Antônio ouviu a gravação duas vezes no viva-voz. Na terceira, tirou o próprio celular do bolso e enviou o arquivo para alguém sem perguntar a Sofia se podia.
— Apaga — ela disse.
Ele interrompeu o movimento do polegar.
— O quê?
— Você enviou uma gravação feita no meu telefone. Pergunta antes.
Antônio encarou a tela, cancelou o envio e pousou o aparelho sobre a mesa da cozinha. O apartamento de Sofia cabia inteiro no salão de entrada da casa dele. Ainda assim, ele esperou de pé até ela indicar uma cadeira.
Dois policiais examinavam a fechadura. Um segurança permanecia no corredor. Sofia recolheu as tampas do organizador com luvas emprestadas e colocou cada uma num saco.
— Posso mandar para perícia particular — Antônio disse.
— A polícia leva primeiro. Depois você pede uma amostra pelos caminhos que costuma usar.
— Você não conhece meus caminhos.
— Conheço o efeito. Tem três homens no meu corredor e nenhum vizinho abre a porta.
Ele baixou o rosto. A cicatriz na sobrancelha desapareceu sob a sombra.
— Venha para minha casa.
— Não.
— Sua porta foi arrombada.
— E vai ser consertada.
— Ameaçaram minha mãe usando seu número.
— Ameaçaram a mim dentro da minha casa.
O policial mais velho interrompeu, avisando que o perito chegaria pela manhã. Sofia teria de dormir em outro lugar. Antônio cruzou os braços e esperou.
Ela abriu o armário, puxou uma mochila e colocou duas camisetas dentro.
— Uma noite.
— Até identificarmos quem entrou.
— Duas noites, salário por hora e quarto com chave.
— Salário?
— Sua mãe precisa de companhia. Eu preciso de trabalho. Você quer proteção ao alcance dos olhos. Contrato temporário.
Antônio puxou a cadeira e se sentou.
— Diga o valor.
Sofia falou o dobro do que recebia no Bellarosa. Ele pegou o telefone.
— E horário — ela acrescentou. — Oito horas. Hora extra registrada. Minha avó fica na clínica Santa Clara; vou visitá-la todo dia.
— Carro à disposição.
— Vale-transporte.
— Você negocia sempre assim?
— Quando o contratante fecha restaurantes com a mão, sim.
Antônio abriu um contato e entregou o aparelho.
— Fale com a advogada. Ela redige.
Bianca Ferretti atendeu no segundo toque. A voz saiu limpa, acordada demais para uma da manhã. Fez perguntas sobre carga horária, sigilo, segurança e acesso a registros médicos.
— Nada de exclusividade — Sofia disse. — E o sigilo cobre a saúde de dona Maria, não crime que eu presenciar.
Houve uma pausa.
— Antônio está ao seu lado?
— Está.
— Ponha no viva-voz, por favor.
Sofia obedeceu.
— Tonio, onde você encontrou essa mulher?
— Ela encontrou minha mãe.
— Claro que encontrou.
Sofia fechou a mochila.
— Quando o contrato estiver pronto, manda por e-mail.
Bianca riu uma vez.
— Quero conhecê-la antes de permitir entrada na residência.
— Então chega cedo — Sofia respondeu. — Eu começo às oito.
A casa dos Russo ficava atrás de muros altos no Jardim Europa. Sofia entrou às duas e dez, passou por câmeras, portas de aço disfarçadas de madeira e uma sala com flores frescas que não tinham cheiro.
Maria dormia num quarto do térreo. O monitor portátil mostrava números estáveis. Celina explicou a nova prescrição e entregou a Sofia uma chave.
— Dona Maria pediu que o quarto ao lado ficasse pronto.
Antônio parou na porta.
— A chave não sai com ninguém além de você.
— Nem com o dono da casa?
— Principalmente com ele — Maria respondeu da cama, de olhos fechados.
Sofia aproximou-se.
— A senhora devia estar dormindo.
— E você devia estar terminando a faculdade. Parece que hoje ninguém vai fazer o que devia.
Maria abriu um olho e olhou para o filho.
— Você agradeceu direito?
— Tentei.
— Ele tentou comprar você? É um defeito de família. O pai dele me deu um apartamento depois do primeiro beijo.
— A senhora devolveu? — Sofia perguntou.
— Aluguei e paguei meu curso de contabilidade.
Antônio esfregou a testa.
— Boa noite, mamma.
Na manhã seguinte, Bianca entrou no quarto sem bater. Tinha cabelo louro preso, calça branca e uma pasta sob o braço.
— Maria, que susto.
Ela beijou a senhora e estendeu o contrato para Sofia.
— Acrescentei uma cláusula sobre presentes, transferências e vantagens oferecidas por membros da família.
Sofia leu a página, riscou três linhas e devolveu.
— Essa parte permite acesso às minhas contas pessoais.
— Precisamos evitar alegações de interesse.
— Evita não oferecendo nada.
Bianca inclinou-se perto dela.
— Você chegou ontem e já dormiu a dez metros do quarto de Antônio.
Sofia colocou a caneta sobre a pasta.
— Eu dormi a dois metros de uma paciente ameaçada. Se quer medir corredor, chama um arquiteto.
Maria puxou a chave do criado-mudo e entregou a Sofia.
Durante a tarde, Sofia reorganizou a rotina de Maria sem mover um comprimido sozinha. Criou uma planilha impressa, pediu dupla conferência de Celina e lacrou cada compartimento com fita datada. Antônio assinou como testemunha na primeira folha.
— Está gostando de receber ordem? — Maria perguntou ao filho.
— Estou tentando sobreviver à funcionária temporária.
Sofia apontou a caneta para ele.
— Horário da pressão, oito da noite. Se chegar atrasado, sua mãe toma com Celina.
— Eu tenho reunião.
— Pressão alta também.
Antônio apareceu às sete e cinquenta e oito. Tirou o paletó, arregaçou a manga e deixou Sofia ensinar como posicionar o aparelho. Quando os dedos dela ajustaram o antebraço dele, Maria observou por cima dos óculos e escondeu um sorriso atrás da revista.
— A braçadeira é na minha mãe — ele disse.
— Estou mostrando onde fica a artéria.
— Encontrou?
Sofia pressionou dois dedos no pulso dele.
— Está acelerada.
Ele não retirou o braço.
— Bianca, a porta.
— Maria...
— Fecha pelo lado de fora.
No jantar, Enzo Russo apareceu com vinho e um sorriso que pedia desculpas antes de qualquer ofensa. Abraçou Antônio, beijou Maria e segurou a mão de Sofia por tempo demais.
— A garçonete heroína. A família inteira fala de você.
Sofia puxou os dedos.
— Espero que falem da troca de remédios também.
— Assunto pesado pra mesa.
— Quase matou alguém. Fica pesado onde colocar.
Enzo serviu vinho para si. Na manga, uma abotoadura trazia o brasão prateado da holding Russo.
Antônio observou o primo e empurrou a garrafa para longe de Maria.
Depois da meia-noite, Sofia conferiu pressão, pulso e medicação. Guardou a agenda médica de Maria na gaveta, trancou o quarto e levou a chave consigo.
No corredor, uma sombra desapareceu perto da escada.
— Antônio?
Ninguém respondeu.
Ela entrou no quarto, girou a chave e encostou uma cadeira sob a maçaneta. Ao tirar o uniforme, encontrou um corte na palma causado pelo plástico quebrado do organizador.
Três batidas vieram da porta.
— Sou eu — Antônio disse.
Sofia abriu apenas uma fresta. Ele segurava gaze e antisséptico.
— Celina viu sua mão.
— Eu cuido.
— Deixe alguém fazer isso por dois minutos.
Ela abriu. Antônio sentou-se diante dela e limpou o corte. Os dedos grandes seguraram o pulso com cuidado; o polegar repousou junto à pulsação.
— Você sempre aperta assim quando está com dor? — ele perguntou.
Sofia abriu os dedos que mantinha fechados.
— Funciona.
— Não parece.
O olhar dela subiu. Antônio continuava perto, inclinado entre os joelhos dela. Sofia retirou a mão depois que ele prendeu a gaze.
— Dois minutos.
Ele se levantou.
— Tranque a porta.
Às três e quatro, a cadeira raspou no piso.
Sofia acordou com a maçaneta girando. Pegou o castiçal do criado-mudo e ficou ao lado da porta. A lingueta da fechadura recuou, embora a chave ainda estivesse sobre a mesa.
Uma lâmina fina atravessou a fresta. A porta abriu dois centímetros.
Uma mão enluvada entrou no quarto.