O
Palácio Imperial de Santa Aurora
nunca havia vivido um caos tão silencioso.
Depois do colapso da Rainha-Mãe e da revelação impossível diante de toda a corte, o que se instalou não foi apenas confusão — foi medo.
Um medo político.
Um medo que se espalhava como veneno invisível entre os corredores dourados do império.
No centro de tudo estava
Lívia Soares
.
Ela ainda segurava as rosas brancas.
Mas agora elas pareciam pesadas demais, como se carregassem o peso de um destino que nunca pediu.
—“Eu quero ir embora…” — ela disse novamente, com a voz fraca. — “Isso não é a minha vida. Eu não sou ninguém disso.”
O silêncio caiu imediatamente sobre o salão.
O rei
Augusto Vasconcelos
deu um passo à frente.
Seu rosto estava sério, mas havia algo diferente nele agora: dúvida profunda.
—“Ninguém vai sair daqui ainda.” — disse ele com firmeza. — “Este assunto não pertence mais apenas à família. Agora é um assunto de Estado.”
Essas palavras mudaram tudo.
Os nobres começaram a se entreolhar.
O peso político da frase era claro.
Se Lívia fosse realmente quem a Rainha-Mãe dizia ser…
então o império estava diante de uma reconfiguração de poder.
E isso era perigoso.
Muito perigoso.
O rei virou-se imediatamente para os guardas.
—“Fechem todas as saídas do salão imperial. Ninguém entra, ninguém sai até segunda ordem.”
O som das portas sendo trancadas ecoou pelo palácio.
Evelina sentiu o corpo congelar.
Ela deu um passo à frente, desesperada.
—“Pai, isso está indo longe demais! Essa mulher está manipulando a situação!”
Mas o rei não olhou para ela.
Foi como se sua voz tivesse perdido relevância naquele instante.
A Rainha-Mãe, ainda de joelhos, levantou lentamente o rosto.
Seus olhos estavam inchados, mas agora havia clareza neles.
—“Não é manipulação…” — ela disse com dificuldade. — “É memória.”
Ela se levantou com ajuda de um dos guardas.
E então olhou diretamente para o rei.
—“Eu preciso que o Conselho Imperial seja convocado imediatamente.”
O rei hesitou.
—“Agora?”
—“Agora.” — respondeu ela, firme. — “Antes que o império se quebre em duas interpretações da mesma verdade.”
O silêncio voltou a dominar o salão.
Mas agora era outro tipo de silêncio.
Era o silêncio antes da guerra política.
Lívia foi levada para uma sala lateral do palácio.
Não como prisioneira.
Mas como “protegida do Estado”.
Mesmo assim, ela não se sentia protegida.
A sala era luxuosa, com janelas altas e cortinas pesadas, mas para ela tudo parecia distante demais.
Camadas de ouro.
Camadas de regras.
Camadas de pessoas olhando para ela como se fosse algo que ela nunca pediu para ser.
Ela sentou-se na borda de uma cadeira.
As mãos ainda tremiam.
Quando uma das damas da corte tentou oferecer chá, ela recusou imediatamente.
—“Eu não quero nada disso…” — disse ela baixinho. — “Eu só quero voltar para o jardim do meu pai.”
A dama não respondeu.
Apenas saiu em silêncio.
Do lado de fora, dois guardas reais permaneciam posicionados.
Como se a sala fosse um ponto estratégico.
E era.
Porque naquele momento, Lívia Soares não era mais apenas uma jovem.
Ela era uma possibilidade de mudança de regime.
Enquanto isso, no salão principal, a reunião de emergência já havia começado.
Ministros, duques, generais e representantes da alta nobreza estavam reunidos sob tensão extrema.
O rei Augusto estava sentado na cabeceira da mesa.
A Rainha-Mãe ao seu lado.
E Evelina permanecia de pé, isolada, sem conseguir se sentar.
O ministro de segurança falou primeiro.
—“Majestade, se a identidade dessa jovem for confirmada, isso significa que a linha de sucessão foi alterada sem registro oficial por dezoito anos.”
Outro nobre completou:
—“Isso significa que qualquer decisão tomada no último ciclo político pode ser questionada.”
O ambiente ficou ainda mais pesado.
Porque todos ali entendiam o subtexto.
Não era apenas sobre uma princesa perdida.
Era sobre poder.
Controle.
E legitimidade.
A Rainha-Mãe falou novamente:
—“Não estamos lidando com teoria. Estamos lidando com uma verdade enterrada.”
Evelina finalmente explodiu:
—“E se tudo isso for mentira?”
Todos olharam para ela.
Ela respirou fundo, tentando recuperar controle.
—“Uma garota desconhecida aparece do nada com um relicário antigo e uma marca no corpo e vocês querem simplesmente reescrever a história do império?”
O silêncio voltou.
Mas desta vez, o rei respondeu:
—“Não estamos reescrevendo nada. Estamos investigando.”
Ele fez uma pausa.
—“E até que isso termine, Lívia Soares será tratada como potencial herdeira legítima.”
A palavra “herdeira” caiu como uma bomba.
Evelina fechou os olhos por um instante.
Como se tivesse levado um golpe direto.
No corredor externo do palácio, um grupo de nobres já começava a se dividir.
Alguns sussurravam apoio à Rainha-Mãe.
Outros defendiam cautela.
E alguns já começavam a calcular perdas políticas.
Um duque comentou baixo:
—“Se essa garota for confirmada, metade dos títulos antigos podem ser revisados.”
Outro respondeu:
—“Não só títulos… contratos, propriedades, alianças matrimoniais…”
A palavra “casamento” ficou no ar.
E isso aumentou ainda mais o clima de tensão.
Porque no império de Santa Aurora, linhagem não era apenas sangue.
Era poder econômico.
De volta à sala onde Lívia estava isolada, ela se levantou e caminhou até a janela.
Lá fora, o jardim imperial brilhava sob a luz da tarde.
O mesmo jardim onde ela cresceu.
O mesmo lugar onde acreditava pertencer.
Mas agora parecia distante.
Irreal.
Como se tivesse sido parte de outra vida.
Ela encostou a testa no vidro.
—“Por que isso está acontecendo comigo…” — ela sussurrou.
Atrás dela, a porta se abriu lentamente.
A Rainha-Mãe entrou sozinha.
Sem guardas.
Sem corte.
Apenas ela.
Lívia se virou imediatamente, assustada.
—“Por favor… eu não quero mais ninguém me dizendo o que eu sou.”
A Rainha-Mãe levantou a mão suavemente.
—“Eu não vim te dizer quem você é.”
Ela se aproximou lentamente.
—“Eu vim te proteger.”
Lívia franziu o cenho.
—“Proteger de quê?”
A Rainha-Mãe respirou fundo.
E respondeu:
—“Do império.”
O silêncio entre as duas ficou absoluto.
Enquanto isso, no salão principal, um dos mensageiros entrou apressado.
Ele entregou um novo documento ao rei.
Augusto leu rapidamente.
E sua expressão mudou.
Ficou mais rígida.
Mais grave.
Ele levantou o olhar.
E disse:
—“Acabamos de receber uma confirmação parcial dos arquivos antigos…”
Todos prenderam a respiração.
—“Existe uma possibilidade real de que Lívia Soares seja a única herdeira legítima viva da linhagem direta Vasconcelos.”
O impacto foi imediato.
Alguns nobres se levantaram.
Outros ficaram em choque.
Evelina deu um passo para trás.
Como se o chão tivesse desaparecido.
Mas antes que qualquer reação pudesse se consolidar…
as portas do salão se abriram novamente.
Um novo grupo de nobres entrou sem ser anunciado.
E um deles falou em voz alta:
—“Se isso for verdade… então o império já não tem unidade.”
O rei se levantou lentamente.
—“O que você está sugerindo?”
O nobre respondeu com frieza:
—“Estou sugerindo que o império está dividido.”
Ele olhou ao redor.
E completou:
—“E cada família precisa escolher de que lado vai ficar.”
Um silêncio mortal tomou conta da sala.
Porque naquele instante…
o império não estava mais apenas em investigação.
Estava em ruptura.
E do outro lado do palácio…
Lívia ainda não sabia que seu nome já estava sendo usado como arma política.
E que o que viria a seguir…
não seria mais sobre identidade.
Mas sobre guerra interna pelo poder.