Capítulo 15
Beto hesitou e voltou para a loja.
Ele tirou o casaco encharcado pela chuva: "Então, vou te dar trabalho."
Lana virou-se, foi ao balcão pegar uma garrafa de água e entregou a Beto: "Inspetor, aqui, beba um pouco."
Quando ela entregou a água, Beto pôde ver exatamente as cicatrizes nos pulsos dela.
Essas cicatrizes alternavam entre novas e antigas, transversais e aterrorizantes.
Eram marcas de correntes, que não cicatrizavam e eram apertadas repetidamente, causando feridas horríveis.
Ele não ousava imaginar.
O quanto ela deve ter sofrido naquela época.
Muito menos imaginar o quanto ela deve ter suportado, para usar correntes e conter seu desejo de morrer.
A névoa da chuva era nebulosa.
Lana estava parada diante da vitrine, observando as crianças passando e pisando em poças: "Toda vez que chove, lembro-me de quando era pequena e adorava pisar em poças. Meus pais viviam puxando minhas orelhas para me levar para casa."
Beto olhou para cima.
Metade do rosto de Lana estava na sombra.
Ela se virou de repente e viu Beto olhando-a profundamente.
Lá fora, a tempestade batia no vidro, parecendo bater em seu coração; ela virou o rosto levemente e perguntou: "Inspetor, você brincava assim quando era criança?"
O olhar de Beto tornou-se melancólico.
Ela não lembrava, também tinha esquecido.
Ela sempre gostava de espirrar água barrenta nele, só então parando de rir: "Beto, você está mais sujo que eu, com certeza vai levar uma bronca maior que a minha."
Beto segurava aquela garrafa de água mineral, apertando e soltando.
Finalmente, ele disse: "As coisas de criança, eu já não me lembro mais."
O computador apitou.
Lana sorriu sem jeito: "Chegou um pedido, Inspetor, sente-se primeiro."
Os pedidos vinham um após o outro, Lana trabalhava sem parar.
Portanto, ela não percebeu que Beto ficou olhando para ela em silêncio por uma hora.
A chuva parou.
Beto levantou-se e despediu-se de Lana.
"Srta. Lana, a chuva parou, devo ir."
Lana estava embalando flores, ela sorriu: "Certo, Inspetor, até a próxima!"
Beto saiu e olhou para trás, para Lana.
Aquele rosto estava cheio de sorrisos.
De repente, ele lembrou que, quando ele dizia "até logo", ela sempre fechava a cara e dizia seriamente: "Beto, você não pode dizer até logo para mim!"
"Até logo significa nunca mais se ver, você tem que dizer que nos veremos amanhã."
"Para sempre, nos veremos amanhã."
Beto parou o passo e, para a figura ocupada, disse suavemente: "Lana, até a próxima."
Depois que Beto saiu.
Lana terminou os pedidos e, quando o entregador pegou o último, já eram onze da noite.
Ela organizou os sacos de lixo restantes e as flores murchas, e só então percebeu que o casaco de Beto estava pendurado na cadeira.
Estava encharcado, e o aquecedor não tinha secado as gotas de água.
Ela não tinha o contato de Beto.
Só podia levar para casa, lavar, secar e devolver a ele.
Lana dirigiu até em casa e só então notou uma caixa na porta.
A caixa continha muitos cremes para cicatrizes.
Essa marca é francesa e muito difícil de comprar.
Lana abriu o celular, tirou uma foto e enviou para o zelador: [Por favor, verifique quem deixou isso aqui, talvez tenham colocado no lugar errado.] Lana não levou o creme para dentro.
Ela pensou que assim, quem colocou errado também poderia buscar de volta a tempo.
Quando ela se preparava para lavar o casaco de Beto, de repente algo caiu do bolso.
Ela jogou a roupa na máquina de lavar e apertou o botão.
Ela se abaixou para pegar o objeto.
Mas descobriu que era um molho de chaves, e um bilhete, e naquele bilhete estava, de fato, a letra dela!
Capítulo 16
Lana abriu a porta e, parada do lado de fora, estava Beto.
Ele mantinha o corte de cabelo militar, com traços faciais severos e firmes.
Seu suéter escuro colava-se à linha fria dos ombros, e o luar, como geada, incidia obliquamente em seu rosto.
Lana ficou surpresa: "Inspetor?"
Beto estava parado do lado de fora, um tanto sem jeito: "Meu casaco ficou na sua loja. Quando terminei de lidar com o caso e voltei, já estava fechado. Peço desculpas pela perturbação noturna, tenho as chaves da minha casa no bolso..."
A máquina de lavar girava barulhenta.
Lana sentiu-se um pouco sem jeito; se soubesse, não teria lavado.
"Vi que a roupa estava toda molhada e planejei lavá-la para depois levar à delegacia. Agora já entrou na máquina."
Dito isso, ela parou por um momento e perguntou: "A segurança do nosso condomínio é muito rigorosa; sem a permissão do proprietário, nem um mosquito entra. Inspetor, como você entrou?"
Beto disse calmamente: "Talvez porque sou policial."
Lana assentiu: "Ficará pronto em breve, quer entrar para esperar?"
Beto levantou o pulso para olhar o relógio: "Quanto tempo falta? Vou esperar lá fora."
Lana sentiu um aperto no coração, só então percebendo quão absurdo foi o que acabou de falar.
Deve estar louca para convidar um homem que viu apenas duas vezes para entrar em sua casa no meio da noite.
Ela voltou para verificar o tempo no visor da máquina de lavar.
Ainda faltava meia hora.
Ela mal tinha chegado à porta para contar o tempo a Beto.
O celular em sua mão vibrou de repente.
Ela se apressou para atender e, com um deslize descuidado no dedo, ativou o viva-voz sem querer.
Do outro lado da linha, veio a voz do tio Liu.
"Lana, você e Xiao Shen já estão juntos há dois anos, quando pretendem oficializar? O tio Liu ainda está esperando para beber no seu casamento!"
Lana olhou cuidadosamente para Beto.
"Tio Liu, vou te retornar depois, agora estou ocupada."
Após desligar o telefone, os dois ficaram em silêncio um diante do outro.
Beto era o convidado e não quis entrar, então Lana só pôde acompanhá-lo na porta.
Naquela noite.
Beto pegou seu casaco e marcou com seu colega, Liu Lin, para comer um churrasco em uma barraca de beira de estrada.
"Chefe, traga uma dúzia de cervejas!"
Liu Lin abriu a tampa com os dentes: "Ué, o que houve com nosso capitão? Não é você quem não bebe há uma eternidade?"
Ele encheu o copo de Beto, passou o braço pelo ombro dele e disse: "Que preocupação é essa? Conte-me."
Beto ficou em silêncio, apenas bebendo um copo atrás do outro.
As garrafas de cerveja estavam espalhadas pelo chão, lotando a mesa inteira.
Beto de repente ergueu os olhos e disse seriamente: "Parece que ela tem um namorado..."
Liu Lin ficou atordoado por um momento antes de reagir sobre quem seria ela.
"Capitão, a Srta. Lana já perdeu a memória. Então vocês deveriam esquecer o passado, deveria simplesmente conhecê-la novamente."
"Você preso ao passado, nunca vai sair dele."
"Capitão, consigo ver que a Srta. Lana tem sentimentos por você", Liu Lin fez uma pausa e continuou: "Senão, por que ela voltaria para Lanyang?"
A mão de Beto apertou o copo de vinho, o líquido balançou e algumas gotas caíram sobre suas costas da mão, geladas até os ossos.
Ele olhou para fora da janela, onde flocos brancos de neve voavam por todo o céu.
Em fevereiro, Lanyang nevou novamente.
Ele lembrou que, antigamente, brincando, ele dizia o que era verdade: "Lana, eu gosto de neve, sua foto de perfil é um floco de neve, você acha que nos reencontraremos em um dia de neve depois de muito tempo e ficaremos juntos?"
Ele gosta de neve porque, em um dia de neve, uma Lana usando saia rosa e covinhas ao sorrir mudou-se para a casa ao lado como vizinha.
Desde então, fez nascer o verde em seu peito antes árido.
Beto tomou um gole de vinho, o sabor ardente do álcool não conseguia superar o azedume em seu coração.
"Ela voltou para Lanyang, não foi por mim."
Foi por causa do rapaz do telefonema.
Capítulo 17
Liu Lin ficou atordoado.
Não foi por causa dele? Poderia ser por quem?
Ele já tinha visto o olhar de Lana ao encarar Beto; era um olhar de arrependimento, de um amor impossível, de querer se aproximar, mas não ousar.
No instante seguinte, ouviu Beto dizer:
"Ela já gostou de mim, mas isso foi há dez anos."
"Dez anos podem mudar muitas coisas, ninguém consegue insistir em gostar de alguém por dez anos."
Muito menos, alguém que lhe trouxe dor enquanto estava presa na lama.
Beto bebia copo após copo de vinho.
Liu Lin o aconselhou: "Então finja que Lana também morreu há dez anos."
"Capitão, as pessoas precisam seguir em frente."
Como seguir em frente?
Desde dez anos atrás, no momento em que Lana desapareceu, sua vida era apenas aridez.
Nunca mais nasceu um fio de verde.
...
Condomínio Lanting, unidade 1.
Lana tomou banho, ligou um programa de variedades e encolheu-se no sofá para comer macarrão instantâneo.
O celular vibrou.
Era uma mensagem da assistente Xiao Chun: "Irmã Lana, você não vai morar naquela casa nova que comprou antes? Quer alugar?"
Desde que a boate foi transferida para o tio Liu, Xiao Chun também passou a ajudá-la na floricultura.