Ricci fechou a porta com dois dedos e ficou diante dela.
Sara manteve a planilha aberta. Gabriel soltou a pasta, contornou a mesa e ocupou o espaço entre os dois.
— Ela não precisa repetir — disse.
— Eu repito — respondeu Sara.
Ela deu um passo para o lado, saindo de trás do ombro de Gabriel.
— A Bellini entrega menos do que cobra. O antigo gerente assina entrada completa. Depois alguém retira dinheiro do caixa como "taxa de evento". A ordem sai do seu número.
Ricci olhou para Gabriel.
— Uma bartender trabalha cinco horas e vira auditora?
— Gerente — corrigiu Sara.
— Você devia aprender como a casa funciona antes de acusar quem construiu metade dela.
— A casa funciona melhor quando recebe o que pagou.
Gabriel encostou a porta do escritório.
— Senta, Renato.
— Eu fico em pé.
— Então responde em pé.
Ricci abriu as mãos.
— Bellini cobre despesas que não entram nos livros. Segurança, acordos, licença. Ela encontrou contabilidade paralela e chamou de roubo.
Sara virou o monitor. Quatro notas tinham números sequenciais e horários de emissão posteriores às entregas.
— A mesma caixa de gim aparece em três estoques. Aqui, no Belladonna e num bar da Mooca. A câmera da doca mostra a placa em dois lugares no intervalo de vinte minutos.
Ricci deixou de sorrir.
— Você andou olhando outros negócios?
— Lígia me deu acesso depois que viu a primeira nota.
A chefe de segurança entrou ao ouvir o nome. Colocou um tablet sobre a mesa.
— Cinco meses de imagens. Mesma placa, mesma carga, três assinaturas.
Ricci puxou uma cadeira, mas não sentou. O encosto rangeu sob sua mão.
— Gabriel, vamos conversar sozinhos.
— Já estamos com quem precisa estar.
— Essa mulher não sabe o que aconteceu antes de você assumir. Eu estava aqui quando sua família—
— Não usa minha família para cobrir caixa vazio.
Sara abriu outra planilha.
— A dívida de Davi entrou como setenta e cinco mil. O contrato original era vinte. Onde iriam os quarenta e três que Gabriel não autorizou?
Ricci virou o rosto para ela.
— Cuidado com o tom. Eu sei onde seu irmão dorme.
Gabriel avançou. A cadeira entre eles tombou.
Lígia levou a mão para dentro do paletó. Sara segurou o antebraço de Gabriel antes que ele chegasse a Ricci.
— Se ele me ameaça na frente de vocês, imagina o que escreveu quando achou que ninguém lia.
Gabriel parou. Sara soltou o braço e ficou diante de Ricci.
— Seu celular.
— Vai se foder.
— Isso foi um não? — perguntou Lígia.
Ricci recuou até a porta. Lígia bloqueou a maçaneta.
— Você não pode me reter.
— Posso retirar seu acesso aos prédios e aos sistemas — disse Gabriel. — O aparelho é da empresa.
Ricci tirou o celular do bolso e o jogou sobre a mesa. A tela estava bloqueada.
— Advogado vai adorar isso.
— O meu ou o seu? — perguntou Gabriel.
Lígia aproximou o telefone do rosto dele. Ricci virou, mas ela segurou a nuca com a mão aberta. A tela acendeu.
— Obrigada.
Ela abriu as mensagens de serviço. Havia conversas apagadas, fotos de notas, listas de devedores e comprovantes. O arquivo de imagens guardava uma sequência tirada do outro lado da rua do Âncora Velha.
Sara saindo às 1h08. Sara comprando café. Sara abrindo a janela do apartamento.
A última foto era anterior à dívida quebrada de Davi.
— Ele me procurava antes da cobrança — disse ela.
Gabriel pegou o celular. Ampliou uma imagem do beco feita na manhã seguinte ao atentado.
— Esse número.
Lígia conferiu o registro.
— É o descartável usado para chamar a equipe que atacou você.
Ricci empurrou Lígia e alcançou a porta. Gabriel o segurou pela gola e o bateu contra a madeira uma vez.
— Você marcou a emboscada.
— Eu administrava danos. Você estava desmontando uma operação que sustentava gente demais.
— Então mandou me matar.
— Mandei assustar.
Sara olhou para a cicatriz perto da boca de Gabriel.
— A bala discorda.
Ricci riu pelo nariz.
— E ela? Você acha que apareceu por acaso? Uma garçonete atravessa o beco na hora certa, beija você e, três semanas depois, traz uma dívida conveniente. Você abriu sua porta para a primeira mulher com olhos grandes e história triste.
Sara colocou a nota fiscal diante dele.
— Eu abri seus números. Foi o suficiente.
Gabriel soltou a gola. Lígia recolheu crachá, chaves e carteira funcional.
— Você está fora de todos os negócios — disse Gabriel. — O advogado recebe os documentos em uma hora.
— Documentos de quê? Vai contar à polícia sobre sua contabilidade?
— Sobre tentativa de homicídio, extorsão e fraude em empresas legais.
Ricci ajeitou o terno.
— Você não entrega um dos seus.
— Você saiu sozinho quando apontou arma para uma civil.
Lígia abriu a porta. Dois seguranças esperavam do lado de fora.
Ricci passou por Sara e falou baixo:
— Seu irmão fez outra aposta. Pergunta onde ele está agora.
Sara pegou o telefone. Havia seis chamadas de Nando.
Na sétima, ele atendeu.
— Sara, Davi sumiu. Deixou café quente e a porta aberta.
No monitor do escritório, uma câmera do estacionamento mostrou Ricci entrando sozinho duas horas antes.
O carro que o trouxera permanecia ligado. No banco traseiro, uma cabeça baixou por um segundo.
Era Davi.
Gabriel chegou ao estacionamento antes do elevador terminar de fechar. Sara entrou no vão e segurou a porta com o ombro.
— Fica aqui.
— Não.
— Ricci quer você perto para me fazer errar.
— Ele já levou meu irmão para fazer isso comigo.
Lígia entrou por último e apertou o térreo. Entregou a Sara um colete leve retirado de um armário técnico.
— Coloca.
— Isso para bala?
— Algumas. O resto depende de você não correr na frente.
Sara vestiu. Gabriel ajustou a tira lateral, os dedos passando perto das costelas dela. A fivela travou. Os dois ficaram próximos demais dentro do elevador lotado.
— Respira — ele disse.
— Dá espaço.
Ele recuou meio passo. A porta abriu.
O carro de Ricci arrancou antes que alcançassem a garagem. Lígia fotografou a placa e acionou a equipe pelo rádio. Sara correu até a vaga e encontrou o telefone de Davi no chão.
A tela estava quebrada. Uma mensagem de voz aguardava reprodução.
— Não toca — disse Lígia.
Sara já havia tocado.
O som de motor cobriu os primeiros segundos. Davi respirava perto do microfone.
— Sara... não vem. É o depósito da Bellini, eu acho. Tem sino de igreja e trem passando. Eu fiz outra merda.
Um impacto abafado encerrou a gravação.
Gabriel pediu o mapa no rádio. Três depósitos Bellini apareceram; só um ficava junto à linha de trem e a uma igreja.
— Mooca — disse Lígia.
Sara abriu a porta do primeiro carro.
— Eu vou.
Gabriel segurou a moldura acima da cabeça dela.
— Você fica atrás de mim quando entrarmos.
— Foi isso que você fez no beco?
— No beco eu estava perdendo sangue e você não obedecia ninguém.
— Continuo igual.
Ele fechou a porta depois que ela entrou e ocupou o banco ao lado. Lígia assumiu o volante. Duas SUVs saíram atrás.
No primeiro sinal, Sara tentou ligar para Davi. Caixa postal. No segundo, Gabriel tirou do bolso o relógio parado e o apoiou no joelho.
— Por que trouxe isso?
— Estava no paletó.
— Você manda buscar tudo que deixa pra trás?
Gabriel girou a coroa, embora os ponteiros não respondessem.
— Só o que ainda pretendo usar.
Sara tomou o relógio da mão dele e fechou a pulseira no próprio punho.
— Então busca depois que meu irmão sair.
O trem atravessou a avenida adiante. Atrás dos vagões, o letreiro Bellini apareceu no alto de um galpão.
Lígia apagou os faróis.
Sara ouviu o próprio cinto destravar. Gabriel cobriu a mão dela com a dele.
— Espera meu sinal.
— Dez segundos.
— Cinco.
Sara contou cada um olhando para a porta do galpão. No terceiro, uma sombra cruzou a janela quebrada e Davi gritou lá dentro.