Gabriel sentou-se ao meu lado, a menos de um braço de distância, e pude sentir o perfume leve de cedro que ele usava — exatamente o mesmo que eu o presenteei.
"Você ainda usa esse perfume?" Me arrependi assim que as palavras saíram.
"Sim". Ele virou-se para me olhar: "Você me deu, eu continuo usando".
Não respondi e virei o rosto para olhar pela janela.
A paisagem noturna de Paris fluía lá fora, e as luzes amareladas da rua passavam uma a uma, como um carrossel.
"Por que Beatriz está no grupo de inspeção?" Acabei perguntando.
"Ela é a representante do parceiro de cooperação". Gabriel hesitou: "Mas o propósito dela em vir a Paris não é puro".
Virei-me para encará-lo: "O que quer dizer com isso?".
"Ela está investigando você". Sua voz tornou-se grave: "Seu endereço em
Paris, seu trabalho, sua rotina diária; ela tem perguntado sobre tudo".
Meu coração afundou: "Por que ela me investigaria?".
Gabriel não respondeu diretamente, mas tirou o celular do bolso interno do paletó, abriu uma mensagem e me entregou.
O remetente era Beatriz, e o conteúdo dizia: "Tia, endereço confirmado,
Rue du Sentier, 47. Ela mora sozinha".
Meus dedos ficaram frios.
"Ela e minha mãe estão planejando algo". Gabriel recuperou o celular: "Por isso eu vim".
"Você veio para me proteger?".
"Vim porque você está aqui". Ele me olhou, com um olhar profundo: "Proteger você é um efeito colateral".
Virei o rosto para que ele não visse meus olhos avermelhados.
O carro parou em frente ao número 47 da Rue du Sentier. Desci, e ele veio atrás.
"Entre, vou esperar você entrar".
Dei dois passos e parei, sem olhar para trás: "Gabriel, fique longe de mim. Quanto mais perto você está, mais Beatriz e sua mãe tentam me atacar".
Houve um longo silêncio atrás de mim.
"O problema nunca foi a distância entre nós". Sua voz veio das minhas costas, carregada de uma frieza de quem foi encurralado: "O problema é que elas decidiram que você 'não deveria' estar ao meu lado".
"Quanto mais longe eu fico de você, mais elas acham que esse método funciona, e na próxima vez o ataque será mais cruel".
"Há três anos, não consegui proteger você e a criança; não foi porque eu estava perto demais—".
Ele fez uma pausa, e cada palavra parecia ser forçada entre os dentes: "Foi porque eu não era forte o suficiente para que elas não ousassem tocar em você".
Virei-me bruscamente.
Ele estava sob a luz do poste, sua sombra esticada, com metade do rosto na luz e metade na sombra, como ele mesmo: alguém que nunca se deixa compreender totalmente.
"O que você descobriu?" perguntei.
"Ainda nada". Ele deu um passo à frente: "Mas vou descobrir. Até lá, deixe-me protegê-la".
Mordi o lábio, sem dizer nem que sim, nem que não.
"Boa noite". Virei-me e entrei no edifício.
"Elena".
Pareis.
"Aquela frase que você escreveu, ainda vale?" Sua voz era tão leve que parecia que o vento a levaria: "Esperar que você se entenda para que volte".
Não respondi e subi as escadas apressadamente.
No momento em que fechei a porta, recostei-me nela e deslizei até o chão.
Ele lembrava. Lembrava de cada palavra.
Mas eu ainda não tinha me entendido.
Capítulo 16
O terceiro dia da agenda do grupo era de atividades livres.
Não acompanhei o grupo; fui sozinha pintar em Montmartre, um hábito que criei após chegar a Paris, sentando-me nos degraus diante da Basílica do Sagrado Coração para pintar a vista da rua com aquarelas.
O sol estava bom hoje, havia muitos turistas e o som da música dos artistas de rua flutuava no ar.
Enquanto eu pintava, uma voz veio de cima.
"Bom desenho".
Olhei para cima e era Gabriel.
Ele usava um sobretudo cinza-escuro, segurava dois cafés e estava ao meu lado, com sua silhueta contra a luz recebendo uma borda dourada.
"Como me encontrou?".
"Chen Qing me contou". Ele me entregou o café: "Você vem aqui todo dia de folga".
Peguei o café, afastei-me um pouco e dei-lhe espaço.
Ele sentou-se ao meu lado, com os ombros quase encostados nos meus.
Não me esquivei.
"O grupo de inspeção não está em atividade livre hoje? Você não precisa acompanhar os clientes?".
"Eles não precisam da minha companhia". Ele bebeu um pouco de café:
"Eu preciso da sua".
Meu coração perdeu uma batida.
Não disse nada e continuei a pintar.
Ele ficou sentado em silêncio, observando-me; quando o vento soprava, ele se virava levemente para bloqueá-lo.
Exatamente como anos atrás.
"Gabriel" parei com o pincel.
"Hum?".
"Por que você só veio atrás de mim agora? Quarenta e cinco dias, por que não veio antes?".
Ele silenciou por um momento.
"Porque precisava resolver algumas coisas". Sua voz era baixa: "Os assuntos da minha mãe e de Beatriz, assuntos da empresa; não queria trazer problemas para você, caso contrário, eu também arrastaria você para eles".
"E agora? Está resolvido?".
"Não". Ele virou-se para me olhar: "Mas descobri que, quando não consigo resolver algo, sinto ainda mais vontade de te ver".
O pincel na minha mão caiu sobre o papel, borrando uma pequena mancha azul.
Levantei a cabeça e encontrei seus olhos.
Naqueles olhos havia exaustão, culpa, contenção e um brilho que eu não via há muito tempo — o mesmo brilho de quando ele, aos dezoito anos, segurava margaridas e perguntava se eu "poderia gostar um pouquinho dele".
"Gabriel, não diga esse tipo de coisa" minha voz estava trêmula: "Eu vou acreditar".
"É exatamente para você acreditar".
Abri a boca, mas antes que pudesse dizer algo, meu celular vibrou.
Era Chen Qing.
"Elena, venha rápido! Dois estranhos estão rondando sua porta, liguei para a polícia, mas eles ainda não foram embora—".
Gabriel tomou o celular da minha mão e me puxou: "Vamos".
Ele me arrastou pelos degraus, atravessou a multidão e parou um táxi.
No carro, ele falava ao telefone com uma voz fria como gelo: "Descubram de quem são esses homens, chequem a vigilância da Rue du Sentier, e tragam dois guarda-costas para mim, ainda hoje".
Sentei-me ao lado dele, sentindo frio.
"Foi Beatriz?" perguntei.
"Não tenho certeza". Ele segurou minha mão, com a palma muito quente: "Mas, seja quem for, não vou deixar nada acontecer com você".
Não puxei minha mão de volta.
Pela janela do carro, a paisagem de Paris retrocedia rapidamente.
Apoiei-me no ombro dele e fechei os olhos.
Chegamos rapidamente à porta de casa, mas os dois homens mencionados por Chen Qing haviam desaparecido, não sei se por terem descoberto que ela chamou a polícia.
Mas a névoa não se dissipou com a partida deles; pelo contrário, ficou mais densa.
Essa sensação de saber que há perigo, mas não saber quando ele chegará, é como ter uma guilhotina suspensa sobre a cabeça, causando medo.
Ele pareceu perceber o que eu pensava e me consolou: "Não tenha medo, os guarda-costas chegarão em breve, não deixarei nada acontecer com você".
Capítulo 17
Os dois guarda-costas chegaram na mesma noite.
Eram altos e fortes, sem expressão, claramente profissionais.
Eles moravam no andar de baixo, em turnos de vinte e quatro horas; quando eu saía, eles me seguiam, e quando eu voltava, eles montavam guarda.
Chen Qing também ficou bastante assustada e, no dia seguinte, trouxe flores da loja para minha casa, dizendo que era para "acalmar o choque".
"Elena, afinal, com que tipo de pessoa você se meteu?" ela perguntou enquanto arranjava as flores.
"Não fui eu que me meti" recostei-me no sofá, segurando um chá quente: "Foi meu marido".
"Seu marido?" Chen Qing ergueu uma sobrancelha: "Aquele tal de Sr. Gabriel?".
Balancei a cabeça.
"Com que tipo de pessoa ele se meteu?".
"Com a mãe dele" sorri amargamente: "E com uma mulher que gosta dele".
Chen Qing abriu a boca e acabou dizendo apenas: "Famílias ricas são terríveis".
Sorri, mas depois não conseguia parar de sorrir.
À tarde, Gabriel veio.
Ele não tocou a campainha, apenas abriu a porta com a chave; vi que ele ficou parado por um segundo, e então me lembrei — a casa foi comprada por ele, ele tinha a chave.
"Você..." levantei-me.
"Vim buscar você" ele colocou uma mala na entrada: "Mude-se para outro lugar, aqui não é seguro".
"Mudar para onde?".
"Para o hotel onde estou hospedado".
Minha mente deu um nó: "Não".
"Elena, agora não é hora de ser teimosa" ele se aproximou, parou à minha frente e olhou para baixo: "Aqueles dois homens eram marginais locais contratados por Beatriz; ela planejou um 'roubo à residência' para te machucar ou até mesmo...".
Ele não terminou, mas entendi o significado.
"Ela enlouqueceu" minha voz tremia.
"Ela sempre foi louca" Gabriel segurou meu pulso: "Por isso, venha comigo".
Olhei para ele por um longo tempo.
"Gabriel, se eu for com você, o que isso significa? Somos marido e mulher? Já estamos separados. Sob que identidade morarei no seu quarto de hotel?".
Seus dedos se apertaram um pouco.
"Você é minha esposa. Legalmente, ainda não estamos divorciados" sua voz baixou: "E eu nunca concordei com o divórcio".