O salão imperial ainda estava em completo silêncio.
O tipo de silêncio que não era vazio, mas pesado demais para ser quebrado.
A Rainha-Mãe Celeste Vasconcelos permanecia de joelhos no centro do salão, com as mãos tremendo enquanto segurava o ar como se tivesse perdido a própria força vital. Seus olhos não conseguiam se afastar de Lívia Soares.
A jovem ainda segurava as rosas brancas contra o peito, sem entender o que estava acontecendo.
Evelina estava imóvel.
Pálida.
Como se o sangue tivesse sido drenado do seu corpo em um único instante.
—“Avó… isso é algum engano?” — a voz dela saiu baixa, quase quebrada.
Mas ninguém respondeu.
A Rainha-Mãe não olhou para Evelina.
Ela apenas respirava com dificuldade, como se estivesse vendo um fantasma do passado voltar a caminhar diante dela.
Os olhos da velha monarca desceram lentamente até o pescoço de Lívia.
Ali estava ele.
Um relicário dourado.
Pequeno.
Antigo.
Com delicados detalhes de lírios gravados na superfície.
O mesmo símbolo da linhagem imperial Vasconcelos.
A Rainha-Mãe estendeu a mão, hesitante, como se tivesse medo de tocar algo que pudesse desaparecer.
—“Esse… esse relicário…” — sua voz falhou.
Lívia recuou um passo, confusa.
—“Ele… é da minha mãe.”
As palavras caíram como uma lâmina dentro do peito da Rainha-Mãe.
Seus olhos se encheram de lágrimas imediatamente.
—“Mariana…” — ela sussurrou, quase sem som.
Ao ouvir aquele nome, o salão inteiro pareceu reagir.
Alguns nobres trocaram olhares.
Outros começaram a murmurar.
Evelina franziu o cenho.
—“Mariana Soares? A jardineira?”
Mas a Rainha-Mãe não respondeu.
Ela já não estava mais no presente.
Estava de volta a dezoito anos atrás.
O incêndio.
As chamas consumindo os corredores do Palácio Imperial de Santa Aurora.
Gritos.
Guardas correndo.
E uma criança sendo arrancada dos braços da mãe.
Uma pequena princesa.
O futuro do império.
Desaparecendo na fumaça.
—“Não a percam!” — a voz do rei ecoava naquela memória distante.
Mas foi tarde demais.
Quando a Rainha-Mãe voltou ao presente, ela estava chorando.
Sem perceber.
Sem controlar.
—“Mariana…” — ela repetiu novamente, agora com dor. — “Ela viveu… o tempo todo…”
Lívia deu um passo para trás.
—“Eu não entendo… por que todos estão me olhando assim?”
A voz dela era pura confusão.
Sem ambição.
Sem compreensão de poder.
Só medo.
E isso foi o que mais destruiu a Rainha-Mãe naquele instante.
Porque era exatamente assim que sua neta deveria ser.
Evelina deu um passo à frente, tentando recuperar o controle da situação.
—“Avó, isso é absurdo! Essa menina é filha do jardineiro! Isso é uma fantasia criada por…”
Mas a Rainha-Mãe levantou a mão.
E Evelina parou de falar imediatamente.
Foi um gesto simples.
Mas absoluto.
Como se o mundo ainda obedecesse apenas àquela autoridade antiga.
A Rainha-Mãe finalmente se levantou.
Lentamente.
Com dificuldade.
E caminhou até o relicário no pescoço de Lívia novamente.
Desta vez, não hesitou em tocar.
Seus dedos tremiam enquanto abriam o pequeno fecho dourado.
Um clique suave ecoou.
E o relicário se abriu.
Dentro dele havia uma pequena gravação desgastada pelo tempo.
Um símbolo da família imperial.
E uma inscrição quase apagada:
“Para minha filha, onde quer que esteja.”
A Rainha-Mãe soltou um som sufocado.
As pernas quase falharam novamente.
—“Isso foi dado no dia do batismo da princesa herdeira…” — ela disse, olhando para o vazio. — “O único relicário que existia no palácio… antes do incêndio.”
O salão inteiro começou a se agitar.
Os nobres começaram a murmurar mais alto.
—“Isso não pode ser coincidência…”
—“Ela está dizendo que essa menina…”
—“Impossível…”
Evelina apertou os punhos.
—“Isso não prova nada!”
Mas a Rainha-Mãe já não estava ouvindo.
Seu olhar havia mudado.
Agora estava preso em outro detalhe.
Atrás da orelha esquerda de Lívia.
Ela se aproximou lentamente.
E então viu.
A marca.
Uma pequena meia-lua.
Perfeita.
Inconfundível.
O corpo da Rainha-Mãe estremeceu.
Seus olhos se encheram novamente de lágrimas.
—“A marca de nascimento…” — ela sussurrou. — “A mesma marca…”
Lívia levou a mão ao rosto instintivamente.
—“Isso sempre esteve aqui…”
A Rainha-Mãe caiu de joelhos novamente.
Mas desta vez não foi choque.
Foi reconhecimento.
—“É você…” — sua voz quebrou completamente. — “Não há dúvida…”
Evelina deu um passo para trás.
Depois outro.
Como se o chão estivesse se afastando dela.
—“Não…” — ela murmurou. — “Isso não pode estar acontecendo…”
O rei, que até então permanecia em silêncio, finalmente se aproximou.
Seu rosto estava sério.
Pesado.
—“Mãe… você tem certeza do que está dizendo?”
A Rainha-Mãe levantou os olhos para ele.
E naquele olhar havia uma verdade incontestável.
—“Eu segurei essa criança no dia em que nasceu.” — disse ela lentamente. — “Eu vi essa marca pela primeira vez naquele dia.”
O salão inteiro entrou em choque absoluto.
Evelina sentiu o ar faltar.
—“Isso significa…” — ela começou, mas não conseguiu terminar.
Porque o significado já estava claro demais.
Lívia não era apenas uma garota comum.
Ela era a herdeira desaparecida.
A verdadeira princesa do império.
A Rainha-Mãe segurou as mãos de Lívia com força.
Como se tivesse medo de deixá-la desaparecer novamente.
—“Você estava viva…” — ela disse entre lágrimas. — “Todos esses anos… viva…”
Lívia começou a tremer.
—“Eu não… eu não posso ser isso…”
Mas sua voz já não tinha a mesma certeza de antes.
Porque algo dentro dela começava a quebrar.
Memórias que não eram suas.
Sensações estranhas.
Um vazio inexplicável ao longo da vida inteira.
E então a voz de Evelina cortou o ar novamente.
Mas agora não havia arrogância.
Só medo.
—“Isso é uma farsa…” — ela disse, mas sua voz já não era firme. — “Ela está manipulando vocês…”
Mas ninguém olhou para ela.
Todos olhavam para Lívia.
Como se finalmente estivessem vendo algo que sempre esteve escondido à vista de todos.
A Rainha-Mãe se levantou lentamente novamente.
E agora sua expressão havia mudado.
Não era mais dor.
Era decisão.
Ela soltou as mãos de Lívia.
E virou-se em direção à escadaria principal do salão.
O rei percebeu imediatamente.
—“Mãe… o que a senhora vai fazer?”
A Rainha-Mãe parou no primeiro degrau.
E respirou fundo.
Seu olhar ficou fixo à frente.
Pesado.
Definitivo.
E então ela disse:
—“Eu vou descer.”
Um silêncio mortal tomou conta do salão.
Evelina congelou.
Porque aquele gesto não era simples.
A Rainha-Mãe não descia escadas em cerimônias.
Ela era a autoridade máxima.
Se ela estava indo até o centro do salão…
significava que algo irreversível estava prestes a acontecer.
Lívia observou em silêncio.
Confusa.
Assustada.
Sem entender que naquele instante…
toda a estrutura do império estava prestes a mudar para sempre.
E quando a Rainha-Mãe colocou o pé no segundo degrau…
uma das portas laterais do salão se abriu lentamente ao fundo.
Um vento frio entrou.
E um mensageiro do palácio entrou correndo, ofegante, segurando um envelope lacrado com o selo real antigo.
Ele gritou:
—“Majestade! Encontramos documentos do incêndio de dezoito anos atrás!”
A Rainha-Mãe parou imediatamente.
Todos no salão prenderam a respiração.
Evelina empalideceu ainda mais.
Lívia deu um pequeno passo para trás.
E o envelope começou a ser erguido no ar…
como se ele carregasse dentro de si a última verdade que ninguém ainda estava pronto para ouvir.
E a Rainha-Mãe, ainda no meio da escadaria, sussurrou:
—“Então… finalmente começou.”