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《QUEM É ELE?》PARTE 3

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O silêncio que ficou depois da conversa na calçada não era mais apenas silêncio de rua. Era um tipo diferente de vazio — como se o mundo ao redor de Rafael Almeida Vasconcelos tivesse perdido a capacidade de fazer sentido.

Ele ainda segurava o celular com força.

A tela brilhava.

Mas ele não estava realmente vendo nada.

A foto antiga, o relatório hospitalar, as palavras da mulher… tudo se misturava dentro da cabeça dele como fragmentos de algo maior que ele não conseguia organizar.

“Isso não é real…” ele repetia baixo, como se a frase pudesse estabilizar sua mente.

Mas não estabilizava.

Pelo contrário.

Algo estava começando a abrir dentro dele.

E doía.

O primeiro choque veio como cheiro.

Não um cheiro da rua.

Mas algo completamente diferente.

Açúcar queimando levemente na panela.

Farinha sendo misturada com leite morno.

E uma voz feminina cantando baixo em uma cozinha pequena.

Rafael piscou forte.

E a Avenida Paulista desapareceu por um instante.

Ele estava em outro lugar.

Uma cozinha simples em Vila Madalena.

Uma mesa de madeira antiga.

E mãos… mãos femininas mexendo massa com cuidado.

“Fica mais doce se você mexer devagar…” uma voz disse dentro da lembrança.

Ele levou a mão à cabeça.

“Não…” ele sussurrou. “Para com isso…”

Mas a memória não parou.

Ela avançou.

Ele recuou um passo na calçada.

O celular escorregou um pouco na mão.

A senhora ainda o observava, mas agora parecia distante, como se Rafael estivesse sendo puxado para dentro de algo que ninguém mais podia ver.

“Você está passando mal?” ela perguntou, preocupada.

Mas ele não respondeu.

Porque a segunda onda veio mais forte.

Agora ele via uma criança.

Ele mesmo.

Pequeno.

Sentado no chão de uma cozinha.

Rindo.

Com farinha no rosto.

Uma mulher agachada ao lado dele limpando suas mãos com um pano.

“Rafael, você vai sujar tudo de novo,” ela dizia, rindo.

“Mas eu gosto assim!” a voz infantil dele respondia.

Rafael adulto arregalou os olhos.

“Não…” ele disse alto, agora chamando atenção de algumas pessoas na calçada. “Isso não existe…”

Mas seu corpo não obedecia mais sua lógica.

As pernas começaram a falhar.

O peito apertou.

E o cheiro… o cheiro ficou mais forte.

De repente, a rua voltou por um segundo.

Buzinas.

Gente passando.

Um ônibus.

Mas tudo voltou a desaparecer de novo.

E agora a lembrança era mais violenta.

Uma porta batendo.

Gritos.

Um homem desconhecido falando com voz firme:

“Ele vem comigo. Já está decidido.”

A mulher da cozinha — a mesma mulher da foto — segurando o menino com força.

“Não! Ele é meu filho!” ela gritava.

“Ele terá uma vida melhor!” a voz masculina respondia.

O menino chorava.

Rafael sentiu isso no próprio corpo.

Uma sensação de ser arrancado.

De ser puxado para longe.

“Não olha pra trás,” uma voz masculina dizia.

E então…

Branco.

Rafael caiu de joelhos na calçada.

O celular caiu no chão.

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As pessoas começaram a olhar.

“Ele tá bem?” alguém perguntou.

“Chama alguém!” outro disse.

Mas ele não ouvia direito.

Só fragmentos.

Só dor.

Só aquele vazio se abrindo como um buraco antigo.

“Eu… eu lembro…” ele sussurrou, quase sem som.

A senhora se aproximou rapidamente.

“Rafael! Olha pra mim!” ela disse, tentando segurar o rosto dele.

Mas ele tremia.

“Eles… me levaram…” ele disse, confuso. “Eu… eu era pequeno…”

Ela respirou fundo, com lágrimas começando a surgir nos olhos.

“Sim,” ela respondeu. “Você estava comigo.”

O mundo então apagou.

Quando Rafael abriu os olhos de novo, já não estava na rua.

O cheiro de álcool hospitalar era forte.

Luzes brancas.

Um teto alto.

Monitores apitando.

Ele tentou se mover.

Mas o corpo estava pesado.

“Ele acordou!” uma voz disse ao fundo.

Uma enfermeira apareceu rapidamente.

“Fique calmo, senhor Rafael. Você desmaiou na rua.”

Ele tentou falar, mas a garganta estava seca.

“Cadê… a mulher…” ele conseguiu dizer.

A enfermeira hesitou.

“Foi trazido com uma senhora, sim. Ela está na recepção.”

Ele tentou levantar.

Mas foi impedido.

“Espere, você precisa ficar em observação.”

Minutos depois, um homem entrou no quarto.

Bem vestido.

Crachá de hospital privado.

Doutor Henrique Farias.

Ele olhou o prontuário.

Depois olhou Rafael.

“Você teve uma crise neurológica leve,” ele disse com calma controlada.

Rafael franziu a testa.

“Não foi isso…” ele respondeu fraco.

O médico observou mais atentamente.

“Explique.”

Rafael respirou fundo.

“Eu lembrei de coisas… que eu não lembrava antes.”

O médico ficou imóvel por um segundo.

Muito breve.

Mas suficiente.

“Que tipo de coisas?” ele perguntou.

Rafael hesitou.

Mas então disse:

“Minha infância.”

Silêncio.

O médico fechou o prontuário lentamente.

“Isso pode acontecer em estresse extremo,” ele respondeu rápido demais.

Mas algo na voz dele não estava estável.

Nesse momento, a senhora entrou no quarto.

“Ele não está bem por causa de estresse,” ela disse imediatamente. “Ele está lembrando porque isso é dele.”

O médico se virou para ela.

E pela primeira vez, o tom mudou.

Ficou frio.

“Senhora, a senhora não pode interferir no tratamento.”

Ela não recuou.

“Você sabe o que fizeram com ele.”

Rafael olhou para os dois, confuso.

“Do que vocês estão falando?” ele perguntou.

O médico suspirou.

E então disse algo inesperado:

“Senhor Rafael, sua ficha médica mostra inconsistências antigas. Mas isso não significa nada concreto.”

A senhora deu um passo à frente.

“Significa sim,” ela disse firme. “Significa que alguém mexeu nele.”

Rafael levantou a cabeça com dificuldade.

“Mexeu em mim?”

O médico respondeu rápido demais:

“Isso é impossível.”

Mas então o monitor ao lado de Rafael apitou mais forte.

E uma nova leitura apareceu na tela.

“ATIVIDADE CEREBRAL ASSOCIADA A MEMÓRIA REPRESSA – PADRÃO ANÔMALO.”

A enfermeira olhou confusa.

“O que é isso?” ela perguntou.

O médico ficou imóvel.

Por um segundo inteiro.

Longo demais.

E então ele apagou a tela rapidamente.

“Erro de sistema,” ele disse.

Mas ninguém ali parecia acreditar.

A senhora se aproximou de Rafael.

E falou baixo:

“Eles não só te levaram… eles mexeram na sua cabeça.”

Rafael arregalou os olhos.

“Isso não pode ser verdade…”

Mas agora ele já não soava seguro.

O médico saiu rapidamente do quarto.

E assim que fechou a porta…

pegou o telefone.

“Ele começou a lembrar,” ele disse.

Do outro lado da linha, uma voz respondeu apenas:

“Então aumentem o bloqueio.”

No quarto, Rafael olhou para a senhora.

E pela primeira vez perguntou com medo real:

“Quem está fazendo isso comigo?”

Ela hesitou.

E respondeu:

“Alguém que não quer que você volte a ser quem era.”

E nesse exato momento, os monitores começaram a oscilar sozinhos.

A luz do quarto piscou.

E uma última lembrança começou a surgir na mente de Rafael…

mais forte que todas as outras.

Mas antes que ele pudesse ver o final…

o monitor desligou completamente.

E o hospital entrou em silêncio.

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