Abaixo, havia uma linha a mais, com a letra dele:
“Esperei quarenta e cinco dias, não aguento mais esperar.”
O corredor estava muito silencioso, apenas com o som ocasional das rodas de um carrinho de bagagem.
Mantive a cabeça baixa, fixando aquela frase por tanto tempo que os caracteres começaram a ficar borrados.
“Elena.” Ele parou de me chamar de Guia Elena, sua voz baixou, tornando-se algo que apenas eu podia ouvir. “Quarenta e cinco dias. Você entendeu a si mesma?”
Levantei a cabeça, com os olhos já vermelhos.
“Gabriel, você não deveria ter vindo.”
“Eu sei.”
“Você disse que respeitaria minha decisão.”
“Eu disse que ‘esperaria você voltar’, não que ‘eu não iria atrás de você’.” A voz dele estava rouca, como se tivesse sido moída na garganta por muito tempo. “Respeito seu direito de partir, mas você não disse que eu não poderia vir atrás de você.”
Capítulo 14
“Você—”
“Pergunto todos os dias a Zhou sobre as informações do seu voo, querendo saber se você voltou secretamente. Envio mensagens todos os dias para Chen Qing, perguntando se você tem comido bem.”
“Na noite em que você teve febre, quase reservei uma passagem para voar até aqui.”
Minhas lágrimas finalmente caíram.
Ele levantou a mão tentando tocar meu rosto, mas parou no ar, acabando por apenas colocar um lenço de papel em minha mão.
Apertei aquela pilha de lenços, ainda quentes com a temperatura do corpo dele, funguei e virei o rosto para secar as lágrimas: “Por que você está me contando isso?”
“Porque não quero mais que você fique adivinhando.” Seus olhos também estavam vermelhos, mas sua voz era firme como uma pedra. “Antes, eu não dizia, e você achava que eu não me importava.”
“Agora estou te contando tudo: eu me importo, em cada segundo.”
Alguém passou pelo corredor, olhando para nós com curiosidade.
Virei o rosto para secar as lágrimas, com a voz abafada: “Gabriel, vá para o seu quarto. Teremos um jantar de boas-vindas à noite e preciso me preparar.”
“Certo.” Ele pegou o cartão, deu dois passos e parou novamente.
“Elena.”
“Sim?”
“Nos vemos à noite.”
Ele disse “nos vemos à noite”, não “nos vemos no jantar”.
Ele me tratava como esposa, não como guia.
Às sete da noite, o jantar de boas-vindas.
Vesti um vestido preto, fiz uma maquiagem leve e disse a mim mesma que aquilo era trabalho, não um encontro.
Mas quando cheguei à porta do salão, parei.
A porta estava entreaberta e vi Gabriel lá dentro, falando com alguém.
A pessoa estava de costas para mim, mas reconheci instantaneamente — Beatriz.
Ela também veio.
“Gabriel, fui eu quem fiz o contato para este grupo, como pretende me agradecer?” A voz de Beatriz era doce até ser enjoativa.
Gabriel não respondeu.
Seu olhar atravessou o ombro de Beatriz e pousou na porta.
Pousou em mim.
“Guia Elena.” Ele começou, com a voz calma. “Entre, todos chegaram.”
Beatriz virou-se bruscamente e, ao me ver, o sorriso em seu rosto congelou.
“Elena? Como você...”
“Ela é a guia deste grupo.” Gabriel respondeu por mim, com um tom indiferente. “Algum problema?”
Beatriz forçou o sorriso de volta, mas seu olhar já tinha mudado: “Claro que não. Com Elena aqui, fico mais tranquila.”
Fiquei parada na porta, observando Beatriz segurar o braço de Gabriel e vendo que ele não a afastou.
Meu coração parecia estar sendo apertado.
Mas não me virei para ir embora.
Entrei no salão, caminhei até Gabriel e, com um movimento leve, porém firme, retirei a mão de Beatriz do braço dele.
“Srta. Beatriz.” Disse sorrindo, com a voz gentil, mas inquestionável: “O Sr. Gabriel é um cliente importante do nosso grupo, e meu trabalho é cuidar bem dele. Pode ficar tranquila, eu cuidarei dele ‘pessoalmente’.”
O rosto de Beatriz mudou.
Gabriel olhou para mim, e o canto de sua boca se curvou levemente.
O arco era muito pequeno, tão pequeno que apenas eu podia ver.
“Guia Elena,” ele disse suavemente, “obrigado pelo trabalho.”
“Não há de quê.” Levantei a cabeça, encontrando seus olhos: “As coisas do Sr. Gabriel são minha ‘prioridade absoluta’.”
Beatriz ficou ao lado, observando nossa troca de olhares como se não houvesse mais ninguém ali, com as unhas cravadas nas palmas das mãos.
Ela se virou e foi ao banheiro, tirou o celular e discou um número.
“Tia, ela também está em Paris.”
Do outro lado da linha estava a voz da sogra: “Dê um jeito de tirá-la de lá.”
“Como?”
“Você não conhece gente local? Faça com que ela sofra um ‘acidente’.”
Beatriz desligou o telefone e sorriu para si mesma no espelho.
Aquilo não era um sorriso, era uma serpente venenosa mostrando a língua.
Capítulo 12
Instalei-me em Paris.
Consegui um emprego como guia de turismo em uma agência voltada para clientes chineses.
Todos os dias, levo turistas chineses para visitar o Louvre, a Torre Eiffel e o Rio Sena. Uso meu francês fluente e um sorriso acolhedor para atender a cada cliente, e eles gostam muito de mim.
Eu pensei que não me acostumaria.
Mas, aos poucos, descobri que viver sozinha também não é ruim.
Acordar com a luz do sol pela manhã, preparar uma xícara de café, torrar duas fatias de pão e sentar diante da janela para comer calmamente.
Depois de comer, vou trabalhar, levo o grupo aos pontos turísticos e, ocasionalmente, sento-me em um banco às margens do Sena para observar a água e me perder em pensamentos.
À noite, volto para casa, preparo um jantar simples, tomo um banho quente, leio um pouco na cama e apago as luzes para dormir.
A vida é silenciosa como uma xícara de chá deixada por muito tempo; não está mais quente, nem aromática, mas ainda dá para beber.
Chen Qing tornou-se minha única amiga em Paris.
Ela é dois anos mais velha que eu, possui uma floricultura em Paris, tem um caráter alegre e está sempre rindo.
“Por que seu marido não veio com você?” Certa vez, enquanto tomávamos o chá da tarde na floricultura, ela perguntou casualmente.
“Estamos separados temporariamente.”
“Brigaram?”
“Não foi uma briga.” Refleti por um momento enquanto o chá preto em minha xícara soltava um fino fio de vapor branco: “É que preciso colocar algumas coisas em pratos limpos.”
Chen Qing assentiu sem insistir.
“Colocar o quê em pratos limpos?” Perguntou ela depois de um tempo.
Olhei para a rua lá fora; o outono em Paris chega cedo e as folhas dos plátanos já começaram a amarelar.
“Colocar em pratos limpos se ainda estou disposta a acreditar nele mais uma vez.”
Chen Qing não disse nada, apenas serviu-me mais chá.
O que eu não sabia era que, todas as noites, Chen Qing enviava uma mensagem de texto para um número com apenas uma frase: “Tudo normal hoje.”
O destinatário era Gabriel.
No quadragésimo quinto dia em Paris, adoeci.
Com quarenta graus de febre, deitada na cama, meu corpo ardia e eu não conseguia nem segurar o copo de água.
Atordoada, tateei o celular e passei pela agenda repetidamente: minha mãe, Gabriel, Zhou, colegas da agência.
Minha mão parou no nome “Gabriel” e fiquei olhando por muito tempo.
Lembrei-me de como ele era quando eu tinha febre no passado.
Ele cancelava a agenda da semana inteira, trazia a sala de reuniões para dentro de casa, sentava-se ao lado da cama no meio da noite com os olhos vermelhos de cansaço e trocava repetidamente a toalha úmida na minha testa.
Naquela época, ele dizia: “Suas coisas são mais importantes do que qualquer outra.”
Eu acreditei.
Mais tarde, Beatriz apareceu, e aquelas horas extras, compromissos sociais e viagens de negócios preencheram o tempo dele. Depois, quando eu tinha febre, só restavam remédios para baixar a temperatura e um copo de água fria ao meu lado.
Eu parei de acreditar.
E agora? Não sei.
Não fiz a ligação.
Joguei o celular de lado, envolvi-me firmemente no cobertor e tremia mordendo os lábios.
O corpo fervia, os dentes batiam; eu queria beber água, mas não queria me mover; queria dormir, mas a cabeça doía como se fosse explodir; queria alguém ao meu lado, mas afastei todos.
Eu mereço isso.
Naquela noite, febril e atordoada, tive muitos sonhos.
Sonhei com o Gabriel de quatro anos repartindo o pirulito ao meio e colocando a parte maior na minha boca.
Sonhei com o Gabriel de oito anos todo machucado e roxo por minha causa, ainda sorrindo bobamente para mim e dizendo: “Não dói nada.”
Sonhei com o Gabriel de doze anos pedalando por metade da cidade só por causa de um espeto de frutas cristalizadas.
Sonhei com o Gabriel de dezoito anos segurando margaridas murchas pelo sol, com as orelhas vermelhas, perguntando-me se eu “poderia gostar um pouquinho dele”.
Sonhei com o Gabriel de vinte e dois anos, no altar do nosso casamento, segurando minha mão e dizendo: “Cada detalhe da sua vida é minha prioridade absoluta.”
Quando acordei, o travesseiro estava molhado.
Havia sete chamadas perdidas no celular, todas de Gabriel.
Fiquei encarando a tela por muito tempo, tempo suficiente para ela escurecer, acender e escurecer novamente.