《A Herdeira Perdida do Império de Santa Aurora》Capítulo 2

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O salão imperial ainda estava em completo silêncio.

O tipo de silêncio que não era vazio, mas pesado demais para ser quebrado.

A Rainha-Mãe Celeste Vasconcelos permanecia de joelhos no centro do salão, com as mãos tremendo enquanto segurava o ar como se tivesse perdido a própria força vital. Seus olhos não conseguiam se afastar de Lívia Soares.

A jovem ainda segurava as rosas brancas contra o peito, sem entender o que estava acontecendo.

Evelina estava imóvel.

Pálida.

Como se o sangue tivesse sido drenado do seu corpo em um único instante.

—“Avó… isso é algum engano?” — a voz dela saiu baixa, quase quebrada.

Mas ninguém respondeu.

A Rainha-Mãe não olhou para Evelina.

Ela apenas respirava com dificuldade, como se estivesse vendo um fantasma do passado voltar a caminhar diante dela.

Os olhos da velha monarca desceram lentamente até o pescoço de Lívia.

Ali estava ele.

Um relicário dourado.

Pequeno.

Antigo.

Com delicados detalhes de lírios gravados na superfície.

O mesmo símbolo da linhagem imperial Vasconcelos.

A Rainha-Mãe estendeu a mão, hesitante, como se tivesse medo de tocar algo que pudesse desaparecer.

—“Esse… esse relicário…” — sua voz falhou.

Lívia recuou um passo, confusa.

—“Ele… é da minha mãe.”

As palavras caíram como uma lâmina dentro do peito da Rainha-Mãe.

Seus olhos se encheram de lágrimas imediatamente.

—“Mariana…” — ela sussurrou, quase sem som.

Ao ouvir aquele nome, o salão inteiro pareceu reagir.

Alguns nobres trocaram olhares.

Outros começaram a murmurar.

Evelina franziu o cenho.

—“Mariana Soares? A jardineira?”

Mas a Rainha-Mãe não respondeu.

Ela já não estava mais no presente.

Estava de volta a dezoito anos atrás.

O incêndio.

As chamas consumindo os corredores do Palácio Imperial de Santa Aurora.

Gritos.

Guardas correndo.

E uma criança sendo arrancada dos braços da mãe.

Uma pequena princesa.

O futuro do império.

Desaparecendo na fumaça.

—“Não a percam!” — a voz do rei ecoava naquela memória distante.

Mas foi tarde demais.

Quando a Rainha-Mãe voltou ao presente, ela estava chorando.

Sem perceber.

Sem controlar.

—“Mariana…” — ela repetiu novamente, agora com dor. — “Ela viveu… o tempo todo…”

Lívia deu um passo para trás.

—“Eu não entendo… por que todos estão me olhando assim?”

A voz dela era pura confusão.

Sem ambição.

Sem compreensão de poder.

Só medo.

E isso foi o que mais destruiu a Rainha-Mãe naquele instante.

Porque era exatamente assim que sua neta deveria ser.

Evelina deu um passo à frente, tentando recuperar o controle da situação.

—“Avó, isso é absurdo! Essa menina é filha do jardineiro! Isso é uma fantasia criada por…”

Mas a Rainha-Mãe levantou a mão.

E Evelina parou de falar imediatamente.

Foi um gesto simples.

Mas absoluto.

Como se o mundo ainda obedecesse apenas àquela autoridade antiga.

A Rainha-Mãe finalmente se levantou.

Lentamente.

Com dificuldade.

E caminhou até o relicário no pescoço de Lívia novamente.

Desta vez, não hesitou em tocar.

Seus dedos tremiam enquanto abriam o pequeno fecho dourado.

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Um clique suave ecoou.

E o relicário se abriu.

Dentro dele havia uma pequena gravação desgastada pelo tempo.

Um símbolo da família imperial.

E uma inscrição quase apagada:

“Para minha filha, onde quer que esteja.”

A Rainha-Mãe soltou um som sufocado.

As pernas quase falharam novamente.

—“Isso foi dado no dia do batismo da princesa herdeira…” — ela disse, olhando para o vazio. — “O único relicário que existia no palácio… antes do incêndio.”

O salão inteiro começou a se agitar.

Os nobres começaram a murmurar mais alto.

—“Isso não pode ser coincidência…”

—“Ela está dizendo que essa menina…”

—“Impossível…”

Evelina apertou os punhos.

—“Isso não prova nada!”

Mas a Rainha-Mãe já não estava ouvindo.

Seu olhar havia mudado.

Agora estava preso em outro detalhe.

Atrás da orelha esquerda de Lívia.

Ela se aproximou lentamente.

E então viu.

A marca.

Uma pequena meia-lua.

Perfeita.

Inconfundível.

O corpo da Rainha-Mãe estremeceu.

Seus olhos se encheram novamente de lágrimas.

—“A marca de nascimento…” — ela sussurrou. — “A mesma marca…”

Lívia levou a mão ao rosto instintivamente.

—“Isso sempre esteve aqui…”

A Rainha-Mãe caiu de joelhos novamente.

Mas desta vez não foi choque.

Foi reconhecimento.

—“É você…” — sua voz quebrou completamente. — “Não há dúvida…”

Evelina deu um passo para trás.

Depois outro.

Como se o chão estivesse se afastando dela.

—“Não…” — ela murmurou. — “Isso não pode estar acontecendo…”

O rei, que até então permanecia em silêncio, finalmente se aproximou.

Seu rosto estava sério.

Pesado.

—“Mãe… você tem certeza do que está dizendo?”

A Rainha-Mãe levantou os olhos para ele.

E naquele olhar havia uma verdade incontestável.

—“Eu segurei essa criança no dia em que nasceu.” — disse ela lentamente. — “Eu vi essa marca pela primeira vez naquele dia.”

O salão inteiro entrou em choque absoluto.

Evelina sentiu o ar faltar.

—“Isso significa…” — ela começou, mas não conseguiu terminar.

Porque o significado já estava claro demais.

Lívia não era apenas uma garota comum.

Ela era a herdeira desaparecida.

A verdadeira princesa do império.

A Rainha-Mãe segurou as mãos de Lívia com força.

Como se tivesse medo de deixá-la desaparecer novamente.

—“Você estava viva…” — ela disse entre lágrimas. — “Todos esses anos… viva…”

Lívia começou a tremer.

—“Eu não… eu não posso ser isso…”

Mas sua voz já não tinha a mesma certeza de antes.

Porque algo dentro dela começava a quebrar.

Memórias que não eram suas.

Sensações estranhas.

Um vazio inexplicável ao longo da vida inteira.

E então a voz de Evelina cortou o ar novamente.

Mas agora não havia arrogância.

Só medo.

—“Isso é uma farsa…” — ela disse, mas sua voz já não era firme. — “Ela está manipulando vocês…”

Mas ninguém olhou para ela.

Todos olhavam para Lívia.

Como se finalmente estivessem vendo algo que sempre esteve escondido à vista de todos.

A Rainha-Mãe se levantou lentamente novamente.

E agora sua expressão havia mudado.

Não era mais dor.

Era decisão.

Ela soltou as mãos de Lívia.

E virou-se em direção à escadaria principal do salão.

O rei percebeu imediatamente.

—“Mãe… o que a senhora vai fazer?”

A Rainha-Mãe parou no primeiro degrau.

E respirou fundo.

Seu olhar ficou fixo à frente.

Pesado.

Definitivo.

E então ela disse:

—“Eu vou descer.”

Um silêncio mortal tomou conta do salão.

Evelina congelou.

Porque aquele gesto não era simples.

A Rainha-Mãe não descia escadas em cerimônias.

Ela era a autoridade máxima.

Se ela estava indo até o centro do salão…

significava que algo irreversível estava prestes a acontecer.

Lívia observou em silêncio.

Confusa.

Assustada.

Sem entender que naquele instante…

toda a estrutura do império estava prestes a mudar para sempre.

E quando a Rainha-Mãe colocou o pé no segundo degrau…

uma das portas laterais do salão se abriu lentamente ao fundo.

Um vento frio entrou.

E um mensageiro do palácio entrou correndo, ofegante, segurando um envelope lacrado com o selo real antigo.

Ele gritou:

—“Majestade! Encontramos documentos do incêndio de dezoito anos atrás!”

A Rainha-Mãe parou imediatamente.

Todos no salão prenderam a respiração.

Evelina empalideceu ainda mais.

Lívia deu um pequeno passo para trás.

E o envelope começou a ser erguido no ar…

como se ele carregasse dentro de si a última verdade que ninguém ainda estava pronto para ouvir.

E a Rainha-Mãe, ainda no meio da escadaria, sussurrou:

—“Então… finalmente começou.”

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