Ela disse: "Guarda, vai que um dia você sente saudades de mim."
Sara aproximou-se e estendeu o celular diante dele.
"Lucas, veja estes locais de casamento que escolhi."
Ela folheava o álbum, deslizando foto por foto.
"Este é num gramado, este é na praia. Qual você prefere?"
O olhar de Lucas retornou da janela e deu uma olhada rápida na tela dela.
Nas fotos, arcos brancos e flores por toda parte.
Ele se lembrou de quando Júlia escrevia cartas por ele na faculdade; certa vez, no final de uma carta, ela desenhou uma pequena flor de gardênia.
Ele disse que o desenho era feio, mas ela não demonstrou tristeza, apenas apagou a flor silenciosamente.
O olhar de Lucas desviou-se da tela e caiu profundamente.
"Tanto faz", disse ele.
Sara ainda estava imersa na alegria da viagem e não percebeu a emoção de Lucas.
Satisfeita, guardou o celular e definiu uma das fotos como papel de parede.
O trem entrou num túnel e as luzes do vagão piscaram.
O vidro da janela refletia os rostos dos dois.
Sara estava sorrindo, enquanto a expressão de Lucas estava parcialmente submersa pela sombra.
Quando o trem saiu do túnel e o ambiente fora da janela voltou a brilhar, Lucas falou.
"Sara."
Ela levantou a cabeça.
"Me desculpe."
Sara piscou os olhos: "Desculpar-se pelo quê?"
Em seguida, como se de repente tivesse se lembrado de algo, ela enfiou um pacote de lanche na mão dele.
"Você está pedindo desculpas porque não me deu muita atenção agora há pouco? Tudo bem, eu sei que você está ocupado."
"Ah, amanhã, quando chegarmos ao hotel, vamos comer frutos do mar primeiro, eu pesquisei vários lugares..."
Ela continuava falando, com a voz leve.
Lucas baixou a cabeça, observando o pacote de lanche em sua mão.
Na embalagem, uma linha de letras minúsculas: "Obrigado por viajar neste trem, tenha uma boa viagem."
Ele não abriu.
O trem chegou à estação.
Na calada da noite, havia poucas pessoas na plataforma; Sara caminhava à frente com a mala, em passos lentos, mas sem olhar para trás.
Lucas seguia atrás, inconscientemente pegando o celular para entrar no WeChat.
Thiago tinha postado um feed com localização na estação de Xangai.
A foto era de uma tigela de sopa de carne, fumegante, com dois pares de pauzinhos na mesa.
A legenda tinha apenas uma frase:
[Esperando ela chegar, vamos comer algo quente primeiro.]
Alguém comentou embaixo perguntando quem estava sentado ao lado dele.
Thiago respondeu com uma única palavra: [Ela.]
Lucas fixou o olhar naquela palavra, esfregando o polegar repetidamente na tela.
Ele parecia incapaz até de dizer do que ela gostava de comer.
A recepção do hotel entregou dois cartões de quarto.
Lucas os pegou e entrou direto no elevador.
Até entrar no quarto, ele não disse uma única palavra a Sara.
Lucas sentou-se na beira da cama e abriu o aplicativo de bilhetes.
Seus dedos pairaram sobre os caracteres "Xangai" por muito tempo.
Então, ele bloqueou a tela; a escuridão refletiu seu próprio rosto.
O celular vibrou.
Uma mensagem de voz da mãe.
Lucas abriu; a voz dela soava hesitante.
"Lucas, você ainda quer aquelas cartas velhas no seu guarda-roupa? Olhei e vi que são cartas que você escreveu para outras pessoas e não enviou, por que a caligrafia não parece a sua?"
Ele estava prestes a fechar a caixa de diálogo quando a próxima mensagem da mãe surgiu.
"Mas encontrei uma diferente no meio. O remetente é você, e o destinatário é... Júlia?"
Lucas levantou-se num salto.
Capítulo 9
Lucas ficou com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o celular até ouvir a última palavra da mensagem de voz.
Outra mensagem da mãe de Lucas surgiu.
"Eu abri esta carta para ler. Só tem uma frase nela, e o resto foi apagado com tinta preta. Lucas, o que você escreveu exatamente naquela época?"
Ele não respondeu.
Porque aquela carta não foi ele quem escreveu.
Lá fora, as ondas do mar batiam nos recifes, transformando-se em espuma branca.
O que Lucas não contou a Júlia foi que, depois que ela foi embora naquele dia, ele recolheu a carta.
A bola de papel estava manchada de café, e ele a limpou com a manga da camisa por muito tempo.
Depois, alisou-a, dobrou-a e guardou-a junto com as cartas de amor que Júlia escrevera para ele.
Naquela época, ele apenas pensou que aquela era apenas mais uma das cartas que Júlia escrevera por ele.
Nunca passou pela sua cabeça que pudesse ser dela.
Naquela época, Lucas pensou que, na próxima vez que Júlia escrevesse, ele certamente não a jogaria fora.
Mas não houve uma próxima vez.
Ele foi mimado desde pequeno.
Sua mãe o mimava, seu pai o mimava, e Júlia também o condescendia.
Lucas achava que Júlia sempre o mimaria e que o fato de ela não ir embora era algo natural.
No dia do término, ele disse as coisas mais cruéis possíveis porque não acreditava que Júlia realmente fosse partir.
Mais tarde, Sara começou a persegui-lo intensamente e sua família pressionava por um casamento.
Lucas pensou que, contanto que não fosse Júlia, qualquer uma serviria.
Ele até acreditou que, assim que Júlia soubesse que ele estava com outra pessoa, ela voltaria atrás.
Mas ela não voltou.
Desta vez, ela realmente foi embora.
Foi só neste momento que Lucas percebeu que tipo de absurdos ele cometeu ao longo desses anos.
Ficou remoendo esses pensamentos até que a insônia o dominou até o amanhecer.
Lucas abriu o aplicativo de passagens e reservou o primeiro voo para Xangai.
No táxi a caminho do aeroporto, enviou uma mensagem para Sara.
[Desculpe, fui eu quem te atrasou. O restante da viagem de teste de casamento foi cancelado.]
Lucas lembrou-se do que Júlia havia dito.
——Lucas, você nunca olha para trás.
Sim, ela não estava enganada.
Tanto que agora, quando ele olhou para trás, não havia mais ninguém lá.
……
Xangai.
No quarto dia de trabalho, fiz hora extra até às 21h.
Thiago me esperava lá embaixo, segurando um bolinho de arroz e leite quente comprados na loja de conveniência.
Quando saí, ainda estava conferindo mensagens de trabalho no celular e quase bati na porta giratória; ele estendeu a mão para me parar.
"Você não precisa se esforçar tanto", disse ele.
Sorri e respondi: "Acabei de chegar, não posso deixar que me subestimem."
Sentamos no banco do lado de fora do prédio da empresa por dez minutos; comi o bolinho e bebi metade do leite.
Uma mensagem de um número desconhecido apareceu na tela.
[Júlia, sou o Lucas. Estou em Xangai, vamos nos encontrar.]
Fiquei encarando aquela linha de texto por um longo tempo.
Thiago virou a cabeça e perguntou: "O que foi?"
Virei a tela do celular para baixo. "Nada, spam."
De volta ao apartamento, tomei banho e sentei-me na beira da cama para secar o cabelo.
A tela do celular acendeu de novo; era o mesmo número.
[Só um encontro, dez minutos bastam. Tenho algo a lhe dizer.]
Fiquei olhando para aquelas três linhas, com o dedo pairando sobre a tela.
Se fosse há um mês, talvez meu coração estivesse acelerado, talvez eu estivesse escolhendo as palavras com cuidado, trocando de roupa várias vezes diante do espelho.
Mas agora, não tem nada a ver comigo.
Coloquei o celular no modo silencioso.
Achei que o assunto terminaria por aí.
Porém, quando saí às 22h para jogar o lixo fora, vi uma figura familiar não muito longe.
Ele caminhou direto em minha direção, com o olhar abatido.
"Júlia, finalmente te encontrei."
Capítulo 10
Eu ainda segurava o saco de lixo.
Ao ver Lucas parado sob o poste de luz, meus passos vacilaram.
"O que você veio fazer aqui?"
"Pedi o endereço ao Thiago."
"Não perguntei como você me encontrou, perguntei o que você veio fazer aqui."
Ele abriu a boca e fechou-a novamente.
Silêncio por alguns segundos.
"Eu queria te ver."
Essas quatro palavras saindo da boca dele, há um mês, provavelmente teriam feito meu coração disparar no mesmo lugar.
Agora, eu só queria jogar o lixo fora e subir logo para casa.
"Já me viu, podemos ir embora?"
Ele não se moveu.
Joguei o saco de lixo, limpei as mãos e virei-me para entrar no prédio.
"Júlia."
Parei, sem olhar para trás.
"Como você se sentia toda vez que me pedia para assumir o relacionamento publicamente?"
A luz que vinha do hall do prédio caiu sobre a ponta dos meus pés.
Fiquei parada por um tempo e respondi: "Você veio perguntar isso?"
"Eu só queria saber."
"Queria saber o quê?", virei-me para encará-lo.
"Queria saber como me senti esperando por você durante três anos? Ou como me senti quando vi você de mãos dadas com a Sara?"
"E se você souber, o que muda? Você planeja voltar para escrever um ensaio sobre o aprendizado, ou planeja usar isso para enganar a próxima?"
O maxilar de Lucas tensionou.
Ele não revidou.
O Lucas de antes teria revidado, teria usado aquele tom desinteressado para dizer que eu estava fazendo drama e, em seguida, teria ido embora.