Capítulo 4: Cláusulas de Pecado
O cheiro de jasmim e terra molhada parecia ter se fixado nas narinas de Balthazar de forma permanente, um perfume fantasma que ele passaria os próximos anos tentando arrancar de sua própria pele sem sucesso.
O aroma gélido e metálico que Fiora deixara no Palácio dos Cristais ainda ecoava em sua mente quando ele abriu as portas da sala de reuniões anexa à sua suíte presidencial.
A sala de alta segurança na sede da Albuquerque Holding estava imersa em uma penumbra estratégica, iluminada apenas pelas luzes da avenida Paulista que cortavam as persianas automatizadas.
Fiora já estava sentada à cabeceira da mesa de carvalho negro, vestindo um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado que exalava a frieza de sua nova identidade internacional.
"O senhor está exatamente sete minutos atrasado para o início da nossa auditoria contratual, senhor Albuquerque" pontuou a perfumista, sem desviar os olhos dos gráficos digitais que flutuavam na tela de seu tablet.
"Eu não sigo cronogramas de terceiros no meu próprio edifício, Fiorella, e você sabe muito bem que esta reunião não tem nada a ver com prazos" respondeu Balthazar, fechando a porta blindada com um estrondo que fez os copos de cristal sobre o aparador vibrarem.
Ele caminhou com passos predatórios até o lado oposto da mesa, jogando uma pasta de couro legítimo sobre a superfície polida com uma agressividade que tentava restabelecer o domínio perdido.
Seus olhos azul-escuro brilhavam com a paranoia doentia de quem passara as últimas setenta e duas horas investigando cada passo da Fiora Silva Corp em Paris.
"Se o seu objetivo é tentar me intimidar com a sua presença física ou com os seus relatórios de mercado interno, sugiro que poupe o seu oxigênio" declarou ela, erguendo os olhos de âmbar com uma calmaria que irritou o magnata profundamente.
"Você acha que pode simplesmente mudar o corte de cabelo, adotar um nome francês e apagar o fato de que foi a minha esposa por um ano inteiro?" questionou o CEO, inclinando o corpo sobre a mesa para invadir o espaço pessoal da mulher.
"A Fiorella Silva foi uma criação da sua necessidade de controle que morreu sufocada na lama da Alameda Lorena por culpa da sua cegueira" rebateu Fiora, mantendo a voz em um tom aveludado e cortante que não demonstrava a menor oscilação.
"Você me traiu com aquela indústria concorrente, sabotou a fórmula da nossa linha principal e agora volta fingindo ser uma divindade intocável!" acusou o tirano, a mandíbula rígida enquanto a proximidade física reativava a eletricidade proibida entre os dois.
Fiora soltou uma risada gélida, uma melodia curta e desprovida de qualquer humor que ecoou pelas paredes revestidas de isolamento acústico da sala vip. Ela deslizou o dedo pela tela do tablet, projetando um documento digital holográfico diretamente no centro da mesa de reuniões.
"Estas são as cláusulas de fornecimento exclusivo da matéria-prima que a sua holding precisa para não declarar falência judicial na próxima segunda-feira" explicou a soberana, apontando para os termos destacados em vermelho.
"Cinquenta e cinco por cento de participação nos lucros líquidos da linha de fragrâncias e controle absoluto sobre o laboratório de desenvolvimento?" leu Balthazar, a voz subindo de tom enquanto seus olhos escaneavam as exigências leoninas da ex-esposa.
"O senhor esquematizou a minha expulsão sem me deixar um único centavo, portanto, considere isto apenas o reajuste inflacionário da minha dignidade" respondeu ela, apoiando o queixo na mão enluvada com uma expressão de puro deboche aristocrático.
Balthazar perdeu completamente o restinho de sanidade que tentava manter para a negociação corporativa, contornando a mesa com a velocidade de um lobo que encurrala a sua presa no canto da jaula.
Ele segurou os braços da cadeira de Fiora com as duas mãos, encurralando o corpo da mulher contra o encosto de couro e colando seu rosto ao dela até que suas respirações se misturassem na penumbra.
"Você acha que eu vou assinar a entrega do meu patrimônio para a mulher que destruiu o meu coração e me deixou dormindo com um fantasma?" sibilou o magnata, os olhos azul-escuro injetados de uma mistura de ódio latente e desejo brutal.
"Você vai assinar porque o seu orgulho não tem liquidez na bolsa de valores, Balthazar, e porque você está desesperado pelo meu talento" respondeu Fiora, sem recuar um milímetro e mantendo os olhos dourados fixos nas pupilas dele.
O toque iminente de seus corpos criava uma combustão silenciosa na sala, um magnetismo tóxico e destrutivo que trazia de volta as memórias das noites em que ele a possuía com a fúria de um dono possessivo.
Balthazar desceu o olhar para os lábios pintados de Fiora, sentindo a tentação violenta de calar aquela arrogância com um beijo castigador que arrancasse as respostas que ele tanto buscava.
Antes que a mão do bilionário pudesse tocar o pescoço da perfumista, Fiora ergueu a perna direita com uma agilidade calculada, pressionando a ponta afiada de seu salto agulha contra o joelho esquerdo do magnata.
"Dê mais um passo em falso e eu garanto que a Albuquerque Holding precisará de um novo presidente de cadeira de rodas antes do encerramento do pregão" alertou ela, pressionando o couro do terno dele com a força de quem não tinha medo de causar um sangramento.
Balthazar rosnou de dor e frustração, recuando dois passos com os punhos cerrados enquanto tentava estabilizar o ritmo de seu coração acelerado pela humilhação.
A mulher diante dele já não era a menina que chorava implorando por clemência sob os relâmpagos; ela era a arquiteta de uma retribuição cirúrgica.
"Você mudou muito, Fiorella, a sua pele parece mais fria e o seu cheiro perdeu a doçura que me fazia esquecer do resto do mundo" comentou o CEO, a voz rouca enquanto tentava capturar o aroma metálico que emanava do corpo dela.
"A doçura atrai os predadores paranoicos como você, senhor Albuquerque, por isso aprendi a destilar o meu próprio veneno para manter os monstros longe do meu laboratório" respondeu a perfumista, organizando seus pertences eletrônicos com movimentos calmos.
Ela se levantou da cadeira de couro com a imponência de uma rainha que encerrava uma audiência com um súdito rebelde, caminhando até o homem que ainda tentava recuperar o fôlego na penumbra.
Fiora retirou a caneta de alta precisão de sua bolsa de grife e a deslizou lentamente para dentro do bolso superior do paletó sob medida de Balthazar.
Ela deu dois tapinhas leves no peito rígido do ex-marido, bem acima da cicatriz antiga da qual ele tanto se orgulhava de carregar como símbolo de sua resiliência.
"O contrato triturado que o senhor me enviou em Paris foi apenas o rascunho, o verdadeiro veredito está nas suas mãos para assinatura até a meia-noite" avisou ela, caminhando em direção à porta blindada com o som cadenciado de seus saltos ecológicos ecoando no silêncio.
"Eu vou descobrir quem financiou a sua fuga e vou destruir cada um dos seus aliados antes que você consiga colocar as mãos na minha empresa!" gritou Balthazar para as costas da mulher, os dedos trêmulos de pura raiva enquanto a via se afastar.
Fiora parou por um segundo antes de tocar a maçaneta eletrônica, olhando para trás de soslaio com um sorriso enigmático que fez a espinha do bilionário congelar.
"Tente não ter um ataque cardíaco antes de assinar os papéis, Balthazar, porque o meu filho precisa que o patrimônio dos Albuquerque esteja intacto quando formos recolher os despojos" concluiu ela, sumindo pelo corredor de mármore e deixando o magnata imerso na escuridão de sua própria fúria.