localização atual: Novela Mágica Moderno Romance O Beijo Que Virou Dívida Capítulo 6

《O Beijo Que Virou Dívida》Capítulo 6

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Lígia levou Sara ao Renascença antes que Ricci chegasse ao escritório.

— Ele vai atrás de nós? — perguntou Sara no elevador.

— Vai atrás de Gabriel. Você virou o motivo que ele vai usar.

— Excelente primeiro benefício.

— O plano de saúde começa hoje.

O lounge ocupava um casarão restaurado no centro. Azulejos verdes, balcão de madeira curva, luminárias de latão e um palco pequeno criavam uma elegância que Sara só conhecia do outro lado da bandeja.

Uma mulher de cachos curtos equilibrava quatro taças numa mão.

— Paula, esta é Sara Matos. Nova gerente — disse Lígia.

Paula olhou para a camisa molhada de chuva, a sacola de dinheiro e a expressão de Sara.

— Começou num dia tranquilo, então.

— Onde fica o caixa?

— Gostei dela.

A apresentação à equipe durou sete minutos. O sistema de pedidos caiu no oitavo.

Um grupo de executivos exigiu fechar a varanda para uma festa não registrada. Um fornecedor estacionou no acesso de emergência. O cozinheiro avisou que haviam chegado seis caixas de gim em vez de dez.

Sara tirou o colete do Âncora Velha, dobrou sobre uma prateleira e prendeu o cabelo de novo.

— Paula, anota pedido em papel e numera as comandas. Diego leva as bebidas e traz cada papel de volta. Ninguém joga nada fora. Qual fornecedor está na doca?

— Bellini Distribuição — disse Paula.

Lígia ergueu os olhos do celular.

— Ricci usa a Bellini.

— Então ele chegou antes da gente.

Na doca, um homem de camisa polo segurava uma nota fiscal com dez caixas registradas.

— Assina aqui, chefe. O resto vem amanhã.

— A nota diz que veio hoje.

— Procedimento. Sempre fizeram assim.

Sara contou as caixas diante dele. Abriu a câmera do celular, filmou lacres, horário e placa.

— Refaz a nota com seis ou leva tudo de volta.

— Fala com seu patrão.

— Você está falando com a gerente.

O homem riu, pegou o telefone e discou. Sara esperou.

— Senhor Ricci, tem uma moça aqui dificultando.

Ele ouviu por alguns segundos. O sorriso diminuiu.

— Certo.

Desligou e arrancou a nota da prancheta.

— Volto amanhã.

— Com dez caixas e papel certo.

O caminhão saiu. Lígia permaneceu perto da parede.

— Ele mandou recuar?

— Sim.

— Então queria ver se eu assinava.

Sara voltou ao salão. O sistema continuava fora. Ela transformou uma mesa lateral em central de comandas, colocou Paula no controle das bebidas e negociou com os executivos: varanda por noventa minutos, consumo mínimo registrado e nenhum convidado fora da lista.

Um deles bateu os dedos no balcão.

— Quero falar com o dono.

— Ele contratou alguém pra responder antes disso.

— Você chegou hoje.

— E já sei que sua reserva não inclui expulsar os outros clientes.

O homem estendeu o braço por cima do balcão para pegar a garrafa. Paula deixou cair um balde de gelo no sapato dele.

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— Ai, merda. Desculpa — disse ela, sem alterar o rosto.

Ele pulou para trás. Sara colocou a garrafa fora do alcance.

— A varanda fica aberta para todos.

O grupo aceitou uma mesa interna.

À meia-noite, o sistema voltou. À uma, todas as comandas de papel estavam lançadas e conferidas. Às duas, Sara contou o caixa com Paula.

Havia R$ 4.800 a menos no relatório eletrônico que na soma das vendas e recebimentos.

— Isso acontece sempre? — perguntou Sara.

Paula fechou a porta do escritório.

— Três, quatro vezes por mês. O antigo gerente dizia que era taxa de evento.

— Quem retirava?

— Ricci mandava alguém. Dinheiro, depois do fechamento.

Sara abriu os relatórios anteriores. A assinatura digital do antigo gerente aparecia sobre transferências para Bellini Serviços.

— Distribuidora e serviço têm o mesmo cadastro.

Paula aproximou a cadeira.

— Você tá dizendo que...

— Tô dizendo que alguém vende dez caixas, entrega seis e ainda tira dinheiro do caixa pra pagar uma taxa inventada.

Gabriel entrou no escritório às 2h17. O terno continuava impecável, mas o primeiro botão da camisa estava aberto.

— Lígia disse que você recusou a entrega.

— Se ela contou isso, também contou o resto.

Sara levantou a pasta. Gabriel segurou a mesma borda.

Os dedos se encontraram. Nenhum soltou de imediato.

Paula tossiu e se levantou.

— Vou conferir o gelo. O gelo importantíssimo.

Sara retirou a mão primeiro. Abriu o relatório sobre a mesa.

— R$ 4.800 hoje. Entregas incompletas há pelo menos cinco meses. Empresa ligada à Bellini.

Gabriel leu sem interromper. O maxilar travou ao reconhecer a assinatura.

— Tem certeza?

— Tenho vídeo da entrega, nota original, contagem do estoque e os lançamentos. Paula viu retiradas em espécie.

— Bom trabalho.

— Não me contratou para elogio.

Sara apontou o nome no rodapé.

— Seu homem está roubando você.

A porta abriu atrás deles.

Renato Ricci entrou, ajustando o punho do terno marrom.

— Repete.

Sara girou o notebook na direção de Ricci. A tela mostrava as notas da Bellini, os volumes recebidos e as assinaturas repetidas.

— Seu nome aparece em todas. Em três noites, chegaram doze caixas. Você autorizou o pagamento de vinte e quatro.

Ricci tirou os óculos e soprou uma poeira inexistente da lente.

— Garçonete com planilha continua sendo garçonete.

— Ótimo. Então explica devagar, pra eu acompanhar.

Paula cobriu a boca com a mão. Gabriel puxou uma cadeira e sentou, deixando Ricci em pé.

— A Bellini atende seis casas — disse Ricci. — Há remanejamento de estoque.

Sara abriu a aba seguinte.

— Fiz inventário nas seis. Quer a versão colorida?

O maxilar dele se deslocou. Lígia fechou a porta e guardou a chave no bolso.

— Isto é uma auditoria? — Ricci perguntou.

— Isto é uma conversa — respondeu Gabriel. — Auditoria deixa papel.

— Depois de tudo que fiz pela família?

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Gabriel apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Você quer listar?

Ricci olhou para Paula, para Sara, depois para a saída bloqueada por Lígia.

— O velho Rossi me colocou no caixa quando você ainda pedia autorização pra usar o carro.

— Meu pai morreu há nove anos.

— E eu mantive as portas abertas.

Sara puxou outra pasta. Recibos de apostas ocupavam envelopes separados por iniciais.

— Cobrou R$ 75 mil do Davi. O contrato original era de vinte.

— Juros.

— A autorização interna limita em trinta e dois. Tem sua assinatura aqui.

Ricci inclinou o corpo sobre a mesa.

— Seu irmão beijou o chão por vinte. Devia agradecer que ainda anda.

Gabriel levantou. A cadeira bateu na parede.

Sara tocou o antebraço dele antes que atravessasse a sala. O tecido do paletó ficou tenso sob os dedos. Gabriel baixou os olhos para a mão e parou.

— Deixa ele terminar — disse ela.

Ricci sorriu.

— Ela já dá ordem agora?

— Ela fez uma pergunta — Gabriel respondeu. — Você vai responder.

Sara retirou do bolso uma nota fiscal dobrada. O número de telefone no rodapé coincidia com o contato que Lígia encontrara no aparelho de um dos homens presos após o beco.

— Por que o fornecedor do lounge ligou para o atirador seis minutos antes de Gabriel entrar naquela rua?

Ricci recolocou os óculos. Uma gota escorreu pela têmpora e desapareceu atrás da haste.

— Pergunta pra quem puxou o gatilho.

— Perguntamos — disse Lígia. — Ele quer acordo.

O telefone de Ricci vibrou dentro do paletó. Ele não alcançou o bolso. A tela acendeu através do tecido, e o nome "DAVI" apareceu refletido no vidro do quadro atrás dele.

Sara viu. Gabriel também.

— Tira o telefone — disse Gabriel.

Ricci abriu as mãos.

— Vai deixar uma funcionária destruir trinta anos por causa de um viciado?

Sara soltou o braço de Gabriel e estendeu a palma.

— O telefone.

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