Não retornei a ligação.
Não é que eu não quisesse, é que eu não podia.
Tinha medo de que, ao ouvir sua voz, eu dissesse: “Venha me buscar”.
Mas eu ainda não tinha pensado em tudo, não tinha entendido a mim mesma e não estava pronta para enfrentar novamente aquelas mágoas e inseguranças.
Coloquei o celular de volta na mesa de cabeceira, virei-me e puxei o cobertor até o queixo.
O céu lá fora ainda não tinha clareado; a madrugada em Paris era muito silenciosa, tão silenciosa que eu podia ouvir meu próprio batimento cardíaco.
Disse a mim mesma em pensamento: Gabriel, espere por mim mais um pouco.
Capítulo 13
Três dias após minha febre baixar, a agência recebeu um grande pedido: uma delegação de negócios chinesa que ficaria uma semana em Paris e precisava de acompanhamento integral.
Eu aceitei.
No primeiro dia, segurava a placa de identificação no saguão de desembarque do aeroporto, esperando o lendário “grupo de negócios”.
Os passageiros saíram sucessivamente, em ternos e gravatas, claramente da elite.
Conferi a lista um por um, fazendo marcações e indicando o ônibus.
O último a sair foi um homem.
Casaco preto, cachecol cinza-escuro, sem malas, carregando apenas uma pasta.
No momento em que ele apareceu, minha mente ficou em branco.
Gabriel.
Ele emagreceu.
Emagreceu muito.
Suas maçãs do rosto estavam mais proeminentes, havia sombras profundas sob seus olhos como se ele não dormisse bem há muito tempo, mas a postura continuava a mesma: ereta, fria e rígida, como uma árvore fincada no vento.
Ele caminhou até mim e parou.
“Olá, sou o responsável por esta delegação.” O tom dele era tão educado quanto o de um estranho. “Gabriel.”
Abri a boca, sentindo a garganta como se estivesse sendo apertada por alguém.
“Você...”
“Guia Elena?” Ele inclinou levemente a cabeça, com o olhar tão calmo quanto um lago estagnado. “Não me dá as boas-vindas?”
Respirei fundo, suprimi todo o choque e emoções, e forcei um sorriso profissional padrão: “Bem-vindo. Sr. Gabriel, por favor, siga-me, o carro está esperando lá fora.”
Durante o trajeto, eu estava no banco do passageiro e ele no banco de trás.
Não houve uma única conversa pessoal durante todo o percurso.
Ele perguntou sobre o roteiro com formalidade, e eu respondi com a mesma formalidade.
Parecia que éramos realmente apenas guia e cliente, que nunca tínhamos nos casado, que nunca tínhamos trocado de corpo naquela chuva forte, que ele nunca tinha colocado secretamente a passagem e o anel na minha cabeceira enquanto eu dormia.
Ao chegar ao hotel, ajudei-o com o check-in e entreguei o cartão do quarto.
“Sr. Gabriel, aqui está o seu cartão.”
Ele não pegou, abaixou a cabeça para me olhar, e seu olhar finalmente mudou.
“Guia Elena.”
“Sim?”
“Você emagreceu.”
Meus dedos se contraíram violentamente, e o cartão do quarto estalou sob meu aperto.
“Sr. Gabriel, se não houver mais nada, eu vou...”
“Há, sim.” Ele me interrompeu e tirou uma pasta da maleta, entregando-me. “Este é o roteiro detalhado do grupo. Veja se há algum problema.”
Peguei e abri.
A primeira página era o cronograma, com francês e chinês densamente dispostos lado a lado.
A segunda página era a lista de membros do grupo; dei uma olhada rápida, sem examinar.
A terceira página...
A terceira página não era o roteiro, era uma fotografia.
Nossa foto do dia do casamento; eu vestindo um vestido de noiva branco, sorrindo com os olhos, e ele de terno preto com as orelhas vermelhas.
Meus dedos começaram a tremer.
Virei a página e era o bilhete que escrevi — “Quando eu entender a mim mesma, se nessa época você ainda quiser, eu voltarei.”
Abaixo, havia uma linha a mais, com a letra dele:
“Esperei quarenta e cinco dias, não aguento mais esperar.”
O corredor estava muito silencioso, apenas com o som ocasional das rodas de um carrinho de bagagem.
Mantive a cabeça baixa, fixando aquela frase por tanto tempo que os caracteres começaram a ficar borrados.
“Elena.” Ele parou de me chamar de Guia Elena, sua voz baixou, tornando-se algo que apenas eu podia ouvir. “Quarenta e cinco dias. Você entendeu a si mesma?”
Levantei a cabeça, com os olhos já vermelhos.
“Gabriel, você não deveria ter vindo.”
“Eu sei.”
“Você disse que respeitaria minha decisão.”
“Eu disse que ‘esperaria você voltar’, não que ‘eu não iria atrás de você’.” A voz dele estava rouca, como se tivesse sido moída na garganta por muito tempo. “Respeito seu direito de partir, mas você não disse que eu não poderia vir atrás de você.”
Capítulo 14
“Você—”
“Pergunto todos os dias a Zhou sobre as informações do seu voo, querendo saber se você voltou secretamente. Envio mensagens todos os dias para Chen Qing, perguntando se você tem comido bem.”
“Na noite em que você teve febre, quase reservei uma passagem para voar até aqui.”
Minhas lágrimas finalmente caíram.
Ele levantou a mão tentando tocar meu rosto, mas parou no ar, acabando por apenas colocar um lenço de papel em minha mão.
Apertei aquela pilha de lenços, ainda quentes com a temperatura do corpo dele, funguei e virei o rosto para secar as lágrimas: “Por que você está me contando isso?”
“Porque não quero mais que você fique adivinhando.” Seus olhos também estavam vermelhos, mas sua voz era firme como uma pedra. “Antes, eu não dizia, e você achava que eu não me importava.”
“Agora estou te contando tudo: eu me importo, em cada segundo.”
Alguém passou pelo corredor, olhando para nós com curiosidade.
Virei o rosto para secar as lágrimas, com a voz abafada: “Gabriel, vá para o seu quarto. Teremos um jantar de boas-vindas à noite e preciso me preparar.”
“Certo.” Ele pegou o cartão, deu dois passos e parou novamente.
“Elena.”
“Sim?”
“Nos vemos à noite.”
Ele disse “nos vemos à noite”, não “nos vemos no jantar”.
Ele me tratava como esposa, não como guia.
Às sete da noite, o jantar de boas-vindas.
Vesti um vestido preto, fiz uma maquiagem leve e disse a mim mesma que aquilo era trabalho, não um encontro.
Mas quando cheguei à porta do salão, parei.
A porta estava entreaberta e vi Gabriel lá dentro, falando com alguém.
A pessoa estava de costas para mim, mas reconheci instantaneamente — Beatriz.
Ela também veio.
“Gabriel, fui eu quem fiz o contato para este grupo, como pretende me agradecer?” A voz de Beatriz era doce até ser enjoativa.
Gabriel não respondeu.
Seu olhar atravessou o ombro de Beatriz e pousou na porta.
Pousou em mim.
“Guia Elena.” Ele começou, com a voz calma. “Entre, todos chegaram.”
Beatriz virou-se bruscamente e, ao me ver, o sorriso em seu rosto congelou.
“Elena? Como você...”
“Ela é a guia deste grupo.” Gabriel respondeu por mim, com um tom indiferente. “Algum problema?”
Beatriz forçou o sorriso de volta, mas seu olhar já tinha mudado: “Claro que não. Com Elena aqui, fico mais tranquila.”
Fiquei parada na porta, observando Beatriz segurar o braço de Gabriel e vendo que ele não a afastou.
Meu coração parecia estar sendo apertado.
Mas não me virei para ir embora.
Entrei no salão, caminhei até Gabriel e, com um movimento leve, porém firme, retirei a mão de Beatriz do braço dele.
“Srta. Beatriz.” Disse sorrindo, com a voz gentil, mas inquestionável: “O Sr. Gabriel é um cliente importante do nosso grupo, e meu trabalho é cuidar bem dele. Pode ficar tranquila, eu cuidarei dele ‘pessoalmente’.”
O rosto de Beatriz mudou.
Gabriel olhou para mim, e o canto de sua boca se curvou levemente.
O arco era muito pequeno, tão pequeno que apenas eu podia ver.
“Guia Elena,” ele disse suavemente, “obrigado pelo trabalho.”
“Não há de quê.” Levantei a cabeça, encontrando seus olhos: “As coisas do Sr. Gabriel são minha ‘prioridade absoluta’.”
Beatriz ficou ao lado, observando nossa troca de olhares como se não houvesse mais ninguém ali, com as unhas cravadas nas palmas das mãos.
Ela se virou e foi ao banheiro, tirou o celular e discou um número.
“Tia, ela também está em Paris.”
Do outro lado da linha estava a voz da sogra: “Dê um jeito de tirá-la de lá.”
“Como?”
“Você não conhece gente local? Faça com que ela sofra um ‘acidente’.”
Beatriz desligou o telefone e sorriu para si mesma no espelho.
Aquilo não era um sorriso, era uma serpente venenosa mostrando a língua.
Capítulo 15
O jantar de boas-vindas terminou entre brindes e conversas.
Despedi-me do último grupo de convidados e fiquei na entrada do hotel esperando um táxi; o vento noturno de Paris estava muito frio, fazendo com que minha pele se arrepiasse nos braços.
Um carro preto parou à minha frente, o vidro traseiro baixou, revelando o rosto de Gabriel.
"Entre no carro".
"Não precisa, eu vou de táxi—".
"A esta hora e nesta área, você não vai conseguir um táxi". Seu tom não permitia recusas: "Entre, eu levo você para casa".
Hesitei por dois segundos, abri a porta e entrei.
O interior do carro estava muito silencioso, apenas com o som baixo do motor.