Sara chegou ao Renascença antes dos bombeiros.
A porta lateral estava aberta. O cheiro de combustível atravessava a calçada.
Gabriel segurou seu braço.
— Espera a equipe.
Do segundo andar veio uma pancada. Depois três, em ritmo rápido.
— É Paula.
Sara soltou o braço e entrou.
O salão permanecia intacto. Fumaça fina descia pela escada de serviço. No corredor, uma faixa de líquido brilhava sob a luz de emergência.
— Não pisa — disse Gabriel atrás dela.
— Você mandou esperar.
— Eu também não obedeci.
Lígia levou Davi para a porta principal e pediu que mantivesse a saída livre. Sara cobriu nariz e boca com uma toalha do bar.
— Paula!
— Estoque! — respondeu uma voz abafada.
A porta do estoque estava presa por uma corrente externa. Gabriel puxou a arma. Sara colocou a mão sobre o cano e baixou.
— Faísca.
Ela pegou o extintor, bateu o cilindro contra o cadeado e errou. Gabriel tomou o extintor, acertou duas vezes e partiu o fecho.
Paula caiu para fora, tossindo. Um corte atravessava sua testa.
— Ricci levou o servidor — disse. — Eu copiei antes. Mandei pra Lígia.
Uma chama subiu no fim do corredor.
Gabriel entregou Paula a Sara e avançou. Sara agarrou a camisa dele.
— A prova já saiu. Todo mundo pra rua.
— Ele está aqui.
— Então sai com a gente e fecha o prédio.
Um disparo atingiu a parede acima dos dois. Pó de gesso caiu no cabelo de Sara.
Ricci apareceu na varanda interna com a arma apontada.
— Você sempre escolhe mulher errada pra ouvir, Gabriel.
Gabriel empurrou Sara e Paula atrás do balcão. Davi abriu a porta principal por fora e gritou para os bombeiros.
— O servidor não vale nada — disse Sara. — Os arquivos foram enviados.
Ricci virou a arma para ela.
Gabriel saiu da cobertura.
— Olha pra mim.
— Você entregou onze anos por uma bartender.
— Você entregou sozinho quando mandou homens ao beco.
Ricci recuou até a escada. Lígia surgiu no patamar superior e bloqueou a saída.
— Acabou — disse ela.
Ele disparou. A bala atingiu o corrimão. Gabriel respondeu, acertando a mão armada. A pistola de Ricci caiu para o salão.
O fogo alcançou uma cortina. O sistema automático ainda não havia disparado.
Sara empurrou Paula em direção à saída. Uma viga decorativa caiu entre elas e o corredor.
— Vai pela cozinha! — gritou Davi.
Ele conhecia a passagem das entregas desde o primeiro treinamento. Entrou rastejando sob a fumaça, alcançou Paula e a levou até a porta frigorífica, onde o ar estava mais limpo.
Sara procurou Gabriel. Encontrou-o no pé da escada, arma apontada para Ricci, que segurava a mão ferida.
— Gabriel! A gente precisa sair.
— Ele tentou matar você.
— E vai responder vivo.
— Afasta, Sara.
Ela cruzou o salão. Fuligem cobria seu rosto e o colete. Parou diante da arma, perto o suficiente para tocar Gabriel.
— Olha pra mim.
Os olhos dele continuaram em Ricci.
Sara segurou o rosto de Gabriel com as duas mãos.
— Eu tô aqui. Abaixa.
O peito dele subia rápido. A arma desceu alguns centímetros.
Lígia algemou Ricci com uma abraçadeira e o empurrou para a escada de serviço.
O teto estalou. Gabriel guardou a arma, passou o braço pela cintura de Sara e a levou para fora.
No instante em que cruzaram a porta, os sprinklers dispararam. Água caiu pelo salão, apagando as chamas menores e encharcando os dois sob a marquise quebrada.
Sirene, botas e ordens ocuparam a rua. Paula estava sentada na ambulância. Davi permanecia ao lado dela, segurando o saco de gelo contra o corte.
Gabriel tocou a testa de Sara, procurando sangue. Ela afastou a mão e mostrou as palmas intactas.
Ele encostou a testa na dela.
— Eu quase cheguei tarde.
Sara segurou a lapela molhada.
— Então para de aparecer só quando tudo termina.
Os bombeiros empurraram Sara para a calçada. Paula recebeu oxigênio na ambulância, os olhos presos ao teto enquanto um paramédico limpava o corte da testa.
Gabriel ficou perto da viatura. A água escorria do cabelo para o colarinho e uma linha vermelha atravessava sua palma. Ele recusou o curativo duas vezes.
Sara pegou a caixa de gaze do paramédico e parou diante dele.
— Mão.
— É um corte.
— Eu sei reconhecer. Mão.
Ele entregou. Sara limpou o vidro preso perto do polegar e enrolou a faixa. A última vez que cuidara dele, mal sabia seu nome. Agora conhecia o modo como prendia a respiração quando o antisséptico ardia e como fingia olhar a rua para não acompanhar os dedos dela.
— Você voltou pro fogo — Gabriel disse.
— Paula estava lá.
— Ricci também.
Sara apertou o nó. Ele abriu e fechou a mão.
— Isso foi punição?
— Foi um lembrete.
Davi chegou no carro de Lígia, ainda com a fita hospitalar no pulso. Saltou antes de estacionarem e atravessou a rua mancando.
— Sara.
Ela virou a tempo de receber o abraço. A mão enfaixada dele ficou suspensa, sem saber onde tocar. Sara puxou o braço saudável para mais perto.
— Eu falei pra você ficar.
— Você também nunca fica.
Paula ergueu a máscara de oxigênio.
— Se terminaram a reunião de família, alguém avisa meu namorado que eu tô viva?
Davi foi até a ambulância. Tirou o próprio celular do bolso, lembrou da tela quebrada no estacionamento e pediu o aparelho a um bombeiro.
Lígia se aproximou com um saco de evidências. Dentro havia o telefone de Ricci, uma chave e um pen drive chamuscado.
— Ele fala em legítima defesa — disse.
Sara apontou para as câmeras externas.
— Entrou com dois galões. Paula viu. O aplicativo registrou o acesso dele.
— E o telefone tem as mensagens da emboscada — Lígia acrescentou. — O homem do beco aceitou depor.
Gabriel olhou para a viatura onde Ricci estava algemado.
— Ele vai tentar comprar silêncio.
— Então guarda o recibo — Sara disse.
Um policial chamou Gabriel para reconhecer a arma. Ele deu dois passos e parou.
— Quando isto acabar, quero falar com você.
— Sobre o lounge?
— Sobre o motivo de eu estar no lounge toda noite.
Sara ajeitou a gaze que sobrava na mão dele.
— Você nunca fica até o fechamento.
— Vou começar.
O comandante dos bombeiros chamou Sara para dentro da área isolada. O sistema dos chuveiros havia sido fechado no subsolo, e a chave encontrada com Ricci encaixava na válvula. Um agente fotografou o lacre rompido.
— Ele conhecia a planta — disse Sara.
Gabriel apontou para a câmera acima da saída.
— E sabia onde não seria filmado.
Paula retirou a máscara mais uma vez.
— Filmou a si mesmo no espelho do estoque. A câmera nova pega o reflexo.
Sara correu até o monitor portátil dos bombeiros. Na gravação, Ricci atravessava o corredor com um galão. O vidro da adega devolvia o rosto inteiro e a arma presa à cintura.
Lígia copiou o arquivo em dois dispositivos.
— Um vai para a polícia. O outro fica com o advogado.
— E o original? — Sara perguntou.
— Servidor externo. Paula fez a troca na semana passada.
Paula levantou dois dedos pela porta da ambulância.
— Promoção?
— Depois da alta — Sara respondeu.
Davi voltou com o telefone emprestado e entregou a Paula. O namorado dela chorava no alto-falante, tão alto que o paramédico afastou o aparelho.
Gabriel retirou o próprio paletó molhado e colocou sobre os ombros de Sara. Ela tentou devolver.
— Você está tremendo.
— Água fria.
— Fica com ele.
Sara enfiou os braços nas mangas. O tecido carregava fumaça e o perfume discreto que reconhecera no apartamento. A barra quase alcançou os joelhos.
— Amanhã você manda a conta da lavanderia?
— Já está incluída no contrato.
— Eu pedi pra tirar as letras pequenas.
— Você escreveu metade delas.
O sorriso dele durou pouco. Um policial abriu a porta da viatura, e Ricci virou o rosto na direção deles.
— Ela vai embora quando entender o que você é! — gritou.
Sara caminhou até a fita de isolamento. Gabriel segurou o cotovelo dela, sem puxar.
— Não dá a ele outra frase.
Ela encarou Ricci através da janela gradeada.
— Ele já tem provas suficientes.
A viatura partiu. Gabriel soltou o braço, e os dedos desceram até a mão dela. Sara os entrelaçou antes que ele pudesse recuar.
Gabriel levantou o rosto. A resposta foi interrompida quando um policial chamou seu nome.
Sara soltou o paletó, mas ele capturou seus dedos antes que se afastassem.
Ficaram assim até Lígia entregar o telefone com as provas e dizer que o advogado esperava na delegacia.