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《O Beijo Que Virou Dívida》Capítulo 7

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Ricci fechou a porta com dois dedos e ficou diante dela.

Sara manteve a planilha aberta. Gabriel soltou a pasta, contornou a mesa e ocupou o espaço entre os dois.

— Ela não precisa repetir — disse.

— Eu repito — respondeu Sara.

Ela deu um passo para o lado, saindo de trás do ombro de Gabriel.

— A Bellini entrega menos do que cobra. O antigo gerente assina entrada completa. Depois alguém retira dinheiro do caixa como "taxa de evento". A ordem sai do seu número.

Ricci olhou para Gabriel.

— Uma bartender trabalha cinco horas e vira auditora?

— Gerente — corrigiu Sara.

— Você devia aprender como a casa funciona antes de acusar quem construiu metade dela.

— A casa funciona melhor quando recebe o que pagou.

Gabriel encostou a porta do escritório.

— Senta, Renato.

— Eu fico em pé.

— Então responde em pé.

Ricci abriu as mãos.

— Bellini cobre despesas que não entram nos livros. Segurança, acordos, licença. Ela encontrou contabilidade paralela e chamou de roubo.

Sara virou o monitor. Quatro notas tinham números sequenciais e horários de emissão posteriores às entregas.

— A mesma caixa de gim aparece em três estoques. Aqui, no Belladonna e num bar da Mooca. A câmera da doca mostra a placa em dois lugares no intervalo de vinte minutos.

Ricci deixou de sorrir.

— Você andou olhando outros negócios?

— Lígia me deu acesso depois que viu a primeira nota.

A chefe de segurança entrou ao ouvir o nome. Colocou um tablet sobre a mesa.

— Cinco meses de imagens. Mesma placa, mesma carga, três assinaturas.

Ricci puxou uma cadeira, mas não sentou. O encosto rangeu sob sua mão.

— Gabriel, vamos conversar sozinhos.

— Já estamos com quem precisa estar.

— Essa mulher não sabe o que aconteceu antes de você assumir. Eu estava aqui quando sua família—

— Não usa minha família para cobrir caixa vazio.

Sara abriu outra planilha.

— A dívida de Davi entrou como setenta e cinco mil. O contrato original era vinte. Onde iriam os quarenta e três que Gabriel não autorizou?

Ricci virou o rosto para ela.

— Cuidado com o tom. Eu sei onde seu irmão dorme.

Gabriel avançou. A cadeira entre eles tombou.

Lígia levou a mão para dentro do paletó. Sara segurou o antebraço de Gabriel antes que ele chegasse a Ricci.

— Se ele me ameaça na frente de vocês, imagina o que escreveu quando achou que ninguém lia.

Gabriel parou. Sara soltou o braço e ficou diante de Ricci.

— Seu celular.

— Vai se foder.

— Isso foi um não? — perguntou Lígia.

Ricci recuou até a porta. Lígia bloqueou a maçaneta.

— Você não pode me reter.

— Posso retirar seu acesso aos prédios e aos sistemas — disse Gabriel. — O aparelho é da empresa.

Ricci tirou o celular do bolso e o jogou sobre a mesa. A tela estava bloqueada.

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— Advogado vai adorar isso.

— O meu ou o seu? — perguntou Gabriel.

Lígia aproximou o telefone do rosto dele. Ricci virou, mas ela segurou a nuca com a mão aberta. A tela acendeu.

— Obrigada.

Ela abriu as mensagens de serviço. Havia conversas apagadas, fotos de notas, listas de devedores e comprovantes. O arquivo de imagens guardava uma sequência tirada do outro lado da rua do Âncora Velha.

Sara saindo às 1h08. Sara comprando café. Sara abrindo a janela do apartamento.

A última foto era anterior à dívida quebrada de Davi.

— Ele me procurava antes da cobrança — disse ela.

Gabriel pegou o celular. Ampliou uma imagem do beco feita na manhã seguinte ao atentado.

— Esse número.

Lígia conferiu o registro.

— É o descartável usado para chamar a equipe que atacou você.

Ricci empurrou Lígia e alcançou a porta. Gabriel o segurou pela gola e o bateu contra a madeira uma vez.

— Você marcou a emboscada.

— Eu administrava danos. Você estava desmontando uma operação que sustentava gente demais.

— Então mandou me matar.

— Mandei assustar.

Sara olhou para a cicatriz perto da boca de Gabriel.

— A bala discorda.

Ricci riu pelo nariz.

— E ela? Você acha que apareceu por acaso? Uma garçonete atravessa o beco na hora certa, beija você e, três semanas depois, traz uma dívida conveniente. Você abriu sua porta para a primeira mulher com olhos grandes e história triste.

Sara colocou a nota fiscal diante dele.

— Eu abri seus números. Foi o suficiente.

Gabriel soltou a gola. Lígia recolheu crachá, chaves e carteira funcional.

— Você está fora de todos os negócios — disse Gabriel. — O advogado recebe os documentos em uma hora.

— Documentos de quê? Vai contar à polícia sobre sua contabilidade?

— Sobre tentativa de homicídio, extorsão e fraude em empresas legais.

Ricci ajeitou o terno.

— Você não entrega um dos seus.

— Você saiu sozinho quando apontou arma para uma civil.

Lígia abriu a porta. Dois seguranças esperavam do lado de fora.

Ricci passou por Sara e falou baixo:

— Seu irmão fez outra aposta. Pergunta onde ele está agora.

Sara pegou o telefone. Havia seis chamadas de Nando.

Na sétima, ele atendeu.

— Sara, Davi sumiu. Deixou café quente e a porta aberta.

No monitor do escritório, uma câmera do estacionamento mostrou Ricci entrando sozinho duas horas antes.

O carro que o trouxera permanecia ligado. No banco traseiro, uma cabeça baixou por um segundo.

Era Davi.

Gabriel chegou ao estacionamento antes do elevador terminar de fechar. Sara entrou no vão e segurou a porta com o ombro.

— Fica aqui.

— Não.

— Ricci quer você perto para me fazer errar.

— Ele já levou meu irmão para fazer isso comigo.

Lígia entrou por último e apertou o térreo. Entregou a Sara um colete leve retirado de um armário técnico.

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— Coloca.

— Isso para bala?

— Algumas. O resto depende de você não correr na frente.

Sara vestiu. Gabriel ajustou a tira lateral, os dedos passando perto das costelas dela. A fivela travou. Os dois ficaram próximos demais dentro do elevador lotado.

— Respira — ele disse.

— Dá espaço.

Ele recuou meio passo. A porta abriu.

O carro de Ricci arrancou antes que alcançassem a garagem. Lígia fotografou a placa e acionou a equipe pelo rádio. Sara correu até a vaga e encontrou o telefone de Davi no chão.

A tela estava quebrada. Uma mensagem de voz aguardava reprodução.

— Não toca — disse Lígia.

Sara já havia tocado.

O som de motor cobriu os primeiros segundos. Davi respirava perto do microfone.

— Sara... não vem. É o depósito da Bellini, eu acho. Tem sino de igreja e trem passando. Eu fiz outra merda.

Um impacto abafado encerrou a gravação.

Gabriel pediu o mapa no rádio. Três depósitos Bellini apareceram; só um ficava junto à linha de trem e a uma igreja.

— Mooca — disse Lígia.

Sara abriu a porta do primeiro carro.

— Eu vou.

Gabriel segurou a moldura acima da cabeça dela.

— Você fica atrás de mim quando entrarmos.

— Foi isso que você fez no beco?

— No beco eu estava perdendo sangue e você não obedecia ninguém.

— Continuo igual.

Ele fechou a porta depois que ela entrou e ocupou o banco ao lado. Lígia assumiu o volante. Duas SUVs saíram atrás.

No primeiro sinal, Sara tentou ligar para Davi. Caixa postal. No segundo, Gabriel tirou do bolso o relógio parado e o apoiou no joelho.

— Por que trouxe isso?

— Estava no paletó.

— Você manda buscar tudo que deixa pra trás?

Gabriel girou a coroa, embora os ponteiros não respondessem.

— Só o que ainda pretendo usar.

Sara tomou o relógio da mão dele e fechou a pulseira no próprio punho.

— Então busca depois que meu irmão sair.

O trem atravessou a avenida adiante. Atrás dos vagões, o letreiro Bellini apareceu no alto de um galpão.

Lígia apagou os faróis.

Sara ouviu o próprio cinto destravar. Gabriel cobriu a mão dela com a dele.

— Espera meu sinal.

— Dez segundos.

— Cinco.

Sara contou cada um olhando para a porta do galpão. No terceiro, uma sombra cruzou a janela quebrada e Davi gritou lá dentro.

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