Marco saiu da delegacia às seis da manhã. Parou diante de Sofia, ajeitou o punho amassado da camisa e sorriu.
— Devia ter ficado nas mesas.
Camila entrou entre os dois.
— Anda antes que eu encontre outra razão.
Antônio esperava junto ao carro. Quando Marco passou, ele tirou o relógio e o colocou sobre o capô.
— Tonio — Sofia chamou.
Ele não moveu os pés. Marco perdeu o sorriso e acelerou até o táxi.
— Se tocar nele, vira o que a defesa precisa — Sofia disse.
Antônio recolocou o relógio.
— Minha família já tem o que precisa.
No hospital, Dona Cida recusou repouso e pediu pão na chapa. Maria apareceu com flores, sentou ao lado da cama e as duas começaram a discutir preços de clínica antes de qualquer apresentação.
Sofia deixou o quarto para atender uma ligação da faculdade. A coordenadora confirmava sua readmissão e uma bolsa anônima para o último semestre.
Ela encontrou Antônio no corredor.
— Foi você?
— O quê?
— Bolsa de estudos.
— Minha mãe administra uma fundação.
— Perguntei se foi você.
Ele manteve as mãos nos bolsos.
— Pedi que analisassem sua matrícula. A decisão passou pelo conselho.
Sofia tirou a chave da casa Russo e colocou na mão dele.
— Eu tinha uma condição.
— Você mereceu essa vaga.
— Então eu consigo sem sua assinatura escondida.
Antônio fechou os dedos ao redor da chave. Os dentes metálicos marcaram a palma.
— Enzo vai usar você para chegar à minha mãe. Preciso afastar seu nome do meu.
— Já está fazendo isso.
— Em público. Hoje.
— Entendi.
— Sofia...
Ela entrou no elevador. Quando as portas fecharam, Antônio ainda segurava a chave com força.
Naquela tarde, ele deu entrevista na saída da holding. Chamou Sofia de funcionária temporária, negou envolvimento pessoal e anunciou que a segurança familiar cuidaria do caso.
Sofia assistiu pelo celular no corredor da faculdade. Guardou o aparelho quando a professora entregou o uniforme branco do estágio.
Bianca apareceu no fim da aula. Sentou no banco de concreto e colocou um pen drive entre as duas.
— A procuração chegou ao meu escritório com certificado válido — disse. — Descobri a fraude três meses depois.
— E ficou quieta.
— Enzo tinha meu irmão.
Ela mostrou uma fotografia de Paulo Ferretti dentro de um cassino clandestino, cercado por homens. Depois abriu mensagens: ameaças, parcelas de dívida e ordens para validar documentos.
— Por que soltou Marco?
— A ordem obrigou a polícia a procurar prova independente. Enzo acompanhava cada passo através de um agente comprado. A pasta do galpão tinha rastreador.
Sofia girou o pen drive.
— Você podia ter contado.
— Antônio teria queimado a cidade para achar Paulo. Meu irmão morreria antes da primeira esquina.
— E agora?
Bianca entregou o telefone. Paulo enviara localização, recibos bancários e o arquivo original da procuração. Os metadados mostravam criação no computador de Enzo antes da falsa assinatura de Maria.
Paulo entrou na chamada de vídeo usando boné e barba por fazer. Falava de um quarto de hotel no Uruguai, com a cortina fechada.
— Eu devia dinheiro — disse. — Enzo comprou a dívida e me fez transportar pen drives. Bianca achava que eram contratos.
— O que havia neles? — Camila perguntou.
— Contas de campanha, nomes de fiscais, pagamentos. Quando tentei sair, mostraram uma foto da minha irmã entrando no fórum.
Bianca apertou o próprio joelho até a unha marcar o tecido branco.
Sofia afastou o copo de café da borda e o colocou diante dela. Bianca bebeu sem agradecer.
— Marco recebeu ordem de matar Maria? — Sofia perguntou.
Paulo balançou a cabeça.
— A primeira ordem era provocar episódios. Confusão, queda de pressão, qualquer coisa que sustentasse incapacidade. Depois que você viu a cápsula, Enzo escreveu: "encerra".
Camila pediu a tela da mensagem. Paulo mostrou a captura com data, horário e número vinculado ao telefone corporativo de Enzo.
Bianca cobriu a boca. Sofia segurou o copo antes que ele escapasse da mão dela.
Antônio foi chamado à cafeteria. Bianca se levantou ao vê-lo e recebeu um envelope com a demissão já assinada.
— Você sabia — ele disse.
— Sabia de fraude. Descobri o homicídio agora.
— Escolheu seu irmão.
— Escolheria outra vez.
Sofia colocou-se entre os dois.
— Enzo construiu isso contando que cada pessoa escondesse uma parte para salvar alguém. Continuem brigando e ele ganha mais uma hora.
Bianca abriu o notebook, entregou senhas e indicou uma conta usada para pagar funcionários do hospital. Antônio rasgou a demissão ao meio.
— Depois você sai do grupo — disse. — Hoje termina o serviço.
Camila localizou o técnico do oxigênio pelo pagamento. Ele havia entrado no hospital usando crachá de manutenção vinte minutos antes do incêndio.
Sofia já corria para a porta quando Antônio alcançou seu braço.
— Vou com você.
— Então acompanha. Não conduz.
— Guarda o original — Camila disse. — E não volte até eu confirmar proteção.
— Agora ele saiu do país — disse Bianca. — Eu posso falar.
Camila recebeu as cópias numa cafeteria, longe da delegacia. Pediu perícia independente e mandou guardar os originais em três locais.
O celular de Sofia tocou. Celina gritava do outro lado.
— O oxigênio de dona Maria pegou fogo!
Sofia correu para o hospital. O corredor do quarto estava cheio de fumaça; funcionários empurravam pacientes para a escada.
Ela molhou uma toalha, cobriu o rosto e entrou agachada. Maria estava na cama, tentando soltar a cânula.
Uma chama azul corria junto à conexão da parede.
Sofia alcançou a válvula. O metal queimou sua palma. Ela usou o cobertor para girá-la e puxou Maria pela cintura.
Atrás das duas, a tubulação estalou.
Bianca seguiu para o hospital transmitindo instruções para preservar servidores. Enzo tentava apagar os registros; Paulo forneceu uma cópia guardada fora do país.
No carro, Sofia ligou para Celina. Ouviu alarme e passos.
— A porta travou. Tem fumaça na ventilação.
Sofia orientou toalhas molhadas, corpo perto do chão e distância do oxigênio. Maria pegou o telefone entre tosses.
— Dirige direito, meu filho. Sofia já tem trabalho demais.
Antônio apertou o volante. Sofia pousou a mão sobre o punho dele.
— Ela está consciente. Chegamos em três minutos.
Na entrada, Sofia recebeu máscara da brigada e atravessou o isolamento. Antônio ficou para trás enquanto a fumaça engolia o uniforme branco dela.
Depois do resgate, Bianca identificou o técnico pago por Enzo. Ele confessou ter usado solvente e trancado a porta pelo painel externo. A gravação confirmou sua entrada.
Camila recolheu o depoimento do técnico numa sala isolada. Ele descreveu os pagamentos em dinheiro, a foto de Maria usada para identificá-la e a ordem final enviada por Marco.
Sofia reconheceu na fotografia o corredor da clínica. A imagem fora tirada semanas antes do jantar.
— Eles procuravam uma cuidadora para culpar — disse.
Bianca confirmou. Outros três nomes apareciam nos arquivos de Enzo: uma enfermeira demitida, uma faxineira endividada e Sofia. Marco escolhera a garçonete depois de vê-la ajudar clientes idosos.
— Minha gentileza virou critério — Sofia disse.
Antônio fechou a pasta.
— Eles apostaram que você ficaria sozinha.
— Fiquei muitas vezes. Continuei falando.
Maria, deitada na maca, pediu a lista. Leu cada nome e determinou que as três mulheres recebessem proteção e assistência jurídica.
— Enzo usou a necessidade delas como esconderijo — disse. — Vamos acender todas as luzes.
Helena entregou alta provisória sob protesto. Maria assinou e pediu o vestido azul. A assembleia começaria em quatro horas.
Celina dobrou o vestido sobre a cadeira e prendeu as pérolas no pescoço de Maria. Sofia conferiu a pressão uma última vez. Os números estavam estáveis; a bengala tremia menos que a mão da senhora na mesa sete.