Lígia levou Sara ao Renascença antes que Ricci chegasse ao escritório.
— Ele vai atrás de nós? — perguntou Sara no elevador.
— Vai atrás de Gabriel. Você virou o motivo que ele vai usar.
— Excelente primeiro benefício.
— O plano de saúde começa hoje.
O lounge ocupava um casarão restaurado no centro. Azulejos verdes, balcão de madeira curva, luminárias de latão e um palco pequeno criavam uma elegância que Sara só conhecia do outro lado da bandeja.
Uma mulher de cachos curtos equilibrava quatro taças numa mão.
— Paula, esta é Sara Matos. Nova gerente — disse Lígia.
Paula olhou para a camisa molhada de chuva, a sacola de dinheiro e a expressão de Sara.
— Começou num dia tranquilo, então.
— Onde fica o caixa?
— Gostei dela.
A apresentação à equipe durou sete minutos. O sistema de pedidos caiu no oitavo.
Um grupo de executivos exigiu fechar a varanda para uma festa não registrada. Um fornecedor estacionou no acesso de emergência. O cozinheiro avisou que haviam chegado seis caixas de gim em vez de dez.
Sara tirou o colete do Âncora Velha, dobrou sobre uma prateleira e prendeu o cabelo de novo.
— Paula, anota pedido em papel e numera as comandas. Diego leva as bebidas e traz cada papel de volta. Ninguém joga nada fora. Qual fornecedor está na doca?
— Bellini Distribuição — disse Paula.
Lígia ergueu os olhos do celular.
— Ricci usa a Bellini.
— Então ele chegou antes da gente.
Na doca, um homem de camisa polo segurava uma nota fiscal com dez caixas registradas.
— Assina aqui, chefe. O resto vem amanhã.
— A nota diz que veio hoje.
— Procedimento. Sempre fizeram assim.
Sara contou as caixas diante dele. Abriu a câmera do celular, filmou lacres, horário e placa.
— Refaz a nota com seis ou leva tudo de volta.
— Fala com seu patrão.
— Você está falando com a gerente.
O homem riu, pegou o telefone e discou. Sara esperou.
— Senhor Ricci, tem uma moça aqui dificultando.
Ele ouviu por alguns segundos. O sorriso diminuiu.
— Certo.
Desligou e arrancou a nota da prancheta.
— Volto amanhã.
— Com dez caixas e papel certo.
O caminhão saiu. Lígia permaneceu perto da parede.
— Ele mandou recuar?
— Sim.
— Então queria ver se eu assinava.
Sara voltou ao salão. O sistema continuava fora. Ela transformou uma mesa lateral em central de comandas, colocou Paula no controle das bebidas e negociou com os executivos: varanda por noventa minutos, consumo mínimo registrado e nenhum convidado fora da lista.
Um deles bateu os dedos no balcão.
— Quero falar com o dono.
— Ele contratou alguém pra responder antes disso.
— Você chegou hoje.
— E já sei que sua reserva não inclui expulsar os outros clientes.
O homem estendeu o braço por cima do balcão para pegar a garrafa. Paula deixou cair um balde de gelo no sapato dele.
— Ai, merda. Desculpa — disse ela, sem alterar o rosto.
Ele pulou para trás. Sara colocou a garrafa fora do alcance.
— A varanda fica aberta para todos.
O grupo aceitou uma mesa interna.
À meia-noite, o sistema voltou. À uma, todas as comandas de papel estavam lançadas e conferidas. Às duas, Sara contou o caixa com Paula.
Havia R$ 4.800 a menos no relatório eletrônico que na soma das vendas e recebimentos.
— Isso acontece sempre? — perguntou Sara.
Paula fechou a porta do escritório.
— Três, quatro vezes por mês. O antigo gerente dizia que era taxa de evento.
— Quem retirava?
— Ricci mandava alguém. Dinheiro, depois do fechamento.
Sara abriu os relatórios anteriores. A assinatura digital do antigo gerente aparecia sobre transferências para Bellini Serviços.
— Distribuidora e serviço têm o mesmo cadastro.
Paula aproximou a cadeira.
— Você tá dizendo que...
— Tô dizendo que alguém vende dez caixas, entrega seis e ainda tira dinheiro do caixa pra pagar uma taxa inventada.
Gabriel entrou no escritório às 2h17. O terno continuava impecável, mas o primeiro botão da camisa estava aberto.
— Lígia disse que você recusou a entrega.
— Se ela contou isso, também contou o resto.
Sara levantou a pasta. Gabriel segurou a mesma borda.
Os dedos se encontraram. Nenhum soltou de imediato.
Paula tossiu e se levantou.
— Vou conferir o gelo. O gelo importantíssimo.
Sara retirou a mão primeiro. Abriu o relatório sobre a mesa.
— R$ 4.800 hoje. Entregas incompletas há pelo menos cinco meses. Empresa ligada à Bellini.
Gabriel leu sem interromper. O maxilar travou ao reconhecer a assinatura.
— Tem certeza?
— Tenho vídeo da entrega, nota original, contagem do estoque e os lançamentos. Paula viu retiradas em espécie.
— Bom trabalho.
— Não me contratou para elogio.
Sara apontou o nome no rodapé.
— Seu homem está roubando você.
A porta abriu atrás deles.
Renato Ricci entrou, ajustando o punho do terno marrom.
— Repete.
Sara girou o notebook na direção de Ricci. A tela mostrava as notas da Bellini, os volumes recebidos e as assinaturas repetidas.
— Seu nome aparece em todas. Em três noites, chegaram doze caixas. Você autorizou o pagamento de vinte e quatro.
Ricci tirou os óculos e soprou uma poeira inexistente da lente.
— Garçonete com planilha continua sendo garçonete.
— Ótimo. Então explica devagar, pra eu acompanhar.
Paula cobriu a boca com a mão. Gabriel puxou uma cadeira e sentou, deixando Ricci em pé.
— A Bellini atende seis casas — disse Ricci. — Há remanejamento de estoque.
Sara abriu a aba seguinte.
— Fiz inventário nas seis. Quer a versão colorida?
O maxilar dele se deslocou. Lígia fechou a porta e guardou a chave no bolso.
— Isto é uma auditoria? — Ricci perguntou.
— Isto é uma conversa — respondeu Gabriel. — Auditoria deixa papel.
— Depois de tudo que fiz pela família?
Gabriel apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Você quer listar?
Ricci olhou para Paula, para Sara, depois para a saída bloqueada por Lígia.
— O velho Rossi me colocou no caixa quando você ainda pedia autorização pra usar o carro.
— Meu pai morreu há nove anos.
— E eu mantive as portas abertas.
Sara puxou outra pasta. Recibos de apostas ocupavam envelopes separados por iniciais.
— Cobrou R$ 75 mil do Davi. O contrato original era de vinte.
— Juros.
— A autorização interna limita em trinta e dois. Tem sua assinatura aqui.
Ricci inclinou o corpo sobre a mesa.
— Seu irmão beijou o chão por vinte. Devia agradecer que ainda anda.
Gabriel levantou. A cadeira bateu na parede.
Sara tocou o antebraço dele antes que atravessasse a sala. O tecido do paletó ficou tenso sob os dedos. Gabriel baixou os olhos para a mão e parou.
— Deixa ele terminar — disse ela.
Ricci sorriu.
— Ela já dá ordem agora?
— Ela fez uma pergunta — Gabriel respondeu. — Você vai responder.
Sara retirou do bolso uma nota fiscal dobrada. O número de telefone no rodapé coincidia com o contato que Lígia encontrara no aparelho de um dos homens presos após o beco.
— Por que o fornecedor do lounge ligou para o atirador seis minutos antes de Gabriel entrar naquela rua?
Ricci recolocou os óculos. Uma gota escorreu pela têmpora e desapareceu atrás da haste.
— Pergunta pra quem puxou o gatilho.
— Perguntamos — disse Lígia. — Ele quer acordo.
O telefone de Ricci vibrou dentro do paletó. Ele não alcançou o bolso. A tela acendeu através do tecido, e o nome "DAVI" apareceu refletido no vidro do quadro atrás dele.
Sara viu. Gabriel também.
— Tira o telefone — disse Gabriel.
Ricci abriu as mãos.
— Vai deixar uma funcionária destruir trinta anos por causa de um viciado?
Sara soltou o braço de Gabriel e estendeu a palma.
— O telefone.