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《Eu Criei Meu Próprio Irmão》Parte 4

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Gabriel se inclinou para fora da janela, tentando enxergar o rosto da pessoa que descia pela escada de incêndio.

O casaco escuro escondia quase todo o corpo, mas, por um instante, o vento afastou o capuz e revelou cabelos grisalhos e uma cicatriz próxima à orelha esquerda.

"Delegado Antônio?", Gabriel gritou.

A figura parou no degrau inferior.

O homem olhou para cima, ainda abraçado à caixa de ferro verde, e seus olhos encontraram os de Gabriel.

Era Antônio Prado, o policial que estivera na Santa Casa na madrugada em que Ana Paula morreu.

Antes que Gabriel pudesse dizer outra coisa, o homem saltou os últimos degraus, atravessou o corredor lateral do prédio e desapareceu entre as casas.

"Volta aqui!"

Gabriel tentou passar pela janela, mas Patrícia o segurou pela cintura.

"Você vai cair!"

"Ele levou a caixa!"

O adolescente se debateu.

"Solta! Eu conheço aquele homem!"

O oficial de justiça correu para a escada comum, enquanto Patrícia puxava Gabriel de volta para dentro da cozinha.

Quando chegaram à rua, Antônio Prado já havia desaparecido.

Um ônibus bloqueava a visão da esquina. Motocicletas passavam entre os carros, vendedores gritavam ofertas e dezenas de pessoas seguiam em direções diferentes.

Gabriel girava o corpo de um lado para o outro, desesperado.

"Ele não pode ter sumido."

O oficial de justiça tentou falar com dois comerciantes, mas nenhum deles havia prestado atenção ao homem de casaco.

Patrícia colocou a mão sobre o ombro de Gabriel.

"Você tem certeza de que era ele?"

"Eu nunca esqueci aquele rosto."

"Quem é Antônio Prado?"

"Era policial. Ele apareceu no hospital quando minha mãe morreu."

"Por que um policial estava lá?"

Gabriel respirou com dificuldade.

"Ele disse que precisava verificar se havia algum adulto responsável por nós."

Patrícia franziu a testa.

"A polícia normalmente não participa desse procedimento."

"Ele fez perguntas sobre meu pai."

"Que perguntas?"

"Perguntou quando Carlos Eduardo tinha desaparecido, onde trabalhava e se minha mãe guardava documentos dele."

O adolescente olhou para a janela aberta do apartamento.

"Na época, achei que fosse normal."

Patrícia retirou o celular da bolsa.

"Precisamos registrar a invasão."

Gabriel segurou o braço dela.

"Não chama qualquer policial."

"Por quê?"

"E se Antônio ainda trabalhar na polícia?"

Ela sustentou o olhar do adolescente.

"Então vamos procurar uma delegacia onde ele não possa interferir."

Gabriel voltou ao apartamento acompanhado pelos dois adultos.

A destruição parecia ainda pior agora que ele sabia exatamente o que havia desaparecido.

O invasor não procurara dinheiro.

O pequeno pote com moedas permanecia intacto sobre a geladeira. O celular antigo de Ana Paula continuava dentro da gaveta quebrada. Até a televisão estava no lugar.

A pessoa queria apenas documentos.

Gabriel entrou no quarto da mãe e se ajoelhou diante do guarda-roupa.

A tábua usada para esconder a caixa havia sido removida com cuidado, sem quebrar a madeira.

"Quem fez isso sabia onde procurar", disse.

Patrícia se agachou ao lado dele.

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"Mais alguém conhecia o esconderijo?"

"Minha mãe. Eu. E talvez meu pai."

"Carlos Eduardo?"

"Ele instalou essa tábua antes de desaparecer."

Gabriel passou a mão pelo espaço vazio.

Dentro da caixa havia muito mais que a carta.

Ana Paula guardava certidões, recibos, cadernetas bancárias antigas e fotografias que nunca deixava expostas.

Uma dessas fotos mostrava Carlos Eduardo diante de uma oficina mecânica em São Mateus.

Ao lado dele estava Antônio Prado, ainda jovem, usando roupa comum.

No verso, Ana Paula escrevera uma data e uma frase curta.

A última noite antes da verdade destruir nossa família.

Gabriel nunca compreendera o significado.

Agora, aquela fotografia havia desaparecido junto com a caixa.

"Também tinha uma foto do meu pai", ele contou.

Patrícia pegou o bloco de anotações.

"Que tipo de foto?"

"Ele aparecia com Antônio."

"Então eles se conheciam."

"Conheciam."

"Isso significa que o homem que vimos pode ter ligação com seu pai, não apenas com Sônia."

Gabriel apertou os dentes.

"Ou com os dois."

Ele examinou o quarto.

As gavetas estavam no chão, mas os objetos haviam sido espalhados de maneira seletiva.

Quem invadira o apartamento abrira antigos álbuns, rasgara envelopes e retirara o forro de duas bolsas de Ana Paula.

"Estavam procurando a carta antes de encontrar a caixa."

Patrícia observou o bilhete deixado sobre o colchão.

"Ou queriam que você acreditasse nisso."

Gabriel pegou o papel usando um pano.

"Quem escreveu sabia que minha mãe morreu escondendo alguma coisa."

"Isso reduz bastante o número de suspeitos."

"Não reduz nada. Todo mundo está mentindo."

A voz dele falhou.

Pela primeira vez desde que entrara no apartamento, Gabriel olhou para a cama de Miguel.

O lençol azul estava rasgado.

O carrinho vermelho sem uma das rodas havia sido pisado e quebrado ao meio.

Ele se abaixou e recolheu o brinquedo.

Miguel guardava aquele carrinho desde os quatro anos.

Era o último presente que Ana Paula lhe dera antes de morrer.

Gabriel fechou os olhos, dominado por uma mistura de culpa e fúria.

"Ele vai perguntar pelo carrinho."

Patrícia não encontrou resposta.

"Eu prometi que voltaria com a verdade."

"Você ainda pode encontrá-la."

"Sem a carta? Sem a caixa? Com a palavra de uma mulher que desapareceu por três anos valendo mais do que a minha?"

"Eu acredito que alguém invadiu este lugar."

"Mas acredita em mim sobre Sônia?"

Patrícia hesitou.

Gabriel sorriu com amargura.

"Foi o que pensei."

"Eu não posso acusar uma pessoa sem provas."

"Eu vi o medo no rosto dela quando falamos da carta."

"Medo não é crime."

"Minha mãe morreu com medo dela."

A assistente social respirou fundo.

"Gabriel, eu não estou contra você."

"Mas também não está do meu lado."

"Meu lado é o que for mais seguro para Miguel."

"Então pare de tratar a casa bonita de Sônia como prova de que ela é segura."

Patrícia permaneceu em silêncio.

Pouco depois, uma equipe da polícia científica chegou ao apartamento.

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Foram recolhidas impressões digitais, fotografias da fechadura e o bilhete deixado no quarto.

Gabriel descreveu Antônio Prado, mas o policial responsável informou que precisaria consultar os registros funcionais.

"Antônio Prado é um nome comum", disse ele.

"Ele tem uma cicatriz perto da orelha esquerda."

"Você sabe em qual distrito ele trabalhava?"

"Não."

"Tem alguma fotografia?"

"Tinha. Estava dentro da caixa roubada."

O policial anotou a informação sem demonstrar surpresa.

Gabriel percebeu que, para todos ali, aquele era apenas mais um apartamento invadido na periferia.

Para ele, era o desaparecimento da única voz que sua mãe ainda possuía.

O celular de Patrícia tocou.

Era o Fórum João Mendes.

O juiz Ricardo exigia que eles retornassem imediatamente, pois a suspensão provisória da audiência não autorizava Gabriel a permanecer fora por tempo indeterminado.

Patrícia encerrou a ligação e olhou para ele.

"Precisamos ir."

"Eu não vou deixar a casa assim."

"Uma equipe continuará o trabalho."

"Eu preciso procurar."

"Procurar o quê?"

Gabriel olhou para o guarda-roupa.

Ana Paula costumava esconder coisas dentro de coisas.

Dinheiro em caixas de fósforos. Chaves dentro de potes de farinha. Recados costurados no forro das roupas.

Se alguém levar o que está visível, procure onde ninguém suportaria tocar.

Ela dizia isso quando brincava de caça ao tesouro com os filhos.

Gabriel foi até uma caixa de papelão no canto do quarto.

Dentro estavam roupas antigas de Ana Paula que ele nunca tivera coragem de doar.

Ele retirou vestidos, blusas e um casaco marrom usado na última semana de vida dela.

Apalpou os bolsos.

Nada.

Depois verificou as costuras, mas não encontrou nenhum papel.

Patrícia observava em silêncio.

"Gabriel, precisamos sair."

"Mais um minuto."

Ele abriu o guarda-roupa e retirou um par de sapatos pretos da mãe.

As solas estavam descoladas.

Gabriel puxou uma delas e encontrou um pequeno pedaço de papel dobrado.

Seu coração disparou.

No papel havia apenas uma sequência de números e duas letras.

A.P. 417.

"Isso significa alguma coisa?", perguntou Patrícia.

"Não sei."

Ele guardou o papel no bolso antes que o oficial pudesse vê-lo.

Não confiaria aquela pista a ninguém.

Ao saírem do prédio, Gabriel viu Dona Rosa aproximando-se lentamente pela calçada.

A idosa havia deixado Miguel sob os cuidados de uma funcionária do fórum e pegado um carro por aplicativo até Cidade Tiradentes.

"Eu precisava ver com meus próprios olhos", explicou.

Quando entrou no apartamento, ela chorou.

"Meu Deus, fizeram isso na casa da Ana."

Gabriel fechou a porta atrás dela.

"A senhora sabia da caixa verde?"

Dona Rosa assentiu.

"Vi sua mãe com ela algumas vezes."

"Sabia onde ficava escondida?"

"Não."

"Quem mais sabia?"

A idosa olhou para Patrícia.

"Posso falar com Gabriel sozinho?"

A assistente social não gostou do pedido.

"Ele está sob acompanhamento judicial."

Dona Rosa bateu a bengala no chão.

"Eu não vou fugir com o menino dentro da bolsa."

Patrícia cruzou os braços.

"Cinco minutos."

Ela saiu com o oficial e esperou no corredor.

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Assim que a porta se fechou, Dona Rosa segurou as mãos de Gabriel.

"Você viu quem levou a caixa?"

"Antônio Prado."

A idosa empalideceu.

"Tem certeza?"

"Ele estava na Santa Casa quando minha mãe morreu."

"Eu sei quem ele é."

Gabriel sentiu o corpo endurecer.

"Como?"

"Antônio era amigo do seu pai."

"Eu vi uma foto deles."

"Não eram apenas amigos. Trabalharam juntos durante anos."

"Na oficina?"

Dona Rosa olhou para a porta.

"Na oficina e em outros serviços."

"Que serviços?"

"Seu pai consertava carros para gente perigosa."

"Criminosos?"

"Não sei. Ana nunca quis contar tudo."

Gabriel apertou as mãos da idosa.

"E Sônia?"

Dona Rosa desviou os olhos.

"O que ela tem a ver com isso?"

"Eu vi o rosto dela quando a carta apareceu. Ela sabia que existia alguma coisa na caixa."

A idosa caminhou até a janela.

Por alguns segundos, observou a rua como se temesse encontrar alguém vigiando o prédio.

Então fechou a cortina.

"Sônia esteve aqui ontem."

Gabriel sentiu o coração parar por um instante.

"Aqui no apartamento?"

"No prédio."

"Por que a senhora não falou isso no fórum?"

"Eu não tinha certeza de que era ela até vê-la hoje."

"O que ela fez?"

"Chegou no fim da tarde, usando óculos escuros. Ficou dentro de um carro preto por quase vinte minutos."

"Ela entrou?"

Dona Rosa hesitou.

"Entrou."

Gabriel fechou os punhos.

"Como?"

"Ela tinha uma chave."

"Isso é impossível."

"Eu vi quando abriu a porta."

"Minha mãe trocou a fechadura depois que Sônia ameaçou voltar."

"Talvez ela tenha feito outra cópia antes."

Gabriel olhou para os arranhões recentes na fechadura.

"Se tinha chave, por que forçaram a porta hoje?"

"Talvez tenham sido duas pessoas diferentes."

A resposta fez um frio atravessar suas costas.

Sônia podia ter entrado no dia anterior e encontrado a caixa.

Antônio aparecera depois para levá-la.

Ou talvez Sônia tivesse retirado apenas uma parte do conteúdo e deixado a caixa para o antigo policial.

"O que ela carregava quando saiu?", perguntou Gabriel.

"Uma bolsa grande."

"Estava cheia?"

"Parecia mais pesada."

"Por que a senhora não me avisou?"

"Eu tentei ligar."

"Meu celular estava desligado durante a audiência."

"Também mandei mensagem."

Gabriel retirou o aparelho e viu três chamadas perdidas de Dona Rosa.

A última mensagem dizia apenas:

Sua tia entrou na casa. Não deixe Miguel sozinho.

Ele sentiu a culpa esmagá-lo.

Enquanto estava no fórum tentando convencer os adultos, Sônia caminhava livremente pela casa de sua mãe.

"O que havia na carta?", Dona Rosa perguntou.

"Não sei. Nunca abri."

"Ana me disse que escreveria toda a verdade."

"Que verdade?"

A idosa apertou os lábios.

"Sobre Carlos Eduardo."

"Meu pai?"

"E sobre o nascimento de Miguel."

Gabriel se lembrou das palavras do advogado.

Sônia não era apenas tia do menino.

"Por que todo mundo fala do nascimento dele como se houvesse algo errado?"

Dona Rosa sentou-se na beirada da cama.

"Quando Ana ficou grávida de Miguel, seu pai já tinha desaparecido havia alguns meses."

"Isso não é verdade. Minha mãe dizia que ele saiu depois."

"Ela dizia isso para proteger vocês."

Gabriel recuou.

"Proteger de quê?"

"Das perguntas."

"Meu pai não é pai do Miguel?"

"Eu não disse isso."

"Mas pensou."

Dona Rosa começou a chorar.

"Ana me fez jurar que não contaria nada enquanto ela estivesse viva."

"Ela morreu há três anos."

"Mesmo assim, eu tinha medo."

"De Sônia?"

A idosa assentiu.

"Por que ela quer Miguel?"

"Talvez porque a existência dele prove alguma coisa."

"O quê?"

Antes que Dona Rosa respondesse, Patrícia bateu à porta.

"Gabriel, o juiz não pode esperar mais."

Dona Rosa segurou o pulso do adolescente.

"Não confie em Sônia."

"Eu preciso de mais do que isso."

"Então encontre a fotografia."

"Ela estava na caixa."

"Não a fotografia de Antônio."

"Qual?"

"A fotografia tirada no dia em que Miguel nasceu."

Gabriel tentou lembrar.

Havia várias fotos do irmão recém-nascido, mas nenhuma parecia importante.

"Quem aparece nela?"

Dona Rosa abriu a boca para responder, mas um barulho de vidro quebrando veio da sala.

Gabriel correu.

Uma pedra atravessara a janela e caíra sobre o tapete.

Enrolado nela havia outro bilhete.

Patrícia voltou para dentro com o oficial.

Gabriel retirou o papel preso por um elástico.

A mensagem estava escrita com a mesma letra de forma do bilhete anterior.

A caixa não era o único esconderijo.

Ele virou o papel.

No verso havia uma cópia pequena de uma fotografia da Santa Casa.

Ana Paula aparecia deitada numa cama, segurando Miguel recém-nascido.

Sônia estava ao lado dela.

Mas havia uma terceira pessoa na imagem.

Carlos Eduardo.

O homem que, segundo Dona Rosa, já havia desaparecido antes da gravidez.

Gabriel aproximou a fotografia do rosto.

No peito de Carlos havia uma placa de identificação com outro nome.

Eduardo Ferreira.

O sobrenome de Sônia.

Dona Rosa cambaleou.

"Essa foto não devia existir."

Gabriel olhou para ela.

"Quem é Eduardo Ferreira?"

A idosa começou a negar com a cabeça.

"Não posso contar."

"Ele é meu pai?"

"Gabriel..."

"Ele é o pai de Miguel?"

Dona Rosa fechou os olhos.

Antes que respondesse, o celular de Patrícia tocou.

Ela atendeu e seu rosto perdeu a cor.

"Como assim Sônia retirou Miguel do fórum?"

Gabriel arrancou o telefone da mão dela.

"Quem deixou ela levar meu irmão?"

Do outro lado, uma funcionária chorava.

"Sônia apresentou uma ordem judicial provisória. Quando perceberam que o documento era falso, o carro já tinha saído."

Gabriel deixou o aparelho cair.

A fotografia escorregou de seus dedos.

Naquele instante, ele finalmente entendeu por que Sônia tinha invadido o apartamento.

Ela não queria apenas destruir a carta.

Queria apagar qualquer prova de quem era o verdadeiro pai de Miguel antes de desaparecer com o menino.

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