Gabriel ordenou que os portões fossem fechados. Sara já corria pelo corredor.
O grito de Davi ainda parecia preso entre as paredes. Sara apertou o colete sobre o peito e não diminuiu o passo.
— O carro está no subsolo — gritou Lígia atrás dela.
No elevador, Gabriel apertou o botão da garagem e falou ao telefone.
— Ninguém se aproxima do sedã até eu chegar.
— Ele está com Davi — disse Sara.
— Eu vi.
— Então anda.
As portas abriram. O carro continuava ligado, vazio.
No banco traseiro havia fita cortada e uma mancha de sangue pequena. Um celular barato tocou no console.
Gabriel atendeu no viva-voz.
— Você demitiu o homem errado — disse Ricci.
— Onde está Davi?
— Pergunta à gerente. Ela gosta de resolver conta.
Sara tomou o telefone.
— Se quer negociar, fala comigo.
— Já estou falando. Seu irmão vale os documentos que vocês copiaram.
— Você não sai da cidade com arquivo roubado e tentativa de homicídio nas costas.
— Traz o telefone e a pasta para o depósito da Bellini. Sozinha.
A chamada terminou.
Lígia entrou na garagem com um notebook aberto.
— O aparelho durou trinta e oito segundos. Sinal na região do Pari.
— Depósito da Bellini — disse Sara.
Gabriel arrancou a chave do sedã.
— Você fica aqui.
— Não.
— Ele quer você.
— Quer os arquivos. Davi é meu irmão.
— E você virou alvo antes dele.
Sara se aproximou até o peito quase tocar o paletó dele.
— Eu fui buscar você no beco sem equipe, arma ou plano. Hoje tenho Lígia, endereço e você. Não me manda esperar.
Gabriel apertou a chave na palma. Abriu a porta do carro de Lígia.
— Você entra depois de mim.
— Eu entro quando a situação pedir.
— Sara.
— Gabriel.
Lígia fechou o notebook.
— Briguem no carro. O sinal mudou.
No caminho, Sara ligou para Davi. O telefone dele tocou dentro do sedã abandonado. Ela deixou cair a mão no colo.
— Passei a vida chegando depois — disse. — Depois da aposta, depois da cobrança, depois da mão quebrada. No beco eu vi a arma antes do tiro. Foi isso.
Gabriel dirigia. Os olhos permaneceram na avenida.
— Acordo às 1h17 desde aquela noite.
Sara virou para ele.
— Por quê?
— O relógio parou. Meu corpo não.
— Seu relógio está comigo.
— Eu sei.
— Como?
— Lígia viu na mesa quando saiu.
— E não pediu de volta.
Gabriel mudou de faixa.
— Queria um motivo para voltar.
Lígia, no banco traseiro, levantou os olhos para o teto.
— O depósito fica à direita.
O galpão tinha portão entreaberto e uma luz acesa no escritório superior. Gabriel parou duas ruas antes. Lígia distribuiu fones e mostrou a planta.
— Equipe entra pelo fundo. Sara fica no carro até eu confirmar Davi.
Sara assentiu. Esperou os dois desaparecerem pela lateral e contou até vinte.
Um alarme de incêndio disparou dentro do prédio. A porta principal subiu. Dois homens correram para fora.
Davi surgiu no vão, mãos presas, e chutou uma lata metálica contra o sensor do portão.
— Sara!
Ela saiu do carro.
Ricci apareceu atrás dele e encostou uma faca na lateral do pescoço.
— Eu disse sozinha.
Sara ergueu o telefone com os arquivos.
— Solta ele e leva.
Davi balançou a cabeça.
— Não entrega.
— Cala a boca — disse Ricci.
— Ele fez outra aposta — continuou Davi. — Eu fiz. Tentei ganhar o dinheiro de volta. Quando ouvi que iam usar a Sara, vim oferecer informação do bar em troca dela.
Sara travou a mandíbula.
— Você ofereceu o quê?
— Nada que prestasse. Eu não sabia nada. Ele me pegou mesmo assim.
Ricci pressionou a lâmina. Davi fechou os olhos e bateu o calcanhar no botão vermelho da parede.
O sistema de carga desligou. O portão desceu entre Ricci e a saída. A lâmina afastou-se por reflexo.
Sara lançou o telefone para o lado oposto.
Ricci soltou Davi e mergulhou atrás do aparelho. Lígia saiu de trás das caixas e o atingiu no joelho. Gabriel puxou Davi pelo braço.
Os dois homens que haviam corrido voltaram, encontraram a equipe no corredor e levantaram as mãos.
Ricci rolou sob uma empilhadeira e escapou pela passagem de manutenção. Lígia foi atrás, mas voltou ao ouvir Gabriel chamar.
Davi estava no chão, respirando rápido. O corte no pescoço era superficial.
Sara se ajoelhou diante dele.
— Olha pra mim.
— Eu estraguei de novo.
— Olha.
Ele abriu os olhos.
— Acabou meu dinheiro, minhas mentiras e minhas buscas. Você vai escolher o que faz agora.
No carro, Sara entregou a Davi dois papéis. Um era admissão numa clínica para jogo compulsivo. O outro, contrato de barback no Renascença após o tratamento.
— Isso não é prêmio — disse. — É trabalho. Chegou atrasado, perde. Apostou, perde. Mentiu pra mim, eu saio.
Davi segurou a caneta com os dedos saudáveis.
— Se eu fugir de novo, não me salva.
Ele assinou.
O telefone de Sara vibrou. O aplicativo de segurança do lounge ocupou a tela em vermelho.
ALARME DE INCÊNDIO — ACESSO LATERAL VIOLADO.
Paula estava fechando o bar sozinha.
Sara ligou. O telefone chamou três vezes antes de Paula atender tossindo.
— Tem fumaça na despensa. A porta... travou.
— Sai pela cozinha.
— O corredor está pegando fogo.
A ligação caiu. Sara correu para a caminhonete. Gabriel tomou a chave da mão de um segurança e entrou no banco do motorista.
— A equipe dos bombeiros já foi acionada — disse Lígia.
— Paula tem dois minutos — Sara respondeu.
Gabriel arrancou. Davi ficou com Lígia e o médico, gritando o nome da irmã enquanto o portão do galpão desaparecia atrás deles.
O Renascença ficava a doze minutos. Gabriel fez em sete. Sara abriu a porta antes de o carro parar por completo e viu fumaça saindo da lateral do prédio.
A fachada continuava intacta. O incêndio crescia por dentro.
— Paula! — ela gritou.
Um segurança apontou para a saída de serviço.
— Tem corrente pelo lado de fora.
Gabriel abriu o porta-malas e pegou um alicate grande. Sara puxou o casaco sobre a boca e correu com ele. A corrente cedeu no segundo corte.
O corredor devolveu uma onda de calor. Garrafas estouravam atrás do balcão. O alarme gritava, e os chuveiros do teto ainda estavam secos.
— Fecharam o registro — disse Sara.
— Você conhece outro caminho?
Ela apontou para o corredor dos funcionários.
— A despensa encosta no banheiro adaptado. A parede é de drywall.
Gabriel agarrou um extintor. Eles contornaram a fumaça pelo salão, rastejando sob a camada escura. Sara contou portas pelo tato. Na quarta, chutou duas vezes.
— Aqui!
Do outro lado, Paula bateu na parede.
Gabriel lançou o extintor contra o gesso. A placa abriu, expondo tubos e isolamento. Outro golpe criou espaço suficiente para uma mão.
— Paula, afasta! — Sara gritou.
Eles alargaram o buraco. Paula saiu de joelhos, tossindo, com sangue na testa. Sara a prendeu pelo braço e a levou para o corredor.
Um vulto cruzou a porta da cozinha.
Gabriel virou. Ricci estava entre a fumaça e a saída, uma pistola baixa junto à coxa.
— Leva ela — Gabriel disse.
Sara puxou Paula. A colega agarrou seu colete.
— Ele colocou gasolina no estoque. Eu vi.
Ricci levantou a arma.
O disparo arrancou mármore da parede. Gabriel empurrou as duas para trás do balcão e respondeu. Ricci perdeu a pistola e fechou a mão sobre o punho ensanguentado.
Lígia entrou pela saída lateral com dois agentes. Derrubou Ricci contra o piso e chutou a arma para longe.
Os chuveiros dispararam de uma vez. Água preta caiu sobre todos.