A chuva voltava a cair sobre o Morumbi naquela noite como se a cidade inteira estivesse sendo lavada de algo que ninguém queria ver.
A mansão Vasconcelos parecia ainda mais isolada do mundo.
As luzes externas refletiam nas janelas de vidro escuro, criando uma sensação de vigilância constante, como se a própria casa estivesse observando quem vivia dentro dela.
Sofia não conseguia dormir.
Helena a segurava no quarto, tentando acalmá-la, mas a menina estava diferente desde a tarde.
Mais inquieta.
Mais sensível ao silêncio.
“Eu não gosto daqui…” — Sofia disse baixinho.
Helena passou a mão no cabelo dela.
“Eu sei… mas você está segura aqui.”
Sofia fechou os olhos com força.
“Não… não estou…”
No mesmo instante, em outro andar da mansão, Victor Almeida Vasconcelos estava diante de múltiplos monitores.
O sistema de segurança interno havia sido atualizado.
Mais sensores.
Mais vigilância.
Mais controle.
Mas algo estava errado.
As telas piscavam levemente.
Interferência.
Ele franziu o olhar.
“Verifiquem a rede novamente.” — ele ordenou.
O técnico respondeu imediatamente:
“Senhor, a rede está estável… mas estamos detectando acesso externo mascarado.”
Victor ficou imóvel.
“Origem?”
O técnico hesitou.
“Não conseguimos rastrear. Parece interno… mas não é nenhum dos nossos servidores.”
Victor apertou o maxilar.
“Então alguém está dentro do sistema.”
No quarto, Sofia começou a chorar de repente.
Não era um choro comum.
Era um colapso.
Ela se levantou da cama rapidamente.
“Ele está aqui… ele está aqui de novo…”
Helena se levantou assustada.
“Quem está aqui, Sofia?”
Mas antes que a menina respondesse, todas as luzes da mansão piscaram ao mesmo tempo.
Uma.
Duas.
Três vezes.
E então metade da casa ficou no escuro.
No corredor principal, alarmes começaram a disparar.
Um som seco.
Estridente.
E completamente fora de controle.
“Sistema comprometido! Sistema comprometido!” — a voz automatizada ecoou.
Victor saiu imediatamente da sala.
“O que está acontecendo?” — ele perguntou.
Um dos seguranças apareceu correndo.
“Senhor, estamos perdendo acesso às câmeras externas! Alguém invadiu o perímetro!”
Victor não hesitou.
“Fechem todos os acessos. Agora.”
Mas já era tarde.
Um estrondo ecoou do lado de fora da mansão.
Depois outro.
E então vidro se quebrou.
“ATAQUE! ATAQUE NA PERÍMETRO!” — gritou um dos seguranças.
A mansão entrou em colapso operacional em segundos.
Homens armados surgiram pelo jardim lateral.
Silenciosos.
Organizados.
Precisos.
Não era caos.
Era operação.
No andar superior, Helena puxou Sofia para trás.
“Fica comigo! Não sai daqui!”
Sofia tremia.
“Eu não quero isso… eu não quero isso…”
Um disparo ecoou ao longe.
Depois outro.
As luzes da mansão começaram a falhar completamente.
Victor desceu as escadas rapidamente.
Seu rosto agora não era apenas frio.
Era concentrado.
Perigoso.
“Quem entrou?” — ele perguntou.
O segurança respondeu:
“Não sabemos, senhor! Eles já derrubaram o sistema principal!”
Victor olhou para os monitores apagando um por um.
E então disse baixo:
“Isso não é invasão comum.”
No corredor principal, Celeste Vasconcelos apareceu pela primeira vez naquela noite.
Perfeita.
Impecável.
Mesmo com o caos ao redor.
Mas seus olhos não estavam calmos.
Estavam calculando.
Ela correu até o painel de segurança.
“Tentem reativar o backup agora!” — ela ordenou.
Um técnico respondeu:
“Senhora, o sistema foi bloqueado de fora! Não temos acesso!”
Celeste apertou os dedos.
“Isso não deveria ser possível…”
Um disparo atravessou o vidro lateral da sala.
Celeste se jogou para trás no instante exato.
Mas não rápido o suficiente.
A bala atingiu seu ombro.
Ela caiu no chão.
Pela primeira vez… perdeu completamente a postura.
“Celeste!” — Victor gritou.
Helena, no andar de cima, ouviu os tiros mais próximos.
Sofia começou a gritar.
“ELE ESTÁ AQUI! ELE ESTÁ AQUI!”
Helena segurou a menina com força.
“Fica comigo! Não olha! Não olha!”
Mas Sofia não parava de olhar para o corredor.
Como se já soubesse o que vinha.
Victor chegou ao andar superior em segundos.
Viu Helena e Sofia.
E naquele instante… algo mudou nele.
Não era estratégia.
Não era cálculo.
Era instinto.
“Atrás de mim. Agora.” — ele disse.
Helena obedeceu imediatamente.
Outro disparo.
Victor puxou Helena para trás da parede.
“Quem são eles?” — Helena gritou.
Victor respondeu seco:
“Não importa agora. Apenas não saia daqui.”
Celeste apareceu no rádio interno, respirando com dificuldade.
“Victor… o sistema… foi comprometido por alguém que conhece nossa arquitetura…”
Victor apertou o rádio.
“Quem?”
Silêncio.
Depois:
“Juliano.”
O nome pareceu congelar o ar.
Helena ouviu mesmo sem entender totalmente.
Sofia também.
E começou a tremer ainda mais.
“Ele voltou… ele voltou…” — ela sussurrou.
Um grupo de homens avançou pelo corredor principal.
Victor reagiu imediatamente.
Movimento rápido.
Preciso.
Dois seguranças caíram.
Victor puxou Helena e Sofia para uma sala lateral.
Trancou a porta.
Respirou fundo pela primeira vez.
Helena olhou para ele.
“O que está acontecendo aqui?!”
Victor não respondeu imediatamente.
Ele apenas olhou para Sofia.
E viu algo que não gostou.
Ela não estava apenas assustada.
Ela estava reconhecendo algo.
Do outro lado da porta, passos se aproximavam.
Lentos.
Intencionais.
Celeste, ferida, tentou se arrastar até o painel principal.
“Se ele entrar no núcleo… acabou tudo…” — ela disse com dificuldade.
Victor ouviu os passos.
E então tomou uma decisão.
Ele abriu o compartimento oculto da parede.
Uma arma.
Helena congelou.
“Victor… o que você vai fazer?”
Ele respondeu sem olhar para ela:
“O que eu deveria ter feito há muito tempo.”
Sofia agarrou Helena com força.
“Não deixa ele me levar… não deixa…”
Um impacto forte na porta.
Depois outro.
A madeira começou a ceder.
Victor apontou a arma para a entrada.
Respirou fundo.
E então… os sensores da sala apagaram completamente.
Silêncio total.
E uma última mensagem apareceu no sistema interno antes de tudo cair:
“Ele chegou antes do que eu pensei…”
Victor murmurou no escuro, quase para si mesmo:
“Ele chegou antes do que eu pensei…”
E a porta começou a se abrir.