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《Eu Criei Meu Próprio Irmão》Parte 3

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O juiz Ricardo Almeida manteve os olhos sobre a certidão colocada diante dele.

O documento trazia o nome completo de Sônia Aparecida Ferreira, a data de nascimento e uma anotação feita à mão no verso, já quase apagada pelo tempo.

Gabriel continuava diante de Miguel, como se o próprio corpo pudesse formar uma parede entre o menino e a mulher que acabara de entrar.

Sônia não demonstrava pressa.

Ela ajeitou a manga do conjunto bege, aproximou-se da mesa e lançou um olhar discreto para o envelope amarelado.

"Explique o que significa direito legal imediato", ordenou o juiz.

O advogado abriu a pasta.

"Minha cliente é a única irmã viva de Ana Paula dos Santos. Além disso, há indícios de que ela foi indicada como responsável por Miguel ainda durante a gestação."

Gabriel sentiu a raiva subir pelo peito.

"Isso é mentira."

O advogado nem sequer olhou para ele.

"Temos uma ficha de atendimento pré-natal e uma declaração assinada pela falecida."

Sônia colocou a mão sobre o coração.

"Minha irmã sabia que eu poderia cuidar do filho dela."

Dona Rosa soltou uma risada curta e amarga.

"Cuidar? Você passou três anos sem perguntar se eles estavam vivos."

Sônia virou-se devagar.

"Eu não sabia que Ana tinha morrido."

"São Paulo inteira ficou sabendo do enterro."

"Eu não morava mais em Guaianases."

"Mas sabia onde sua irmã morava."

O advogado levantou a mão.

"Não transformemos esta audiência em uma discussão entre familiares."

Gabriel encarou Sônia.

"Você apareceu na nossa casa antes de minha mãe morrer."

O rosto da mulher permaneceu imóvel.

"Você devia ser muito pequeno. Pode estar confundindo as coisas."

"Eu tinha doze anos."

"Traumas alteram lembranças."

"Eu lembro da sua voz."

Miguel segurou a camisa do irmão.

Gabriel fechou os olhos por um instante e voltou àquela noite.

Ana Paula discutia na cozinha, tentando falar baixo para que os filhos não acordassem.

Mas Gabriel ouvira cada palavra através da parede fina.

"Você não vai levar nada daqui", Ana Paula havia dito.

Depois, a voz de Sônia respondeu:

"Você acha que consegue esconder isso para sempre?"

Na manhã seguinte, a mãe retirara documentos de uma gaveta, colocara tudo em uma caixa de ferro e pedira ao filho que nunca falasse sobre aquilo.

Gabriel abriu os olhos.

"Você ameaçou minha mãe."

Sônia apertou os lábios.

"Excelência, não posso responder por fantasias de um adolescente desesperado."

"Não são fantasias."

"Então apresente provas."

Gabriel apontou para o envelope.

"A carta é a prova."

O juiz Ricardo pegou novamente as folhas encontradas por Dona Rosa.

Antes que pudesse lê-las, o advogado de Sônia se levantou.

"Peço que esse documento não seja considerado."

"Com base em quê?", perguntou o juiz.

"Não há comprovação de autoria, não existe reconhecimento de firma e o papel permaneceu durante anos em poder de uma testemunha ligada emocionalmente aos menores."

Dona Rosa ergueu a bengala.

"Está me chamando de mentirosa?"

"Estou questionando a validade jurídica do material."

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"Eu conhecia Ana Paula há quinze anos."

"E justamente por isso sua neutralidade pode ser questionada."

Gabriel deu um passo à frente.

"Minha mãe não precisaria reconhecer firma para contar que tinha medo."

O juiz bateu o martelo.

"Chega."

A sala ficou em silêncio.

Ricardo Almeida solicitou que a servidora recolhesse os documentos apresentados pelas duas partes.

Depois, dirigiu-se a Patrícia.

"Existe algum registro anterior sobre Sônia Ferreira?"

A assistente social voltou ao computador.

"Há apenas as tentativas de localização realizadas após o falecimento de Ana Paula."

"Minha cliente nunca foi procurada corretamente", afirmou o advogado.

Patrícia franziu a testa.

"Enviamos notificações para dois endereços."

"Endereços antigos."

"Também fizemos contato por telefone."

"Uma linha que já não pertencia a ela."

Sônia suspirou, como se estivesse sendo injustamente atacada.

"Eu morava em Sorocaba naquela época. Trabalhava em uma confecção e passava meses viajando."

Dona Rosa balançou a cabeça.

"Mentira."

Sônia virou-se para ela.

"Cuidado com o que diz."

"Eu vi você na rua da casa deles."

"Quando?"

"Uma semana antes de Ana morrer."

O rosto de Sônia endureceu.

"Prove."

Dona Rosa apertou as duas mãos sobre a bengala.

"Eu estava varrendo a calçada quando seu carro parou. Você entrou na casa e saiu quase uma hora depois."

"Não tenho carro."

"Naquela época tinha."

"Qual era o modelo?"

A idosa hesitou.

Sônia sorriu.

"Foi o que pensei."

Gabriel percebeu a habilidade da tia em transformar cada acusação numa dúvida.

Ela não gritava.

Não perdia o controle.

Falava como alguém acostumado a escolher palavras que pareciam verdadeiras mesmo quando escondiam alguma coisa.

O juiz Ricardo abriu o relatório apresentado pelo advogado.

Sônia vivia em um apartamento de dois quartos na Vila Matilde, tinha emprego formal como gerente de uma loja de roupas e não possuía antecedentes criminais.

Havia fotografias do quarto preparado para Miguel.

Uma cama nova.

Brinquedos.

Uma escrivaninha.

Na parede, um cartaz com o nome do menino.

Gabriel olhou as imagens e sentiu um arrepio.

"Tudo isso foi montado ontem."

Sônia o encarou.

"Foi preparado para receber meu sobrinho."

"Você nem sabe do que ele gosta."

"Posso aprender."

"Qual é a comida preferida dele?"

Sônia ficou em silêncio.

Gabriel continuou:

"Qual é o nome da professora? Que remédio ele não pode tomar? O que ele faz quando acorda assustado?"

"Isso não define quem pode ser uma boa responsável."

"Qual é a cor preferida dele?"

Sônia olhou para Miguel.

"Azul."

Miguel respondeu com a voz baixa:

"É verde."

Gabriel não desviou o olhar.

"Ele dorme com a luz acesa ou apagada?"

Sônia apertou a bolsa contra o corpo.

"Essas informações podem ser aprendidas."

"Eu não precisei aprender. Eu estava lá."

O advogado se levantou.

"Excelência, meu cliente é um adolescente de quinze anos. Por mais admirável que seja seu esforço, ele não pode assumir legalmente a guarda de uma criança."

Gabriel sentiu a frase como uma humilhação.

O advogado continuou:

"Minha cliente é adulta, possui renda, residência adequada e vínculo sanguíneo. Impedir o acolhimento familiar seria privilegiar a emoção em prejuízo da segurança."

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Miguel se levantou.

"Eu não quero morar com ela."

Sônia suavizou a voz.

"Você ainda não me conhece, meu amor."

"Não me chama assim."

"Sou sua tia."

"Gabriel é minha família."

A mulher caminhou na direção dele.

Gabriel imediatamente se colocou no meio.

"Não chega perto."

"Você está assustando seu irmão."

"Foi você que assustou minha mãe."

Sônia perdeu o sorriso.

"Você não sabe nada sobre o que aconteceu entre nós."

"Sei que ela mandou manter Miguel longe de você."

"Ela estava doente."

"Minha mãe não era louca."

"Eu não disse isso."

"Mas queria dizer."

O juiz interferiu antes que a discussão se agravasse.

"Sônia, por que pediu apenas a guarda de Miguel?"

A pergunta atravessou a sala como uma lâmina.

Gabriel ficou imóvel.

Patrícia ergueu os olhos do computador.

Sônia demorou alguns segundos para responder.

"Gabriel tem quinze anos. Imaginei que ele preferisse uma instituição voltada para adolescentes."

"Você não quer os dois?", perguntou o juiz.

"Quero ajudar os dois dentro do possível."

"Então por que não solicitou a guarda de Gabriel?"

O advogado se antecipou.

"O apartamento de minha cliente possui espaço adequado para uma criança."

Gabriel soltou uma risada sem humor.

"Tem dois quartos."

Sônia olhou para ele.

"Um deles é meu."

"E o outro tem uma cama nova para Miguel. Caberia outra cama."

"Não seria tão simples."

"É simples, sim. Você só quer ele."

Miguel apertou a mão do irmão.

O juiz Ricardo voltou-se para Sônia.

"Existe alguma razão específica para seu interesse exclusivo por Miguel?"

"Ele é mais novo. Precisa de cuidados imediatos."

"Gabriel também é menor."

"Gabriel demonstra independência."

"Porque foi obrigado a demonstrar."

Sônia respirou fundo.

"Eu não vim aqui para ser julgada por tentar fazer o certo."

Dona Rosa murmurou:

"Você nunca fez nada sem querer alguma coisa em troca."

O advogado protestou novamente, mas o juiz pediu que prosseguissem.

Patrícia recebeu autorização para entrevistar Miguel em uma sala reservada.

Gabriel se opôs.

"Ele não vai sozinho."

"A entrevista precisa acontecer sem influência", explicou ela.

"Eu não influencio meu irmão."

"Não estou acusando você."

"Então eu entro com ele."

Sônia cruzou os braços.

"Está vendo? Ele não permite que Miguel fale por si mesmo."

Gabriel virou-se bruscamente.

"Você não tem direito de falar sobre nós."

O juiz considerou a situação e permitiu que Dona Rosa acompanhasse o menino, desde que permanecesse em silêncio.

Miguel segurou Gabriel com força.

"Não quero ir."

"Eu vou estar aqui quando você voltar."

"Promete?"

Gabriel tocou a pulseira no pulso do irmão.

"Prometo."

Miguel olhou para Sônia antes de sair.

A mulher sorriu para ele.

O menino apertou o passo.

Assim que a porta se fechou, Sônia aproximou-se de Gabriel.

"Você deveria parar de dificultar as coisas."

Ele não respondeu.

"Se colaborar, talvez eu possa ajudar você também."

"Eu não quero nada seu."

"Quer manter seu irmão por perto."

Gabriel finalmente a encarou.

"O que você quer?"

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"Dar estabilidade a Miguel."

"Não foi isso que eu perguntei."

Sônia olhou discretamente para o juiz, que conversava com a representante do Ministério Público.

Depois, abaixou a voz.

"Existem coisas que Ana Paula escondeu até de você."

"Que coisas?"

"Assuntos de adultos."

"Você falou que Miguel não é só seu sobrinho."

O olhar dela ficou frio.

"Não repita tudo o que escuta."

"Ele é o quê?"

Sônia aproximou o rosto.

"Faça o que eu estou pedindo e talvez você nunca precise descobrir."

Gabriel sentiu o sangue gelar.

"Você está me ameaçando?"

"Estou dando um conselho."

"Minha mãe tinha razão sobre você."

Por um instante, a máscara de tranquilidade caiu.

Sônia apertou o braço dele.

"Não fale da sua mãe como se soubesse quem ela era."

Gabriel afastou a mão da mulher.

"Não toca em mim."

O juiz olhou na direção deles.

"Algum problema?"

Sônia recuperou imediatamente o sorriso.

"Nenhum, excelência. Eu só tentava tranquilizar meu sobrinho."

"Eu não sou seu sobrinho", disse Gabriel.

"Sou irmã de sua mãe."

"Família não desaparece quando alguém precisa."

"Você é jovem demais para entender as escolhas que os adultos fazem."

"Sou velho o bastante para reconhecer uma mentira."

A porta da sala reservada se abriu.

Miguel voltou acompanhado por Patrícia e Dona Rosa.

Seus olhos estavam vermelhos, mas ele caminhou diretamente até Gabriel.

Patrícia entregou ao juiz uma folha com anotações.

Ricardo Almeida leu em silêncio.

"Durante a entrevista, Miguel afirmou que deseja permanecer com o irmão."

Sônia suspirou.

"É natural. Ele foi condicionado a depender de Gabriel."

Miguel olhou para ela.

"Ele não me obrigou a nada."

"Você é muito pequeno para entender."

"Eu entendo que você não gosta dele."

A mulher ficou surpresa.

"Eu nunca disse isso."

"Mas quando fala com ele, seu rosto muda."

Dona Rosa escondeu um sorriso.

O juiz continuou:

"Miguel também relatou que nunca ouviu sua mãe mencionar Sônia de forma positiva."

O advogado ajustou a gravata.

"Uma criança de sete anos está repetindo memórias influenciadas pelo irmão."

Gabriel bateu a mão sobre a mesa.

"Vocês vão dizer que tudo o que ele sente foi colocado na cabeça dele?"

O juiz levantou a voz.

"Gabriel, sente-se."

"Não enquanto todo mundo trata Miguel como se ele não soubesse quem o ama."

"Sentar-se não significa concordar."

Gabriel permaneceu de pé por alguns segundos.

Depois, sentou-se lentamente.

O juiz Ricardo anunciou que a decisão sobre o acolhimento seria suspensa por quarenta e oito horas.

Durante esse período, a equipe técnica avaliaria a residência de Sônia, verificaria seus vínculos anteriores e analisaria a documentação apresentada.

Gabriel sentiu um pequeno alívio.

Ao menos Miguel não seria levado naquela manhã.

Mas a sensação desapareceu quando ouviu a determinação seguinte.

"Até a conclusão da avaliação, Miguel ficará em acolhimento emergencial. Gabriel permanecerá em unidade destinada a adolescentes."

"Não", Gabriel respondeu imediatamente.

"É uma medida temporária."

"Eu já disse que não."

"Você não pode decidir isso sozinho."

"E Sônia pode aparecer depois de três anos e decidir?"

"O pedido dela será investigado."

"Minha mãe avisou sobre ela."

O juiz segurou as folhas amareladas.

"Este documento menciona o nome de Sônia, mas está incompleto."

Dona Rosa se aproximou.

"Incompleto?"

"Há uma interrupção no final da primeira página. A segunda começa no meio de uma frase."

Gabriel pegou as folhas.

Ele leu rapidamente.

A primeira página terminava com as palavras:

Se alguma coisa acontecer comigo, procurem a caixa...

A página seguinte começava:

...porque Miguel nunca estará seguro perto dela.

Gabriel levantou os olhos.

"Está faltando uma folha."

Dona Rosa empalideceu.

"Foi assim que encontrei."

"Onde está o resto?"

"Eu não sei."

Sônia soltou o ar devagar.

O movimento foi pequeno, mas Gabriel percebeu.

Ela estava aliviada.

"Você sabe onde está", ele acusou.

Sônia ergueu o queixo.

"Não faço ideia."

"Minha mãe escreveu sobre uma caixa."

"Há milhares de caixas no mundo."

"Você entrou na nossa casa procurando alguma coisa."

"Isso só existe na sua memória."

O juiz Ricardo pediu que Gabriel entregasse novamente as páginas.

O adolescente apertou o papel contra o peito.

"Minha mãe deixou uma carta."

"Parte dela está aqui."

"Não. Esta é só uma cópia."

A sala ficou em silêncio.

Dona Rosa franziu a testa.

"Como você sabe?"

Gabriel passou os dedos sobre a assinatura.

"A caneta falhou aqui. Minha mãe sempre reforçava a última letra do nome quando a tinta falhava."

Ele apontou para o traço.

"Nesta folha, o traço termina reto. Ela nunca assinava assim."

O advogado de Sônia soltou uma risada discreta.

"Agora o adolescente virou perito."

Gabriel ignorou-o.

"Minha mãe guardava os documentos importantes numa caixa de ferro verde."

Dona Rosa abriu os olhos.

"Eu me lembro dela."

"Depois que ela morreu, a caixa ficou no alto do guarda-roupa."

"Você nunca me contou."

"Porque ela pediu segredo."

Sônia permaneceu imóvel, mas sua mão apertou a alça da bolsa.

Gabriel continuou:

"Dentro da caixa estava a carta original."

O juiz se inclinou para a frente.

"Você chegou a ler?"

"Não."

"Por quê?"

"Estava dentro de um envelope fechado com meu nome."

"Então como sabe que era uma carta?"

"Minha mãe me mostrou antes de esconder."

Sônia se levantou.

"Isso é absurdo. Ele está inventando outra prova porque percebeu que estas páginas não têm valor."

Gabriel apontou para ela.

"Você está com medo."

"Estou cansada de acusações."

"Você sabe o que existe naquela caixa."

O juiz Ricardo pediu silêncio.

"Gabriel, onde está a caixa de ferro?"

Ele hesitou.

Na última vez que a vira, estava escondida atrás de cobertores velhos, no quarto da mãe.

Depois da morte de Ana Paula, Gabriel mudara o esconderijo.

Temia que algum adulto entrasse na casa e levasse os documentos.

"Ela estava no nosso apartamento."

"Estava?"

Gabriel sentiu um aperto no estômago.

Naquela manhã, antes de seguirem para o fórum, ele havia pensado em buscar a caixa.

Mas encontrou a porta do guarda-roupa entreaberta.

Não tivera tempo de verificar o esconderijo porque Patrícia já o esperava do lado de fora.

"Eu preciso voltar para casa."

"Isso não será possível agora", respondeu o juiz.

"A caixa pode estar em perigo."

"Uma equipe poderá acompanhar você."

"Não quero equipe. Quero ir com Miguel."

Sônia pegou a bolsa.

"Excelência, isso está se tornando uma encenação."

Gabriel avançou um passo.

"Você entrou lá."

"Não."

"Alguém abriu o guarda-roupa."

"Talvez você tenha esquecido."

"Eu nunca esqueço onde escondo as coisas."

O juiz Ricardo determinou que Patrícia acompanhasse Gabriel até Cidade Tiradentes, junto com um oficial de justiça.

Miguel permaneceria no fórum com Dona Rosa até o retorno deles.

Gabriel protestou, mas acabou aceitando.

Antes de sair, ajoelhou-se diante do irmão.

"Eu vou buscar a carta da mamãe."

"Você volta?"

"Volto."

"Com a caixa?"

"Com a verdade."

Miguel tocou a pulseira de fios vermelhos e azuis.

"Não demora."

Gabriel beijou sua testa.

No corredor, Patrícia caminhava ao lado dele.

"Você realmente acredita que a carta está lá?"

"Eu sei que estava."

"Por que nunca entregou ao Conselho Tutelar?"

"Porque eu não confiava em ninguém."

"E confia em mim agora?"

Gabriel olhou para ela.

"Não."

Patrícia aceitou a resposta em silêncio.

Quase uma hora depois, o carro oficial estacionou diante do pequeno prédio em Cidade Tiradentes.

A rua estava movimentada, com crianças voltando da escola, vendedores anunciando frutas e ônibus passando lentamente entre os carros.

Gabriel subiu as escadas correndo.

Quando chegou ao apartamento, parou diante da porta.

A fechadura estava arranhada.

"Alguém entrou", murmurou.

O oficial de justiça aproximou-se.

"Não toque em nada."

Gabriel empurrou a porta.

A sala estava revirada.

Almofadas rasgadas cobriam o chão. Gavetas haviam sido arrancadas. Roupas, cadernos e fotografias estavam espalhados por toda parte.

Patrícia levou a mão à boca.

"Meu Deus."

Gabriel correu para o quarto.

O guarda-roupa estava aberto.

Ele puxou os cobertores, afastou uma tábua solta e enfiou a mão no fundo do móvel.

O esconderijo estava vazio.

A caixa de ferro verde havia desaparecido.

Gabriel virou-se lentamente.

Sobre o colchão de Miguel, alguém deixara apenas um pedaço de linha vermelha e azul.

Ao lado dos fios, havia um bilhete escrito com letras de forma.

Pare de procurar o que sua mãe morreu tentando esconder.

Patrícia leu por cima do ombro dele.

"Gabriel..."

O adolescente fechou o bilhete dentro do punho.

Então ouviu um ruído vindo da cozinha.

Passos.

Alguém ainda estava dentro do apartamento.

Gabriel atravessou o corredor e empurrou a porta.

A janela estava aberta.

Uma figura de casaco escuro descia pela escada de incêndio, carregando uma caixa de ferro verde contra o peito.

Gabriel correu até a janela.

"Pare!"

A pessoa olhou para cima.

Por um segundo, o capuz caiu.

Gabriel reconheceu o rosto.

Não era Sônia.

Era alguém que estivera ao lado de sua mãe na noite em que ela morreu.

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