A derrota na Torre Moretti ainda queimava como ácido nas veias de Matteo, mas a calmaria de sua esposa recém-descoberta como bilionária durou pouco tempo.
Enquanto a holding em São Paulo sangrava bilhões com o bloqueio imposto pela misteriosa holding Vênus, a facção rival do Rio de Janeiro decidira aproveitar a suposta fraqueza do Don para chutar o balde.
Renato, o sanguinário e impiedoso chefe do tráfico e da contravenção na Zona Oeste carioca, enviara um ultimato em formato de convite para uma suposta mesa de negociação pacífica na capital fluminense.
O encontro estava marcado em um galpão abandonado e fortificado na região portuária do Caju, um território dominado por armas pesadas e cumplicidade policial onde a polícia de São Paulo não tinha jurisdição.
Para testar a lealdade daquela que agora controlava o seu destino, Helena fizera questão de acompanhar o marido na viagem de avião, exigindo com um sorriso enigmático que queria ver de perto como o temido chefão lidava com crises fora de São Paulo.
Matteo, ainda atordoado e furioso, aceitou levá-la por puro orgulho ferido, imaginando que mantê-la por perto o ajudaria a recuperar o controle da situação.
A aeronave pousou na Base Aérea do Galeão sob forte esquema de segurança privada, mas os veículos blindados contratados por Matteo mal conseguiram avançar cem metros antes de caírem em uma emboscada milimetricamente calculada.
Dezenas de homens fortemente armados com fuzis de assalto cercaram o comboio em uma curva isolada perto da Avenida Brasil, neutralizando os seguranças dos Moretti em menos de três minutos.
Antes que Matteo pudesse sacar a pistola oculta sob o paletó, a porta do seu blindado foi arrancada por um pé de cabra e capangas gargalhantes o puxaram para fora pelo colarinho.
No banco traseiro, Helena foi capturada com a mesma falsa violência, embora seus olhos perfeitamente calmos registrassem cada detalhe tático da operação inimiga.
Ambos foram algemados com abraçadeiras de aço e arrastados para o interior do galpão escuro, mofado e infestado de ratos na zona portuária carioca.
Sentado em uma poltrona de couro esfarrapada no centro do salão, Renato tragava um charuto cubano barato, cercado por capangas com os rostos cobertos por capuzes pretos.
O chefão carioca soltou uma baforada espessa de fumaça, abrindo um sorriso amarelo e debochado ao ver o poderoso Don de São Paulo ajoelhado no chão de cimento batido.
"Ora, ora, veja só se não é o intocável Matteo Moretti, vindo direto de São Paulo para virar adubo na terra do samba", debochou Renato, gargalhando alto e batendo palmas com ironia. "Sua marra acabou junto com o seu dinheiro, Don. Ouvi dizer que os bancos te deram um pé na bunda hoje cedo."
Matteo levantou o rosto com dificuldade, cuspindo um pingo de sangue no chão e encarando o rival com um ódio mortal nos olhos cinzentos.
"Se você encostar um dedo em mim, Renato, a minha facção vai caçar você e sua laia até o inferno", rosnou Matteo, testando a resistência das algemas de metal em seus pulsos.
Renato deu de ombros, levantando-se lentamente e caminhando até parar bem na frente de Helena, que mantinha a cabeça erguida com uma serenidade insultante.
"A sua marra é impressionante, gringo, mas quem veio de brinde foi a sua esposa de mentira", sibilou Renato, puxando Helena pelo queixo com violência para forçá-la a olhar para ele. "Uma patricinha metida a besta que a família Albuquerque te empurrou. Sabe o que eu vou fazer com ela na sua frente antes de mandar vocês dois para a Baía de Guanabara?"
Enquanto o terror se instalava no galpão sombrio do Rio de Janeiro, a centenas de quilômetros de distância, o clima nos Jardins em São Paulo era de pura celebração festiva.
Numa cobertura de luxo com vista para o Parque Trianon, Isabella Albuquerque e seu noivo Rodrigo Sampaio brindavam com taças de champagne vintage importado.
Eles haviam acabado de receber uma ligação anônima informando que o comboio de Matteo e Helena fora interceptado por criminosos perigosos na capital fluminense.
"Você viu isso, Rodrigo?! Deu certo!", comemorou Isabella, pulando de alegria no sofá de veludo e dando um beijo estalado no rosto do herdeiro. "Aquela bastarda da Helena e o marido arrogante caíram direto na arapuca do Renato no Rio de Janeiro!"
Rodrigo sorriu amplamente, ajustando o colarinho da camisa e tomando um gole generoso da bebida espumante com um brilho de pura maldade nos olhos.
"O chefão do Rio não perdoa ninguém, meu amor", gabou-se Rodrigo, sentando-se ao lado da noiva e rindo cinicamente. "Aquela idiota da Helena vai ser eliminada da pior forma possível, e a herança dos Albuquerque vai voltar inteirinha para as suas mãos sem nenhum empecilho."
As duas socialites riam descontroladamente na sala de estar espelhada, imaginando os minutos finais de agonia que a meia-irmã supostamente estaria sofrendo nas mãos dos bandidos cariocas.
Elas brindavam à morte alheia, convictas de que a vitória e o controle total da alta sociedade paulistana finalmente lhes pertencia por direito divino.
De volta ao galpão úmido e fétido do Caju, Renato puxou uma faca de caça enferrujada da cintura e encostou a lâmina fria bem na bochecha de Helena, rindo sádico para testar o desespero de Matteo.
"Decida rápido, Moretti: você prefere assinar a cessão de todos os seus portos clandestinos em Santos ou quer assistir à sua linda esposinha desfigurada agora mesmo?", desafiou Renato, pressionando o metal contra a pele branca de Helena.
Matteo sentiu o coração falhar uma batida, tomado por um misto de fúria cega e uma estranha culpa que jamais sentira por ninguém.
Ele abriu a boca para responder, mas antes que qualquer palavra pudesse sair de seus lábios, Helena soltou um suspiro entediado e lançou um olhar mortal para o líder dos bandidos cariocas.