo — disse ela.
— O quê?
— Me olhando como problema sem solução.
— Ainda estou tentando resolver uma coisa.
Sara pendurou o pano.
— O beco?
— Já me deu quatro respostas.
— Talvez tenha quatro.
— Talvez eu não acredite.
Ela apoiou as mãos no balcão.
— Eu passei anos chegando depois. Depois da aposta do Davi, depois das contas da minha mãe, depois do Nando fechar o caixa sozinho. Naquela noite, vi a arma antes do tiro. Mexi o corpo e pronto.
Gabriel deixou o copo.
— Você colocou o corpo na frente de uma bala por um homem que não conhecia.
— Você estava morrendo na minha frente. Eu não consegui andar pro outro lado.
Ele contornou o balcão com a lentidão de quem ainda oferecia tempo para recuo.
Sara permaneceu onde estava.
— Passei seis meses criando motivo profissional para vir aqui — disse Gabriel. — Acabaram no segundo mês.
— E os outros quatro?
— Covardia bem vestida.
Ela soltou uma risada curta.
— Essa eu não esperava.
Gabriel parou perto dela. A mão subiu até o canto da boca de Sara, repetindo o caminho do sangue naquela madrugada. O polegar não tocou; esperou a distância de um sopro.
— Posso?
Sara segurou o punho dele e encostou a mão em seu rosto.
— Primeiro responde.
— Pergunta.
— O emprego foi um jeito elegante de me manter perto?
Gabriel tirou um envelope interno do paletó. Colocou três itens sobre o balcão: uma carta de desligamento assinada por ele, o contrato definitivo do apartamento em nome de Sara e um documento que transferia a gerência do lounge para uma empresa da qual ela possuía participação.
— Você pode sair amanhã. O apartamento continua seu. Sua parte no Renascença também. Eu não fico com você usando salário, dívida ou porta trancada.
Sara leu a carta. Dobrou uma vez. Depois rasgou ao meio.
Gabriel não sorriu.
— Isso responde ao emprego — disse ela.
— E ao resto?
Sara foi até o escritório e voltou com a caixa do relógio. Abriu sobre o balcão. Os ponteiros parados em 1h17 refletiram a luz do salão.
Ela tirou o próprio relógio e colocou ao lado.
— O meu continua andando.
— Sara...
— Você disse que parava de ser dívida quando eu pudesse escolher.
Gabriel esperou.
Sara agarrou a camisa dele, como no beco. Dessa vez não havia arma, chuva ou plateia.
— Minha escolha.
Ela o beijou.
Gabriel tocou a cintura dela e parou, dando espaço para que Sara conduzisse. O beijo começou devagar. Quando ela o puxou para perto, ele respondeu com a mão aberta nas costas, sem esconder ferimento, sem usar o corpo dela como escudo.
Sara afastou a boca apenas o suficiente para respirar.
— Você ainda calcula tudo?
— Tentei calcular isso por seis meses.
— Resultado?
— Caro demais para perder.
— Frase de mafioso.
— Ex-mafioso em auditoria.
Ela beijou a cicatriz no canto da boca dele. Gabriel fechou os olhos por um instante e apoiou a testa na dela.
— Agora você deixa de ser uma dívida — disse ele. — E vira uma escolha.
Sara fechou o caixa, girou a chave na porta e voltou até ele.
— Minha.
Alguém bateu no vidro.
Davi estava do lado de fora com o balde vazio erguido sobre a cabeça. Paula ria atrás dele.
— Esqueci a carteira! — gritou. — E cheguei cedo demais pro próximo turno!
Sara encostou a testa no peito de Gabriel. Os ombros dela sacudiram com a risada.
Ele abriu a porta. Davi entrou cobrindo os olhos com uma mão e procurando a carteira com a outra.
O relógio parado ficou sobre o balcão. Ao lado dele, o de Sara avançou para 1h18.
Gabriel acompanhou o movimento do ponteiro e puxou Sara de volta pela cintura. Davi encontrou a carteira no escritório, reapareceu na porta e levantou as duas mãos.
— Eu posso ir embora de novo. Sei fazer isso muito bem.
— Fica — Sara disse. — Você abre amanhã.
— Às sete?
— Às seis e meia.
Davi fez uma careta. Paula empurrou um saco de lixo contra o peito dele.
— Romance dá trabalho pra quem fecha.
Eles saíram discutindo sobre a escala. A porta travou, e o bar recuperou o zumbido das geladeiras.
Sara pegou o documento que havia rasgado. O contrato de desligamento estava dividido ao meio. A cessão do apartamento e a participação no lounge permaneciam intactas.
— Você preparou tudo antes de vir.
— Passei seis meses tentando achar uma forma de perguntar sem prender a resposta.
— E concluiu que advogado era romântico.
— Concluí que você precisava ter a porta aberta.
Sara dobrou os papéis restantes e colocou no bolso de Gabriel.
— A porta está aberta. Eu escolho quando fechar.
Ele tocou o rabo baixo do cabelo dela, soltando o elástico preso na ponta. Sara segurou o pulso dele.
— Cuidado. Ainda sou sua gerente.
— Só até você assinar como sócia.
— Aí fica pior.
Gabriel inclinou o rosto. Parou antes do beijo, deixando o espaço para ela atravessar. Sara puxou a gravata e encostou a boca na cicatriz já lisa.
O celular dele vibrou sobre o balcão. Lígia enviara uma foto: Ricci entrando no fórum algemado, seguido por dois policiais. A legenda tinha três palavras: "Acordo foi recusado."
Sara mostrou a tela.
— Acabou?
— A audiência começa amanhã.
— Então amanhã a gente depõe.
— Você pode ficar fora disso.
Ela recolocou o celular no bolso dele.
— Você ainda tenta decidir onde eu fico.
— Hábito antigo.
— Perde.
Gabriel assentiu. Sara pegou a chave do bar e apagou as luzes uma fileira de cada vez. Quando restou apenas a luminária sobre o balcão, ela trouxe duas xícaras de café e entregou uma a ele.
— Nosso primeiro encontro vai ser no fórum? — perguntou.
— Tecnicamente, o primeiro foi num beco.
— Aquilo foi atendimento de emergência.
— Você cobra caro.
Sara ergueu a xícara.
— Você sobreviveu.
— E você ficou.
— Fiquei aqui.
Sara aproximou a xícara dos lábios, escondendo o sorriso.
Gabriel tocou a borda da xícara na dela. O relógio quebrado continuou em 1h17. O outro avançou mais um minuto.