O estalo virou explosão quando Sofia alcançou a porta. O vidro da janela quebrou sobre a cama vazia, e uma onda de calor empurrou as duas para o corredor.
Sofia cobriu a cabeça de Maria. Enfermeiros apagaram as chamas enquanto Celina arrastava uma maca.
— Minha mão — Maria disse.
— Mexe os dedos.
— A sua, menina.
A palma de Sofia tinha duas bolhas abertas. Ela escondeu a mão contra o avental e ajudou Maria a sentar.
Antônio atravessou o corredor entre bombeiros. A gravata pendia solta. Ele caiu de joelhos diante da mãe e tocou o rosto dela.
Maria apontou para Sofia.
— Agradece a pessoa certa desta vez.
Ele olhou a mão queimada. Sofia recuou quando Antônio tentou pegá-la.
— Tem perícia trabalhando.
— Deixe eu ver.
— Depois.
— Você quase morreu.
— Sua entrevista disse que sou funcionária temporária. Funcionária preenche acidente de trabalho no RH.
Antônio fechou a boca. Maria pediu que Celina a levasse para exames, deixando os dois no corredor.
— Eu tentei tirar seu nome do alvo — ele disse.
— E me tirou da conversa.
— Enzo observa qualquer pessoa perto de mim.
— Então olha de volta. Não decide minha vida por ele.
Antônio encostou a testa na parede.
— Eu confiei em você na mesa sete antes de saber por quê. Depois passei a querer tocar você em cada sala e mandei todo mundo fingir que não via. Não sou bom em separar as duas coisas.
Sofia abriu a mão ferida. Ele a segurou pelo pulso, evitando a pele queimada.
— Aprende — ela disse.
A perícia encontrou solvente na conexão de oxigênio e digitais parciais de Marco numa caixa de ferramentas. Camila obteve novo mandado. Marco desaparecera.
Sofia passou a noite na unidade de queimados para troca de curativo. Antônio permaneceu do lado de fora da cortina enquanto a enfermeira limpava a palma.
— Você pode ir — ela disse.
— Posso.
Os sapatos dele continuaram visíveis sob o tecido.
— Então por que não vai?
— Estou aprendendo a esperar sua escolha.
Sofia abriu a cortina depois do curativo. Antônio segurava duas garrafas de água e um pacote de biscoitos da máquina.
— Jantar péssimo — ele disse.
— Finalmente um presente no seu orçamento emocional.
Eles comeram no corredor. Sofia contou como Dona Cida vendera a máquina de costura para pagar sua primeira matrícula. Antônio falou da mãe trabalhando na contabilidade do primeiro armazém, corrigindo livros que o marido escondia dela.
— Ela construiu metade do grupo e deixaram o nome do meu pai na fachada — ele disse.
— Então a assembleia começa com o nome dela.
Antônio entregou a última bolacha. Os dedos tocaram a faixa da mão ferida; ele recuou antes de apertar.
— Começa com você viva para falar.
— Eu vou falar.
Na manhã da assembleia, Maria escolheu as próprias pérolas diante do espelho do hospital. Sofia tentou convencê-la a usar cadeira de rodas. A senhora pegou a bengala e caminhou até o elevador.
— Eles querem me declarar incapaz. Não vou chegar empurrada por homem pago por eles.
Sofia ajustou o colar de Maria. A mão enfaixada dificultou o fecho; Antônio aproximou-se por trás e ajudou sem tocar na pele ferida.
Os três apareceram juntos no espelho. Maria ergueu uma sobrancelha.
— Se vão namorar, façam depois de eu recuperar minha empresa.
— Não estamos namorando — Sofia respondeu.
— Ainda — Antônio disse.
Sofia pisou no sapato dele. Maria saiu rindo para o corredor, e os seguranças tiveram de acelerar para acompanhá-la.
Antes de entrar na sala, Sofia entregou a Antônio uma cópia da cápsula lacrada e manteve o original consigo.
— Prova espalhada — ele disse.
— Aprendeu.
Enzo convocou assembleia extraordinária para declarar Maria incapaz e assumir a presidência. Bianca pediu adiamento; ele recusou.
Dois dias depois, Sofia entrou na sala dos acionistas com a mão enfaixada. Colocou a cápsula branca diante do microfone central.
Enzo projetou fotografias dela na casa Russo, no carro de Antônio e no galpão. Uma montagem mostrava Sofia tocando o porta-comprimidos antes da chegada de Maria ao restaurante.
— Uma estudante endividada entra na vida da minha tia, provoca uma emergência e vira beneficiária de bolsa — disse. — Em quarenta e oito horas, dorme na casa do presidente.
Sofia aproximou o microfone.
— Você esqueceu a parte em que sua tia respirou.
Enzo sorriu para os acionistas.
— Vejam como fala com intimidade.
Dra. Helena entrou com laudos. Camila veio atrás, acompanhada por peritos. Bianca conectou o pen drive de Paulo.
Helena comprovou que a cápsula continha substância capaz de provocar choque em combinação com a medicação de Maria. O laboratório encontrara fibras do bolso de Marco no invólucro.
Camila apresentou o login das câmeras, o pagamento feito por uma empresa de Enzo e a localização do telefone usado para ameaçar Sofia.
Bianca exibiu os metadados da procuração. O arquivo nascera no computador de Enzo às duas e treze da madrugada, quatro dias antes da suposta assinatura.
Maria entrou andando com uma bengala.
— Incapaz é quem precisa falsificar minha assinatura para sentar na minha cadeira.
Os acionistas começaram a votar pela suspensão de Enzo. Ele deixou a mão direita dentro do paletó.
Antônio se posicionou entre ele e Maria.
— Acabou.
— Pra você sempre foi fácil — Enzo respondeu. — Nome, empresa, mãe viva pra aplaudir.
— Tira a mão daí — Camila ordenou.
Marco surgiu pela porta lateral usando uniforme de manutenção. Acertou um segurança com uma barra e correu para Enzo.
Camila sacou a arma. Antônio empurrou Sofia para trás da mesa.
Enzo retirou uma pistola do paletó e apontou para Maria.
Sofia agarrou a cadeira da senhora. O disparo estourou quando ela a empurrou para o chão.
Antes da assembleia, Camila instalou escutas e colocou agentes nas saídas. Bianca ensaiou a ordem das provas com Helena. Sofia escondeu a mão queimada no bolso; Antônio trouxe gelo num guardanapo e esperou que ela aceitasse.
Enzo apareceu cercado por advogados.
— Quando isto acabar, você volta a carregar prato.
Sofia levantou a faixa entre os dois.
— Você vai carregar algema.
Camila abriu a porta. Enzo entrou mantendo a mão junto ao paletó. Durante a votação, Sofia reconheceu o sapato de Marco sob a divisória técnica. Tentou avisar Camila. Enzo acompanhou seus olhos e levou a mão para dentro do terno.
Camila posicionou-se perto da divisória. Sofia tentou apontar o reflexo do sapato no vidro. Marco percebeu e desligou o projetor.
A sala mergulhou numa penumbra curta. Enzo usou o ruído para aproximar-se de Maria. Antônio bloqueou o caminho.
Quando a energia voltou, Marco já tinha trocado de posição. Sofia encontrou no chão uma presilha de identificação da manutenção e a empurrou com o pé até Camila.
A inspetora leu o nome falso, chamou reforço pelo rádio e fechou as portas. Enzo continuou discursando, acelerando as palavras. A mão dele permanecia junto ao paletó.
Bianca anunciou o último arquivo: um áudio em que Enzo ordenava "encerra a velha e põe na conta da garçonete". Os acionistas se levantaram. Marco saiu de trás do painel com a barra de metal.
Camila recebeu pelo rádio a confirmação do mandado contra Marco. Fez sinal para os agentes junto à porta, mas ele já segurava a barra acima do ombro.
Sofia puxou Maria para trás da mesa. Antônio avançou contra Marco, obrigando-o a mudar a direção do golpe. Enzo recuou até a janela, abriu o paletó e mostrou a coronha da pistola.
— Ninguém chega perto — ele disse.
Os acionistas se abaixaram. Bianca manteve o áudio tocando; a própria voz de Enzo preenchia a sala com a ordem de matar Maria. Ele arrancou o cabo do computador e apontou a arma.