Capítulo 2: A Queda do Muro
O salão de reuniões do conselho da V-Corp pulsava com uma eletricidade perigosa.
Os doze conselheiros estavam sentados em silêncio, os rostos tensos, enquanto Leandro Vicente caminhava até a cabeceira da mesa.
Ele tentou projetar a confiança de sempre, mas o vazio deixado pela entrada de Isabella minutos atrás ainda pesava no ar.
De repente, as telas de alta definição ao fundo do salão ganharam vida com uma clareza cristalina.
Beatriz, a maior influenciadora financeira do país, apareceu na tela com um sorriso afiado que não demonstrava piedade.
"Estamos ao vivo para milhões de pessoas, e o que vou mostrar agora vai mudar o curso da economia brasileira para sempre."
A voz dela ecoou pelo salão, enquanto ela gesticulava para os gráficos que começaram a subir em velocidade vertiginosa.
Leandro sentiu o estômago despencar ao ver os documentos que Beatriz começava a expor um a um.
Eram registros de transferências bancárias, assinaturas digitais e rastros de empresas de fachada em paraísos fiscais.
"O intocável Leandro Vicente, o homem que todos chamavam de gênio, na verdade é o maior arquiteto de lavagem de dinheiro da última década."
Isabella estava encostada na parede oposta, os braços cruzados, observando o caos se instalar com uma calma aterradora.
"Isso é uma calúnia!" Leandro gritou, batendo a palma da mão na mesa, o rosto vermelho de fúria.
"A calúnia é uma mentira, Leandro," Isabella respondeu, caminhando lentamente em direção ao centro da sala.
"Tudo o que está na tela é a mais pura, crua e documentada verdade sobre a sua conta nas Ilhas Cayman."
Os conselheiros começaram a trocar cochichos frenéticos, a lealdade deles evaporando mais rápido que água no asfalto quente.
Um dos membros mais velhos do conselho levantou-se, apontando para as telas: "Leandro, precisamos de uma explicação imediata!"
Beatriz, do outro lado da tela, continuava a narrar o massacre, deliciando-se com cada segundo de audiência recorde.
"Vejam só, pessoal, os comentários nas redes sociais estão explodindo, a hashtag #AQuebraDoRei é o assunto mais comentado no mundo!"
Leandro sentia o suor frio escorrer pelas costas, sua visão turvando com a sucessão de evidências irrefutáveis.
"Isabella, você não tem o direito de fazer isso com a empresa que você jurou proteger um dia!"
"Eu jurei proteger a integridade, não o seu ego inflado ou os seus crimes," ela disparou, mantendo o tom gélido.
"Cada centavo que você desviou está rastreado, e a Polícia Federal já foi notificada sobre a movimentação da conta 'Titan'."
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som do cursor de Beatriz navegando por mais um arquivo secreto.
"O nome do verdadeiro beneficiário final de todo esse esquema não é a sua holding, é um fundo fantasma controlado por você."
Leandro tentou manter a pose, mas suas mãos tremiam violentamente sob a mesa de carvalho.
"Vocês estão sendo enganados por uma mulher despeitada que quer vingança pessoal!"
Isabella riu, um som seco que desarmou qualquer tentativa de defesa que ele pudesse esboçar naquele momento.
"Despeito é um sentimento pequeno, Leandro, e eu sou muito maior que qualquer rancor que você possa imaginar."
"Eu não quero a sua empresa por vingança, eu quero a justiça pela destruição que você causou."
Os conselheiros, um por um, começaram a se levantar, recolhendo suas pastas e saindo da sala sem olhar para o presidente.
A imagem de perfeição que Leandro construíra ao longo de anos estava sendo estilhaçada ao vivo para o mundo inteiro.
Cada flash de câmera do lado de fora da torre parecia uma munição sendo disparada contra sua própria cabeça.
Beatriz, na tela, encerrou a transmissão com um olhar de deboche dirigido diretamente à câmera.
"O império Vicente hoje se tornou pó, e a pergunta que fica é: quem vai ser o próximo a cair com ele?"
As telas se apagaram, deixando o salão mergulhado em uma penumbra quase fúnebre.
Leandro percebeu que estava sozinho na mesa enorme, apenas ele e Isabella frente a frente.
"Você planejou isso desde o momento em que soube que voltaria?"
"Eu planejei isso desde o momento em que você me entregou a carta de despejo no hospital," ela respondeu.
Ela caminhou até a porta, parando por um segundo para olhar para trás.
"Não espere ajuda de ninguém, Leandro. Até seus aliados mais fiéis já estão apagando o seu número dos contatos."
Ele tentou segui-la, mas suas pernas pareciam pesadas demais para o movimento.
Ele saiu da sala e atravessou o corredor deserto, sentindo o olhar de todos os funcionários como facas em suas costas.
Chegou ao elevador privativo, mas quando as portas se abriram, ele encontrou um segurança da própria empresa parado ali.
"Sinto muito, Sr. Vicente, mas fui instruído a bloquear o acesso à saída principal."
"Você sabe quem eu sou?" Ele perguntou, a voz distorcida pelo desespero e pela raiva.
"Sei exatamente quem o senhor era, mas agora o senhor não tem mais autorização para sair do prédio."
O elevador se fechou, deixando-o encurralado entre o metal frio e a humilhação absoluta.
Ele socou a parede do elevador, sentindo os nós dos dedos sangrarem no metal.
Embaixo, na garagem, ele podia ouvir as sirenes da polícia começando a cercar a entrada do edifício.
Cada som era um prego no caixão da sua reputação irremediavelmente destruída.
Ele sabia que, uma vez que as portas daquele elevador se abrissem para a polícia, ele seria levado como o criminoso que sempre foi.
O mundo estava vendo, e o julgamento final já havia começado.
Isabella tinha vencido o primeiro round, e o nocaute foi tão brutal que ele mal conseguia respirar.
Ele se encostou no canto do elevador, os olhos fixos no painel de números que desciam lentamente.
Cada andar que passava era um pedaço de sua vida sendo arrancado pela mulher que ele subestimou.
Ele fechou os olhos, mas só conseguia ver o reflexo de seu fracasso em todas as superfícies.
A era Vicente tinha acabado, e o preço dessa transição era a sua liberdade.
O elevador parou, um ding seco anunciando o fim da sua supremacia.
As portas começaram a se abrir para a escuridão que o esperava.