Capítulo 1: A Execução Escarlata e Negra
O salto agulha de Victoria Salvador estalou contra o piso de mármore polido da cobertura da Medeiros Holdings, em São Paulo, como um tiro seco. Ela não trazias lágrimas nos olhos, apenas uma pasta de couro preto repleta de auditorias de offshores e o peso de vinte anos de exílio forçado.
Vestida com um longo e justo vestido de seda vermelho-sangue, que formava um contraste violento contra sua pele branca como porcelana, ela ignorou os murmúrios de desdém dos diretores seniores.
A cada passo calculado, o perfume de jasmim noturno e perigo preenchia o ar gélido da sala de reuniões.
Na ponta da mesa da diretoria, Enzo de Medeiros ergueu o queixo de forma soberba. Seus cabelos negros, levemente bagunçados, emolduravam um rosto de feições duras e cortantes, esculpidas pelo sol impiedoso do Rio de Janeiro.
Seus raros olhos cor de âmbar brilharam com uma ferocidade gélida ao fitar a intrusa que ousava invadir seu santuário corporativo.
O silêncio na sala tornou-se espesso e sufocante, cortado apenas pelo som da respiração contida dos executivos. Enzo cruzou os braços largos cobertos pelo tecido impecável da camisa italiana, avaliando a mulher como quem observa um inseto insolente prestes a ser esmagado.
"Você está na cadeira errada, menina." O tom de Enzo era profundo, perigoso, carregado de uma autoridade intocável que costumava fazer qualquer oponente tremer.
Victoria não desviou o olhar nem por um segundo, sustentando aquela pressão brutal com uma serenidade mortal. Ela abriu a pasta de couro com gestos deliberadamente lentos, jogando os documentos pesados de aquisição hostil sobre a madeira nobre bem diante dele.
"Não venho pedir permissão, Enzo, e muito menos aceito correções sobre o meu lugar."
A voz dela era gélida, cortando o ar da sala como uma lâmina afiada. "Venho tomar o que é meu por direito de sangue e por séculos de dívidas que este clã maldito acumulou."
Um murmúrio escandalizado correu entre os diretores, mas Enzo levantou uma única mão, silenciando instantaneamente a todos na sala. Ele não se irritou com a ousadia inaudita, algo que nenhum outro acionista ou inimigo jamais tivera coragem de fazer em sua presença.
Pela primeira vez em anos, os cantos de seus lábios se curvaram em um sorriso sutil, predador e profundamente fascinado. Ele a encarou como um caçador que, de repente, descobre que a presa veio armada com dentes afiados pronta para devorá-lo.
"A audácia de uma bastarda exilada me impressiona, Victoria, mas o papel aceita qualquer desaforo impresso." Enzo debochou, inclinando o tronco para a frente com perigosa elegância.
"Acha mesmo que alguns papéis rasgados e assinaturas falsificadas em paraísos fiscais vão me arrancar este império das mãos?"
Victoria apoiou as palmas das mãos na mesa de mogno, aproximando o rosto do dele até que pudessem sentir o calor mútuo daquela fúria contida.
Seus olhos negros faiscaram com o brilho de quem passou duas décadas planejando cada segundo exato desta vingança.
"Não são apenas papéis, Enzo, são as algemas que fechei ao redor do pescoço de cada um dos seus queridos tios corruptos." Retrucou ela, destilando veneno em cada palavra. "E você será o último troféu da minha coleção antes de queimar esta torre de vidro até o chão."
O magnata soltou uma risada baixa, um som gutural que ecoou pelas paredes de vidro temperado como o rosnado de um felino acuado.
A tensão entre os dois era palpável, uma corrente elétrica invisível que fazia os cabelos da nuca de todos os presentes se arrepiarem de pavor.
"Se o seu objetivo era chamar a minha atenção, Victoria, parabéns, você conseguiu o prêmio máximo." Sussurrou Enzo, com a voz carregada de uma promessa obscura e doentia. "Mas saiba que brincar com fogo em São Paulo geralmente reduz a cinzas aqueles que não sabem controlar o calor."
"Eu sou o próprio incêndio, Enzo, e vim preparada para ver tudo desabar com você dentro." Retrucou ela, endireitando o corpo com uma postura imperial que desafiava a gravidade.
Os diretores ao redor mal ousavam respirar diante daquela batalha psicológica travada a portas fechadas. Enzo continuou a fitá-la fixamente, absorvendo cada detalhe daquela beleza fria e letal que agora ameaçava destruir sua hegemonia no continente.
"Reunião encerrada." Ordenou Enzo sem desviar os olhos de Victoria, levantando-se lentamente de sua cadeira com toda a sua imponência de um metro e oitenta e cinco.
Os homens de terno cinza não esperaram segundo convite, recolhendo suas pastas às pressas e disparando para fora da sala de reuniões. Em poucos segundos, o enorme espaço corporativo esvaziou-se completamente, restando apenas os dois titãs cercados pelo horizonte cinzento da metrópole.
O silêncio que se instalou foi ainda mais pesado, pontuado apenas pelo zumbido distante do ar-condicionado central. Victoria permaneceu erguida, com os braços cruzados sobre o peito, esperando o próximo movimento daquele predador acuado, mas mortal.
Enzo contornou a longa mesa de madeira com passos felinos e calculados, aproximando-se perigosamente da figura esguia envolta em seda escarlate. O cheiro de seu perfume amadeirado misturou-se ao aroma de café forte e poder absoluto que o acompanhava onde quer que fosse.
"Você achou mesmo que vir a São Paulo sem mim seria seguro, Victoria?" Perguntou ele junto ao ouvido dela, com uma suavidade aveludada que escondia navalhas.
Victoria sentiu o ar rarefar por uma fração de segundo, mas manteve a máscara de ferro intacta. Ela virou o rosto lentamente, encarando aquelas íris âmbar que pareciam devorar sua alma em busca de fraquezas.
"A única coisa que não é segura aqui, Enzo, é a sua permanência nessa cadeira dourada." Sussurrou ela, desafiadora.
Enzo parou a centímetros dela, erguendo a mão para roçar de leve o dorso dos dedos na bochecha de porcelana da mulher. Um arrepio violento correu pela espinha de Victoria, traindo a armadura de gelo que ela tanto tentava sustentar.
"Nós vamos nos divertir muito antes de um de nós dois destruir o outro, minha caríssima inimiga." Murmurou ele, com um sorriso de canto que prometia noites sem fim de tormento e desejo.