"Julia, ele... não quer ser operado. O médico diz que, se adiar mais, não haverá tempo, mas ele não ouve. Diz que, se não fores vê-lo, não se opera."
Agarrei o telemóvel com tanta força que as unhas se cravaram na palma da mão.
"Que operação?"
"A remoção do estômago. O médico diz que a lesão se espalhou; sem cirurgia, restam-lhe no máximo três meses."
Ela não conseguiu continuar, ouviam-se soluços contidos do outro lado.
Desliguei e fiquei à janela durante muito tempo.
Depois, calcei-me e saí.
Quando cheguei, já estava escuro.
A porta do quarto estava fechada e as luzes apagadas.
Entrei e ele estava sentado na beira da cama; a luz da lua iluminava-o.
Estava tão magro que parecia apenas um esqueleto, a bata do hospital pendurada no corpo vazio.
"Vieste," disse, a voz muito leve, sem se virar.
"Porque não te operas?"
"Se não queres ver-me, para quem vou ficar curado?"
Aproximei-me e olhei para aquele rosto pálido, quase transparente.
"A operação é por ti, não por mim."
Ele levantou a cabeça; a luz da lua nos seus olhos parecia vidro partido.
"A operação é para poder ver-te mais algumas vezes. Se não vens, para que serve? O médico diz que, mesmo operando, pode haver recidiva, e sem ela, são três meses."
"Julia, três meses... nem esses três meses me queres dar?"
Com a garganta apertada, forcei-me a dizer: "Opera-te primeiro, depois falamos."
Ele abanou a cabeça.
"Julia, estás a mentir. Sabes que não me vais dar outra oportunidade, pois não?"
Não respondi.
O silêncio foi a resposta.
Ele baixou a cabeça, a voz leve como o vento.
"Está bem, eu faço-a."
No dia seguinte, ele foi levado para o bloco operatório.
A mãe dele estava sentada no corredor, mãos postas, lábios a moverem-se em oração.
Fiquei junto à janela, a olhar para a luz vermelha por cima da porta da sala de cirurgia.
Quatro horas depois, a luz apagou-se.
O médico saiu e tirou a máscara.
"A cirurgia foi um sucesso, a lesão foi removida."
A mãe dele chorou instantaneamente, as pernas falharam-lhe, quase se ajoelhou.
Fiquei ali parada, com as mãos suadas.
Três dias depois da cirurgia, ele foi transferido para a enfermaria.
A primeira coisa que fez ao acordar foi pedir à enfermeira o telemóvel.
Enviou-me uma mensagem, apenas quatro palavras:
【Ainda estou vivo.】
Olhei para o ecrã, sem responder.
No dia em que teve alta, não fui buscá-lo.
À porta do hospital, enviou-me um áudio. A voz ainda estava rouca, mas com um sorriso.
"Julia, tive alta. Podes vir... ver-me?"
"Na verdade, queria ir ter contigo, mas, ironicamente, já não tenho forças para andar."
Apaguei o ecrã do telemóvel.
Uma semana depois, a mãe dele ligou, a voz soava diferente.
"Julia, ele... desmaiou esta manhã e está nos cuidados intensivos."
Quando cheguei, a luz da sala de emergência ainda estava acesa.
A mãe dele estava sentada, parecendo uma casca vazia.
"O médico diz... que o cancro metastizou, foi demasiado rápido, não houve hipótese."
A luz apagou-se.
O médico saiu, tirou a máscara e abanou a cabeça.
O choro da mãe ecoou no corredor como uma lâmina cega, cortando-me o coração a cada instante.
Fiquei no corredor, sem chorar.
Quando o corpo foi retirado, estava coberto por um lençol branco.
Os dedos estavam à mostra, com uma aliança no dedo anelar.
Era o anel de diamante que ele tinha encomendado no dia seguinte à nossa separação.
A mãe dele chorou: "Ele foi buscá-lo no dia em que teve alta e nunca o tirou. Dizia que, se um dia partisse, ao menos levaria isto consigo."
Fiquei junto à cama e levantei um canto do lençol.
O rosto dele estava sereno, tão magro que quase não o reconhecia, mas os cantos da boca estavam ligeiramente elevados, como se sorrisse.
Olhei para ele durante muito tempo.
Depois, voltei a tapá-lo e virei-me.
Ao sair do hospital, caía um temporal.
O telemóvel vibrou.
Era a última mensagem, agendada por ele antes de morrer.
【Julia, já não vou esperar por ti. Nesta vida, não consegui, mas na próxima, volto a esperar por ti, pode ser?】
Fiquei ali, sob o sol, a ler aquela frase repetidamente.
Depois, digitei duas palavras e enviei:
【Não.】
Na próxima vida, é melhor não continuarmos a atormentar-nos.
Mas ele já não a podia receber.
Guardei o telemóvel e entrei na luz do sol.
Sem olhar para trás.
(Fim)