Capítulo 2: O Desfiladeiro de Vidro na Noite Carioca
A chuva tropical despencava sobre a mansão privada no Rio de Janeiro como uma cortina de chumbo, fustigando as imensas janelas com fúria cega. Os trovões ecoavam pelas paredes de vidro temperado, mas a tensão elétrica dentro da biblioteca particular era infinitamente mais sufocante.
Victoria tateava a penumbra em busca dos livros-razão antigos nas prateleiras de mogno quando uma mão forte a agarrou de surpresa pela cintura. O puxão foi de uma força inegável, colando-a instantaneamente contra um corpo duro, febril e familiar.
O cheiro inconfundível de sândalo e charuto de luxo misturava-se ao aroma fresco da chuva que entrava pela fresta da varanda. Era ele. Enzo.
"Brincando de detetive na minha casa, Victoria?" A voz dele sussurrou quente e perigosa contra a curva sensível do pescoço dela. O toque fez a mulher estremecer por uma fração de segundo antes que ela endurecesse cada músculo do corpo.
Victoria não tentou se soltar do abraço possessivo que a mantinha cativa. Com um movimento rápido e felino, ela tateou a mesa lateral, tencionando apanhar a taça de vinho tinto esquecida.
Sem hesitar um único instante, virou o líquido escuro inteiro sobre a camisa social branca de Enzo. O vinho manchou o tecido fino de maneira violenta, escorrendo por seu peito musculoso e delineando o contorno perfeito de seu abdômen sob a penumbra.
"Com monstros como você, Enzo, a gente não joga pelas regras." Victoria sibilou, com os olhos negros faiscando de puro ódio e desafio a meros centímetros de sua boca.
A paciência de ferro de Enzo estilhaçou-se diante daquela insolência intencional. Com um rosnado abafado que parecia vir do fundo da alma, ele a ergueu do chão sem o menor esforço.
Enzo a prensou impiedosamente contra a vidraça encharcada pela tempestade, ignorando o frio da noite. Capturou os lábios dela em um beijo profundo e devastador que trazia tanto de punição implacável quanto de pura e incontrolável obsessão.
O gosto do vinho misturou-se ao calor daquela colisão violenta entre dois inimigos mortais. Victoria tentou morder o lábio dele em retaliação, mas Enzo apenas aprofundou o beijo, segurando-a com tanta firmeza que parecia querer fundi-la à sua própria pele.
"Você gosta de brincar com fogo, passarinho, mas vai acabar se queimando inteira." Murmurou ele contra a boca dela, com a respiração descompassada e o olhar de âmbar brilhando na escuridão.
"Eu já estou queimando, Enzo, e o plano sempre foi levar você comigo para o inferno." Retrucou Victoria, ofegante, com um sorriso de escárnio nos lábios inchados.
As mãos de Enzo deslizaram pelas costas dela, traçando a linha de sua coluna com uma possessividade que beirava a loucura. Ele a apertou ainda mais contra si, fazendo-a sentir o quanto o seu autocontrole havia desabado por completo.
"Ninguém sai daqui até que você me diga o que veio procurar nos meus cofres privados." Exigiu ele, com a voz grave vibrando contra o peito dela em um tom de aviso intransigível.
"Procuro as cinzas da sua família, aquelas mesmas que vocês jogaram sobre o túmulo da minha mãe vinte anos atrás." A voz de Victoria perdeu o tom de zombaria, ganhando uma densidade gélida e cortante.
Enzo parou por um segundo, absorvendo o peso daquela acusação que rasgava velhas feridas do clã Medeiros. Em vez de se afastar, ele enterrou o rosto na curva do pescoço dela, inalando o perfume de jasmim como se fosse sua única fonte de oxigênio.
"Aquele passado morreu na mesma estrada onde o carro dela capotou, Victoria, e eu não fui o carrasco." Sussurrou ele, com uma ponta de vulnerabilidade que raramente deixava transparecer.
"Mentira." Murmurou ela, sentindo o corpo dele tremer levemente com a confissão inesperada. "Todos vocês assinaram a sentença de morte dela da mesma forma que assinam os balanços falsificados da holding."
A tempestade lá fora rugia mais alto, como se o clima estivesse em sincronia com a tormenta emocional que explodia naquele escritório isolado. Enzo desceu os lábios pelo queixo dela, traçando um caminho de fogo até o lóbulo de sua orelha.
"Se quiser destruir os Medeiros, vai ter que começar destruindo a mim primeiro, porque eu sou a única muralha que restou entre você e eles." Afirmou ele, com uma seriedade assustadora.
Victoria sentiu o estômago revirar com a intensidade daquelas palavras, dividida entre o ódio mortal que nutria e o feitiço perigoso que aquele homem exercia sobre seus sentidos. Ela ergueu as mãos, apoiando-as nos ombros largos dele, sentindo a umidade da chuva e o calor da pele através do tecido arruinado.
"Não teste a minha paciência, Enzo, pois eu não tenho o menor escrúpulo em ver essa muralha desabar sobre nós dois." Desafiou ela, olhando diretamente naquelas íris âmbar que pareciam consumi-la.
"Então vamos cair juntos, Victoria, porque eu não vou deixar você escapar desta vez." Prometeu ele, antes de cobrir os lábios dela novamente em um frenesi de desejo e destruição mútua.