Capítulo 6: A Teia de Aranha (Confissão Oculta)
O eco dos passos elegantes de Helena ao deixar Isabella para trás ainda ressoava no salão dos Jardins quando a noite começou a assumir contornos mais sombrios e perigosos. Sob a orientação fria de Matheus, ela se deslocou até um pavilhão privado de arquitetura neoclássica localizado nos fundos daquela mesma propriedade de luxo.
O ambiente estava banhado por uma penumbra calculada, decorado com móveis de carvalho escuro e cortinas pesadas de veludo que isolavam qualquer ruído vindo do exterior. Lucas já a esperava ali, escondido nas sombras daquele refúgio isolado, com o suor frio do desespero empapando o colarinho de sua camisa branca de grife.
"Helena, meu amor, eu sabia que você estaria viva, eu passei cada dia rezando por um milagre" disparou Lucas assim que a porta se fechou, forçando uma voz embargada e lágrimas completamente teatrais.
"Poupe-me das suas orações tardias, Lucas, e diga logo o que o trouxe rastejando até o meu pavilhão privado" respondeu Helena, cruzando os braços com uma rigidez que emanava puro desprezo.
O golpista deu dois passos rápidos à frente, caindo de joelhos com as mãos estendidas em uma encenação patética de arrependimento profundo. Ele tentava de todas as formas convencer a herdeira de que havia sido manipulado por Isabella e de que o plano do penhasco nunca fizera parte de suas reais intenções.
"Eu fui obrigado a seguir as ordens da minha irmã, aquela louca me ameaçou e disse que destruiria a minha carreira se eu não fizesse o que ela queria" mentiu ele, com os lábios trêmulos e os olhos arregalados de pânico.
"Você sempre foi um covarde fraco, mas achar que eu esqueceria o som da sua risada enquanto o meu carro afundava no oceano ultrapassa todos os limites do ridículo" retrucou ela, mantendo-se perfeitamente imóvel.
Na sala vizinha, separada por um imenso espelho de vidro falso e bidirecional, Matheus Monteiro permanecia de pé com as mãos nos bolsos do paletó escuro.
Seus olhos negros acompanhavam cada centímetro daquela interação repugnante através dos monitores de alta definição que Sérgio operava em silêncio absoluto.
"Esse verme não tem a menor dignidade, chefe, quer que eu entre lá e quebre os dedos dele antes que ele termine de falar?" sussurrou Sérgio, mantendo a mão direita pousada sobre a coronha da arma sob o terno.
"Ainda não, Sérgio, deixe que a nossa loba brinque com a presa mais um pouco antes de arrancarmos a cabeça desse infeliz de uma vez por todas" ordenou Matheus, sentindo um instinto protetor possessivo e violento crescer em seu peito como nunca antes.
Lucas percebeu que as lágrimas falsas não estavam surtindo o efeito desejado na fisionomia gélida de Helena e mudou sua estratégia imediatamente, levantando-se com um estalo de dentes irritado.
A máscara de homem arrependido caiu por terra, revelando a verdadeira face desprezível e oportunista que ele escondera por tantos anos sob promessas de amor eterno.
"Se você não liberar uma linha de crédito emergencial para a holding da minha família agora mesmo, eu juro que revelo todos os seus antigos segredos para o mercado" ameaçou Lucas, com um sorriso cínico e os punhos cerrados de raiva.
"Você realmente acha que está em posição de me chantagear dentro de uma propriedade que pertence aos Monteiro, seu imbecil falido?" rebateu Helena, arqueando uma das sobrancelhas com escárnio absoluto.
"Eu tenho cópias de todos os contratos antigos que você assinou quando ainda era a herdeira tola, e posso fazer a mídia acreditar que você fraudou o próprio pai antes de morrer" rosnou o homem, dando mais um passo ameaçador na direção dela.
Lucas estendeu a mão direita de forma abrupta, tentando tocar o braço de Helena com um misto de agressividade e falso afeto para forçá-la a ceder às suas exigências financeiras.
Helena recuou um passo inteiro com um nojo visceral explícito em sua expressão, esquivando-se do toque daquele homem como se estivesse diante de uma criatura peçonhenta.
"Não ouse encostar um único dedo imundo na minha pele se quiser sair deste pavilhão respirando por conta própria" sibilou Helena, com uma voz que fez o ex-noivo congelar no mesmo instante.
Ela retirou um pequeno dispositivo eletrônico do bolso interno de seu blazer e tocou na tela de vidro com a ponta dos dedos ágeis.
No mesmo segundo, os alto-falantes embutidos no teto do pavilhão começaram a reproduzir em viva-voz as confissões detalhadas que Lucas fizera minutos antes, detalhando cada fraude e a tentativa de assassinato no litoral.
"O que é isso? Que palhaçada tecnológica você pensa que está fazendo comigo aqui dentro?" gaguejou Lucas, sentindo o coração saltar pela boca ao ouvir a própria voz ecoando pelas paredes.
"Esta gravação sigilosa não está apenas tocando aqui, Lucas, ela está sendo transmitida simultaneamente via satélite para o conselho de administração da empresa dos Almeida" revelou Helena, exibindo o cronômetro da transmissão ao vivo na tela do aparelho.
"Você enlouqueceu de vez, Helena! Se eles ouvirem isso, o restante dos acionistas vai pedir a minha destituição do cargo e a minha prisão preventiva antes do amanhecer!" gritou o golpista, correndo em direção à mesa central de desespero.
"Esse é exatamente o objetivo principal do meu plano, ver você perder até o último resquício de dignidade diante das pessoas que você usou para subir na vida" concluiu ela, caminhando até a mesa onde repousava uma garrafa de vinho tinto aberta.
Lucas desabou sobre a cadeira de carvalho, cobrindo o rosto com as duas mãos enquanto percebia que todas as portas de saída do seu labirinto de mentiras haviam sido trancadas por fora.
Na sala ao lado, Matheus deu um leve aceno com a cabeça para Sérgio, sinalizando que a primeira fase do xeque-mate corporativo fora concluída com sucesso absoluto.
"Ela é simplesmente magnífica, nunca vi ninguém destruir um homem de elite com tanta classe e precisão psicológica" comentou o bilionário, com um brilho de admiração possessiva dominando completamente os seus olhos.
Helena pegou uma taça de cristal lapidado transbordando de vinho tinto encorpado e caminhou lentamente até parar exatamente na frente do ex-noivo destroçado.
Ela o encarou de cima para baixo com a soberania de uma rainha que dita a sentença de morte de um servo traidor.
"Brindemos à sua total e completa ruína, meu querido Lucas" murmurou Helena, antes de virar a taça com um movimento rápido e deliberado.
O líquido escuro e manchado voou pelo ar e atingiu em cheio o peito da camisa branca de grife de Lucas, espalhando-se como uma enorme poça de sangue falso sobre o tecido caro.
O homem levantou-se em um sobressalto, atônito, sem palavras e completamente ensopado, enquanto a mancha vermelha escorria pelo seu terno como a marca indelével da sua derrota definitiva.