《A Garçonete Que Ganhou o Respeito do Don》Capítulo 3

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O frasco passou da mão do segurança para a de Antônio. Ele leu o rótulo, conferiu a tampa e ergueu os olhos para Sofia.

Ela estendeu os braços ao lado do corpo.

— Pode olhar meus bolsos.

Marco cruzou as mãos diante da barriga.

— Ninguém quer constranger você. A gente só precisa entender por que o remédio de uma cliente estava no seu avental.

— Meu avental ficou no salão.

— Ficou sob supervisão.

— Sua.

Antônio entregou o frasco a Helena quando ela saiu da sala. A médica colocou luvas novas e examinou o lacre.

— Rompido — disse. — E esse frasco deveria estar no armário da casa de Maria.

— Celina? — Antônio perguntou.

— Está vindo. Maria estabilizou. A pressão subiu e a saturação chegou a noventa e seis.

Sofia deixou o ar escapar entre os dentes. Encostou as costas na parede por um segundo e voltou a se endireitar quando Marco se aproximou.

— Vamos resolver isso na delegacia — ele disse.

Helena virou o frasco sob a luz.

— Antes, quero saber quem colocou cápsulas de liberação prolongada num recipiente de comprimidos. Qualquer aluno do primeiro ano evita isso.

Marco ajeitou a gravata.

— Ela disse que estudou enfermagem.

— E descreveu a dose correta sem tocar no conteúdo. Quem montou a armadilha contou com uma acusação mais rápida que a medicina.

Antônio abriu a porta de uma sala reservada e apontou para dentro. Marco entrou primeiro; Sofia ficou no corredor.

— Você também — Antônio disse.

— Não tenho advogado.

— Nem acusação formal.

— O homem ali quer me entregar pra polícia e você fechou um restaurante com dois dedos.

Ele inclinou a cabeça.

— Então deixe a porta aberta.

Sofia entrou e escolheu a cadeira mais próxima da saída. Antônio permaneceu de pé. Um segurança colocou um tablet sobre a mesa com as imagens do Bellarosa.

O vídeo mostrava Maria chegando às dezenove e quarenta e dois. Marco a recebia, retirava a bolsa de sua mão e a levava até um armário perto da recepção. Às dezenove e cinquenta, a tela ficou preta.

— Falha técnica — Marco disse.

— Quanto tempo? — Sofia perguntou.

O segurança deslizou a barra.

— Nove minutos.

Quando a imagem voltou, Marco entregava a bolsa a Maria. Um funcionário passava com uma caixa de vinhos e cobria parte do quadro.

— Quem desligou? — Antônio perguntou.

— O sistema cai. Acontece.

— Em todas as câmeras?

— O servidor é antigo.

Sofia aproximou o tablet. Um ícone no canto indicava manutenção manual.

— Alguém fez login.

Marco bateu a unha na mesa.

— Você trabalha com informática agora?

— Faço fechamento no caixa quando falta gente. Esse símbolo aparece quando o administrador entra.

O segurança pediu a lista de acessos. Marco respondeu que ficava no escritório. Antônio mandou outro homem buscar.

— Isso é invasão — Marco disse.

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— Você trouxe uma prova contaminada até o hospital e apontou para uma funcionária. Escolha sua reclamação com cuidado.

Celina chegou quinze minutos depois, usando calça de moletom e casaco por cima do pijama. Identificou cada comprimido de Maria e negou as cápsulas brancas.

— O frasco estava trancado quando saí hoje de manhã. Só dona Maria, seu Antônio e a administração da casa têm chave.

Marco abriu as mãos.

— Pronto. Nem entrei nessa casa.

— Entrou no meu restaurante — Sofia respondeu. — Com a bolsa dela no seu armário.

O funcionário voltou com uma folha impressa. O acesso de administrador durante os nove minutos usara a senha de Marco.

Sofia ligou para Dona Cida antes de sair do hospital. A avó atendeu reclamando do volume da televisão da clínica e exigiu saber por que a neta ainda estava acordada.

— Perdi o emprego.

— O gerente encostou em você de novo?

— Dessa vez, encostou na pessoa errada.

Dona Cida ficou em silêncio por dois segundos. Depois perguntou se Sofia tinha comido. Era a forma usada por ela para atravessar desastre sem lhe dar nome.

— Tem arroz na geladeira. Não gasta com carro de aplicativo.

Antônio escutou do outro lado da sala. Quando Sofia desligou, ele colocou sobre a mesa o cartão de uma clínica particular. Ela empurrou de volta.

— Minha avó já tem médico.

— E você acabou de perder salário.

— Amanhã eu procuro outro.

Na saída, Celina entregou a Sofia uma sacola com sanduíche e suco enviados por Maria. Dentro havia um bilhete escrito com letras trêmulas: "Visita amanhã. Ordem médica da paciente."

Sofia dobrou o papel e guardou na carteira. Antônio abriu a porta do carro; ela passou direto. Ele caminhou ao lado dela até a estação, sem segurança por perto, e parou na catraca.

— Até amanhã?

— Se sua mãe mandar, eu avalio.

— Ela mandou.

— Então talvez.

— Depois de dormir três horas?

— Já trabalhei com menos.

Ele pegou o cartão, dobrou-o uma vez e guardou. A recusa deixou no rosto dele uma pergunta que não encontrou voz.

Ele riu.

— Todo mundo conhece minha senha. Fica colada na gaveta.

Antônio puxou a cadeira diante dele e sentou.

— Você acabou de admitir que deixa a senha das câmeras de segurança exposta.

— Estou dizendo que podem ter armado pra mim também.

— Quem?

— Ela.

Marco apontou novamente para Sofia. Antônio acompanhou o gesto, depois olhou para o sapato gasto dela, a manga molhada e a fita aparecendo no calcanhar.

— Sofia estava trabalhando diante de quarenta pessoas — disse.

— E agora está sentada com o senhor. Algumas garotas sobem rápido.

Sofia levantou. Retirou o crachá da bolsa e o colocou sobre a mesa.

— Pode mandar meu pagamento hoje.

Marco recolheu o crachá.

— Considere abandono de função.

— Escreve o que ajudar você a dormir.

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Ela saiu antes que a voz falhasse. No corredor, abriu o aplicativo do banco. O aluguel venceria em quatro dias; a clínica de Dona Cida cobraria a parcela na manhã seguinte.

Antônio alcançou Sofia perto dos elevadores.

— Volte para a sala.

— Pra quê? Ele já decidiu minha versão.

— Eu não.

— Sua decisão paga minhas contas por uma semana e coloca um preço no que fiz pela sua mãe. Guarde o envelope.

As portas do elevador abriram. Antônio segurou o sensor para impedir que fechassem.

— Quanto falta para sua faculdade?

Sofia apertou o botão do térreo.

— Um semestre e uma vida menos complicada.

— Posso resolver a primeira parte.

— A segunda vem junto com você.

A mão dele continuou diante do sensor. Um músculo mexeu no maxilar.

— Minha mãe quer ver você quando acordar.

— Eu volto amanhã como visita.

— Sem dinheiro.

— Sem envelope.

Ele tirou a mão. As portas começaram a fechar.

— Um carro leva você.

— Metrô ainda aceita gente teimosa.

Pela abertura estreita, Sofia viu o canto da boca dele ceder. O elevador desceu.

No térreo, a recepcionista chamou seu nome. Um homem havia deixado um cartão para ela. O papel continha apenas um número e a frase: "Se precisar de trabalho de verdade."

Sofia guardou sem ligar. Caminhou até a estação, trocou de linha e chegou ao prédio pouco depois da meia-noite.

O corredor do terceiro andar cheirava a perfume amadeirado. Caro, seco, deslocado entre a tinta descascada e os tapetes antigos.

A porta do apartamento estava encostada.

Sofia não entrou. Fotografou a fechadura riscada, enviou a imagem para a vizinha e ligou para a polícia. Depois tocou a porta com a ponta do sapato.

O porta-comprimidos de Maria estava quebrado sobre o capacho. As tampas formavam uma trilha até uma folha dobrada.

"Cuide das suas mesas."

O celular vibrou. Número oculto.

Sofia acionou a gravação e atendeu.

— Alô?

Uma respiração pesada ocupou a linha.

— Da próxima vez, a velha não acorda.

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