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《QUEM É ELE?》PARTE 8

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A manhã em São Paulo nasceu com um céu cinza pesado, como se a cidade inteira estivesse segurando a respiração.

No Hospital Santa Lúcia, o clima não era diferente.

Corredores limpos demais, passos silenciosos demais, e uma sensação constante de que qualquer palavra dita ali poderia ser apagada no instante seguinte.

Rafael Almeida Vasconcelos estava sentado, mas não mais como alguém perdido.

Agora ele parecia alguém prestes a quebrar alguma coisa.

Celeste estava ao lado dele, ainda segurando os documentos antigos. Mariana não estava mais ali, mas sua presença ainda parecia ecoar no ambiente como uma ameaça invisível.

E o mais estranho: ninguém mais tentava fingir normalidade.

“Eu preciso entender tudo,” Rafael disse finalmente, a voz mais firme do que nos dias anteriores.

Celeste respirou fundo.

“Então você precisa ouvir pessoas que não foram compradas por esse sistema,” ela respondeu.

Ele franziu a testa.

“Que pessoas?”

Ela levantou o olhar.

“Vizinhos.”

Uma hora depois, eles estavam na Vila Madalena.

A rua parecia menor do que na memória fragmentada de Rafael. Casas antigas, muros desgastados, uma padaria de esquina com cheiro de pão fresco que o atingiu como um choque emocional.

Ele parou por um segundo.

“Esse cheiro…” ele murmurou.

Celeste olhou para ele.

“Você lembra disso.”

Ele não respondeu.

Mas seu corpo respondeu por ele.

Eles entraram em uma rua estreita.

E foi ali que tudo começou a se conectar.

Uma senhora idosa abriu a porta de casa ao ver Celeste.

“Celeste?” ela disse surpresa.

Celeste assentiu.

“Eu preciso que você fale a verdade para ele.”

A mulher olhou para Rafael.

E congelou.

“Meu Deus…” ela disse baixo.

Rafael ficou imóvel.

“Você me conhece?” ele perguntou.

A mulher hesitou.

“Eu te vi crescer,” ela respondeu.

Silêncio.

Celeste deu um passo à frente.

“Diga a ele o que aconteceu naquele dia.”

A senhora respirou fundo.

E começou:

“Eu lembro de um carro branco.”

Rafael sentiu o estômago apertar.

“E dois homens saindo dele,” ela continuou.

A voz dela ficou mais baixa.

“Eles disseram que era assistência social.”

Rafael fechou os olhos por um segundo.

Fragmentos começaram a voltar.

Mais fortes agora.

Mais claros.

“Eles entraram na sua casa,” a mulher disse. “E você estava chorando.”

Rafael abriu os olhos.

E dessa vez não era só memória.

Era sensação.

“Você estava segurando a mão da sua mãe,” ela disse olhando para Celeste.

Celeste abaixou a cabeça.

“E você não queria soltar.”

Rafael deu um passo para trás.

“Para…” ele disse baixo.

Mas ninguém parou.

A senhora continuou:

“Ela gritava. Pediu ajuda. Mas os vizinhos não podiam fazer nada.”

Rafael levou a mão ao peito.

O ar ficou mais pesado.

“Eles disseram que você tinha sido selecionado para um programa especial,” a mulher disse.

Celeste riu com dor.

“Selecionado…” ela repetiu.

Rafael olhou ao redor.

A rua parecia mudar.

O passado e o presente começando a se sobrepor.

“E depois?” ele perguntou.

A senhora hesitou.

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“Depois… você desapareceu.”

Silêncio.

Celeste tocou o braço dele.

“Você não desapareceu,” ela disse. “Você foi levado.”

Rafael respirava rápido.

“Por quem?”

A senhora olhou para ele com medo.

“Homens com crachá da Fundação Santa Helena.”

O nome bateu como uma descarga.

Rafael repetiu:

“Fundação Santa Helena…”

E então veio outra memória.

Mais forte.

Um corredor branco.

Uma assinatura.

Uma mulher dizendo:

“Ele será melhor cuidado aqui.”

Rafael cambaleou.

Celeste segurou ele.

“Foca em mim,” ela disse.

Ele respirou fundo.

Mas agora tudo estava voltando.

“Eu lembro de uma sala…” ele disse. “Um formulário…”

A senhora assentiu.

“Eles sempre levavam tudo de forma organizada.”

Rafael olhou para ela.

“Por que ninguém fez nada?”

A resposta veio pesada:

“Porque disseram que era legal.”

Celeste fechou os olhos.

“Legal não significa correto,” ela disse.

Rafael ficou em silêncio.

E então algo mudou dentro dele.

Ele não estava mais só ouvindo.

Ele estava reconstruindo.

“Eu não era um erro do sistema…” ele disse lentamente.

Celeste respondeu imediatamente:

“Não.”

“Eu era uma escolha,” ele continuou.

Silêncio.

A senhora assentiu.

“E não foi uma escolha sua.”

Rafael respirou fundo.

E então perguntou:

“Quem decidiu isso?”

Celeste respondeu:

“Eles nunca dizem nomes simples.”

A senhora acrescentou:

“Mas havia um homem sempre presente.”

Rafael olhou para ela.

“Quem?”

Ela hesitou.

E respondeu:

“Dr. Henrique Farias.”

O nome fez o ar ficar mais frio.

Rafael congelou.

“Ele…”

Celeste completou:

“Ele não só participou.”

Ela respirou fundo.

“Ele supervisionou.”

Silêncio absoluto.

Rafael sentiu algo se quebrar dentro dele.

“Então ele estava lá desde o começo…” ele disse.

Celeste assentiu.

E nesse momento, outra memória surgiu.

Um homem observando de longe.

Um crachá.

Um olhar neutro demais.

Rafael deu um passo para trás.

“Ele me conhecia…” ele murmurou.

Celeste respondeu:

“Ele te estudava.”

Silêncio.

A senhora entregou outro papel antigo.

“Isso eu guardei por anos,” ela disse.

Rafael pegou.

Era uma cópia parcial de registro.

Nome incompleto.

Código interno.

E uma frase destacada:

“TRANSFERÊNCIA AUTORIZADA — PROJETO VASCONCELOS.”

Rafael congelou.

“Projeto…” ele repetiu.

Celeste ficou rígida.

“Isso nunca era falado em voz alta.”

Rafael levantou os olhos.

“Então não foi acaso…”

Celeste respondeu:

“Não.”

Ele respirou fundo.

E então disse:

“Foi planejamento.”

Silêncio pesado.

O vento passou pela rua.

E por um segundo, tudo pareceu encaixar.

Rafael fechou os olhos.

E quando abriu…

mais de 70% da memória estava lá.

Ele se viu criança.

A mãe.

A cozinha.

O medo.

O carro.

O médico.

Ele cambaleou.

“Eu lembro…” ele disse.

Celeste segurou ele forte.

“Eu sabia que você ia lembrar.”

Mas Rafael não sorria.

Porque agora a pergunta era outra.

“Se isso é verdade…” ele disse.

“Então por que ainda falta algo?”

Silêncio.

A senhora olhou para ele com tristeza.

“Porque alguém interrompeu o resto.”

Rafael levantou o olhar.

“Quem?”

Ninguém respondeu imediatamente.

E então Celeste disse:

“Porque alguém não queria que você lembrasse o motivo real de tudo isso.”

Rafael ficou imóvel.

E pela primeira vez…

ele entendeu que a verdade ainda não tinha terminado.

Ele respirou fundo.

“Então o que eu ainda não lembro?”

Silêncio total.

E a senhora respondeu baixinho:

“O que aconteceu dentro do dia em que você foi levado.”

Rafael congelou.

E nesse instante…

um carro preto estacionou no fim da rua.

Celeste viu primeiro.

E ficou pálida.

“Eles nos encontraram,” ela disse.

Rafael virou lentamente o rosto.

E viu o carro.

E dentro dele…

alguém já o observava.

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