Capítulo 1: O Fim e o Começo (Abismo e Afogamento)
A chuva caía impiedosa sobre o cais deserto de Santos, transformando aquela madrugada fria em um borrão cinzento e claustrofóbico. Helena sentia o peito comprimido não apenas pela umidade sufocante do ar, mas pelo peso esmagador da traição que acabara de descobrir.
As luzes distantes dos guindastes portuários piscavam como olhos indiferentes diante da tragédia que se desenhava na escuro. O cheiro de maresia misturado com o combustível queimado impregnava suas roupas encharcadas até a alma.
"Por que vocês estão fazendo isso comigo? Eu dei absolutamente tudo o que tinha para manter essa empresa funcionando!" Helena gritou, com a voz embargada pelas lágrimas e pela incredulidade absoluta.
Seu coração batia de forma descompassada no peito enquanto ela encarava o homem com quem planejava se casar em breve. O casaco de grife dele parecia zombar da miséria emocional em que ela se encontrava.
Isabella cruzou os braços com elegância felina, ostentando um sorriso cínico que iluminou a penumbra com pura maldade. Os diamantes em suas orelhas faiscavam sob a luz fraca e amarelada dos postes.
"Você sempre foi terrivelmente ingênua, Helena. Achou mesmo que o Lucas seria seu para sempre?" sibilou Isabella, ajustando o tecido caro com total indiferença.
O veneno pingava de cada palavra que sua irmã adotiva pronunciava sem nenhum pingo de remorso no coração. A máscara de boa moça havia caído por completo, revelando a serpente que sempre habitou ali.
"O império da nossa família e o seu noivo sempre pertenceram a mim por direito. Você foi apenas um degrau conveniente para subirmos ao topo" continuou Isabella, rindo de forma desdenhosa.
Lucas deu um passo à frente na direção dela, evitando olhar diretamente nos olhos marejados daquela que um dia chamara de noiva. O silêncio cúmplice dele doeu mais do que qualquer golpe físico.
Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos da calça social, demonstrando uma apatia ensaiada e fria. A covardia dele era palpável no ar pesado daquela madrugada chuvosa.
"Não leve para o lado pessoal, Helena. Os negócios exigem sacrifícios frios, e você já cumpriu o seu papel de nos financiar até aqui" disse Lucas secamente, desviando o olhar para o chão molhado.
As palavras dele soaram como uma lâmina afiada cortando os últimos resquícios de afeto que ela guardava no peito. O homem por quem ela sacrificara noites de sono não passava de um parasita ambicioso.
"Vocês dois são monstros abjetos! Vão pagar caro por cada centavo roubado e por essa traição nojenta!" Helena cuspiu as palavras com um misto ardente de raiva e repulsa.
Antes que Helena pudesse articular outra frase de protesto, as mãos gélidas de Lucas a empurraram com força brutal para o interior escuro do porta-malas. O baque surdo ecoou na estrutura metálica do veículo.
O cheiro rançoso de mofo e gasolina velha invadiu suas narinas de forma nauseabunda. Suas costas bateram violentamente contra o assoalho duro, arrancando-lhe o pouco de oxigênio que restava nos pulmões.
"Adeus, querida irmã. Desfrute bem do fundo do mar" zombou Isabella, rindo histericamente do lado de fora enquanto a tampa se fechava com um estrondo metálico definitivo.
O barulho da tranca batendo soou como a sentença de morte mais fria que alguém poderia receber. A escuridão absoluta engoliu o pequeno espaço onde ela estava acuada e sem saída.
"Abram! Me deixem sair daqui agora! Por favor!" Helena implorou aos gritos, socando as paredes de metal até machucar os nós dos dedos, mas os risos abafados do lado de fora foram a única resposta.
O motor do carro rugiu de repente com uma aceleração brusca e completamente descontrolada. O veículo começou a se mover rapidamente em marcha à ré em direção à rampa íngreme de acesso ao mar.
"Vocês não vão conseguir fugir disso! A justiça vai alcançá-los em breve!" ela gritou de dentro do compartimento, mesmo sabendo que a voz não atravessaria a lataria grossa.
O som das ondas batendo contra o concreto do cais ficou cada vez mais audível e aterrorizante. Cada segundo parecia se estirar em uma eternidade insuportável de pura agonia.
O veículo despencou no vazio com um impacto violento que arrancou o fôlego de seus pulmões. A sensação de queda livre durou o suficiente para congelar o sangue em suas veias.
A batida da água contra a lataria foi ensurdecedora quando o carro atingiu a superfície revolta do mar. O peso impressionante do motor fez a dianteira afundar instantaneamente na escuridão.
A água turva e gélida começou a invadir o porta-malas pelas frestas, cortando sua pele como agulhas de gelo. O líquido subia rápido, molhando seus sapatos e encharcando sua blusa de seda.
O desespero inicial de Helena durou apenas alguns segundos enquanto o nível da água subia implacavelmente até a altura de seu peito. A falta de oxigênio começou a fazer sua visão escurecer nas bordas.
À medida que o ar rarefeito ameaçava extinguir sua vida, uma transformação profunda e gélida tomou conta de sua mente. O medo cego deu lugar a uma clareza aterrorizante e magnética.
"Eles querem me ver morta e enterrada? Pois eu vou voltar do inferno para cobrar cada gota de sangue" sussurrou Helena para si mesma na escuridão submersa.
A dor e a angústia evaporaram instantaneamente, substituídas por um ódio denso, implacável e absoluto. O instinto de sobrevivência fundiu-se a uma sede insaciável de vingança fria.
O ar acabou de vez em seus pulmões, mas os batimentos de seu coração pareciam ecoar como tambores de guerra em sua mente. Ela não permitiria que a história terminasse daquela maneira patética.
Sua mente traçava planos gélidos de destruição enquanto o carro afundava cada vez mais nas profundezas da lama submarina. Cada traidor teria o que merecia, com juros, correção e muito sangue.