《A Garçonete Que Ganhou o Respeito do Don》Capítulo 6

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Antônio entrou na reunião da holding às nove da manhã e conectou o tablet à tela principal. Enzo ainda distribuía café quando o vídeo mostrou Marco abrindo a bolsa de Maria.

Os conselheiros afastaram as xícaras. Enzo apoiou a garrafa térmica sobre a mesa e assistiu ao próprio reflexo aparecer na bandeja.

— Bonito truque — disse. — Quanto você pagou pela montagem?

Sofia ocupava a cadeira junto à porta, vestindo o uniforme vinho do Bellarosa. Mantivera a roupa para que Marco a reconhecesse no depoimento marcado para aquela tarde.

— Seu anel aparece em três quadros — ela disse.

Enzo ergueu a mão direita. O dedo estava nu.

— Metade da família tem um.

Antônio colocou a abotoadura encontrada na varanda dentro de um saco transparente.

— E isto caiu no quarto dela.

— Meu nome está gravado?

— Seu acesso entrou no sistema da casa às duas e cinquenta e seis.

Enzo abriu um sorriso.

— Sou diretor financeiro. Tenho acesso a todos os prédios do grupo.

Maria entrou amparada por Celina. Usava o mesmo vestido azul, agora com sapatos baixos. Enzo puxou uma cadeira para a tia.

— A senhora devia estar descansando.

— E você devia ter aprendido a mentir sem sorrir.

Bianca surgiu atrás dela com uma pasta. Colocou cópias diante dos conselheiros e evitou olhar para Sofia.

— A assembleia de hoje tem pauta registrada — disse. — O vídeo deve ser entregue à polícia. Aqui discutiremos a procuração de administração patrimonial assinada por Maria há seis meses.

Maria folheou a cópia.

— Nunca assinei isso.

Enzo encostou-se na cadeira.

— Assinou no hospital. Depois da queda.

— Eu assinei autorização para seu tio pagar enfermeira. Esta folha me declara incapaz.

Sofia puxou o documento para perto. A última página trazia reconhecimento digital e o nome de Bianca como responsável pelo protocolo.

— Quem preparou? — perguntou.

— Meu escritório — Bianca respondeu.

Antônio virou-se para ela.

— Você autenticou uma procuração falsa?

Bianca manteve as mãos sobre a pasta.

— Autentiquei o arquivo recebido do hospital.

— De quem?

— A investigação vai determinar.

Enzo batucou na mesa.

— Enquanto investigam, o documento vale. Tia Maria sofreu uma reação grave, mistura remédio, entrega a bolsa a desconhecidos. A holding precisa de estabilidade.

Maria arrancou o broche do peito e o jogou diante dele.

— Leva a estabilidade e enfia na lapela.

Um celular vibrou na bolsa de Sofia. A clínica Santa Clara aparecia no visor.

Ela saiu da sala e atendeu.

— Dona Sofia? Aqui é da recepção. Sua avó saiu há vinte minutos.

— Saiu com quem?

— Um homem apresentou autorização familiar. Disse que era seu tio.

Sofia apertou o aparelho até a capa estalar.

— Eu não tenho tio.

Antônio apareceu à porta. Ela escreveu "Dona Cida" num bloco e mostrou a ele enquanto pedia imagens, placa do carro e nome do funcionário que liberara a saída.

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Enzo continuava falando dentro da sala. Sofia entrou, pegou o controle da tela e interrompeu a apresentação financeira.

— Minha avó foi retirada da clínica por alguém usando documento falso. Quem sair desta sala antes da polícia entrega o celular na mesa.

Enzo soltou uma risada.

— Garçonete virou chefe da segurança?

Sofia caminhou até ele.

— Hoje você vai descobrir quanto comando cabe num avental.

Antônio ergueu o telefone. As portas foram trancadas. Dois seguranças começaram a recolher aparelhos.

Maria pediu uma câmera, sentou diante dela e leu a revogação da procuração, frase por frase. Bianca registrou o ato, enviou ao cartório e forneceu protocolo em voz alta.

Os conselheiros receberam cópias do extrato ligado à procuração. Em seis meses, três imóveis de Maria haviam sido oferecidos como garantia para empréstimos de empresas vazias. O dinheiro atravessara quatro contas e voltara à holding como investimento atribuído a Enzo.

— Você comprou votos com meu patrimônio — Maria disse.

Enzo fechou a pasta.

— Eu protegi liquidez durante uma crise.

— Crise que só existia nas suas planilhas.

Sofia comparou datas. Cada transferência ocorrera após uma consulta de Maria, quando o motorista registrava entrada no hospital. A incapacidade falsa fornecia justificativa para decisões tomadas "em benefício" dela.

Antônio chamou o chefe da auditoria e mandou congelar pagamentos. O homem hesitou, olhando para Enzo.

— Faça — Sofia disse.

— A senhora não integra o conselho.

Maria bateu a bengala no piso.

— Ela acabou de fazer a pergunta que vocês evitaram por seis meses. Faça.

O auditor abriu o notebook. Enzo enviou uma mensagem antes que o aparelho fosse recolhido. Quatro minutos depois, a clínica de Dona Cida telefonou.

Antônio mandou bloquear as saídas da garagem. Enzo mostrou os bolsos vazios e disse que o telefone já estava sobre a mesa. Sofia verificou o registro do roteador: um relógio inteligente havia transmitido dados segundos antes da ligação.

— Tira — ela ordenou.

Enzo cobriu o pulso.

— Você vai me revistar?

Maria estendeu a bengala e bateu no fecho. O relógio caiu sobre a mesa com a tela acesa. A última mensagem dizia apenas: "plano B".

Camila fotografou o aparelho por vídeo e orientou que ninguém tocasse. Enzo empalideceu quando Antônio empurrou a cadeira para longe dele.

— Se ela se machucar — Antônio começou.

Sofia segurou o braço dele.

— Acha primeiro. Ameaça depois.

— A partir deste minuto — Maria concluiu —, qualquer movimentação em meu nome será fraude.

Enzo empurrou a cadeira.

— Isso não termina aqui.

— Fica sentado — Antônio disse.

O telefone de Sofia recebeu um áudio de número desconhecido. Dona Cida falava ao fundo, a voz trêmula e irritada.

— Moço, se vai me sequestrar, pelo menos aprende a dirigir. Esse chão sacode mais que o bonde perto da igreja...

Uma mão abafou o restante. Antes do corte, três badaladas soaram, seguidas por um rangido metálico.

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Sofia reproduziu o arquivo. Antônio aproximou o ouvido do aparelho.

— Posso rastrear.

— Eles vão trocar de telefone.

— Tenho gente em toda a cidade.

— E eu tenho uma avó que deixa pista reclamando.

Ele a conduziu a uma sala vazia. Fechou a porta e segurou os ombros dela.

— Olha pra mim. Eu vou trazê-la de volta.

— Não promete o que não controla.

Antônio soltou os ombros e apoiou as mãos na mesa.

— Meu pai usava família como moeda. Cresci vendo homem obedecer por medo de perder alguém. Passei vinte anos jurando que essa prática acabava comigo.

Sofia puxou uma cadeira e colocou diante dele.

— Então senta e ajuda a escutar.

Reproduziram o áudio em caixas maiores. Badaladas. Trilhos. Um vendedor anunciando café. Dona Cida tossiu duas vezes e falou "igreja".

Sofia abriu o mapa. Procurou linhas antigas de bonde preservadas, sinos próximos a galpões e ruas de paralelepípedo.

Júlio ligou do Bellarosa. Reconhecera o rangido: uma passagem de trem na Mooca. Perto dela, a igreja de San Gennaro tocava três vezes antes das dez.

Sofia marcou um antigo galpão de importação pertencente a uma empresa ligada à holding.

— Minha avó me levava ali para comprar tecido quando eu era pequena. O chão treme com o trem.

Antônio chamou os homens. Sofia pegou a bolsa.

— Você fica aqui.

Ela passou por ele e abriu a porta.

— Eu sei onde levaram minha avó.

No elevador, Júlio enviou uma foto do livro de reservas. Enzo pedira a mesa sete e Marco anotara "cliente idosa, atendimento reduzido". Cinco funcionários confirmaram que o gerente afastara garçons daquela área. Antônio guardou a imagem.

— Queriam que ela ficasse sozinha.

— E escolheram uma funcionária que ninguém olhava duas vezes — Sofia disse.

Sofia encaminhou tudo a Camila antes de entrar no carro. Antônio conferiu o envio.

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