O segundo vídeo também mostrava Igor.
O rosto de Lana estava coberto de farinha, e no instante seguinte a câmera focou nos bolinhos sobre a mesa.
"Igor, esses bolinhos que você fez são tão feios, vou gravar agora, e não vou comer esse que você fez!"
O terceiro vídeo ainda era Igor.
Ela se abanava com um caderno de exercícios por causa do calor, dizendo furiosa: "Igor, você é uma parede? Bloqueou todo o ventilador! Estou suando de calor, depois você vai comprar um sorvete para mim!"
Beto abaixou a cabeça, ouvindo em silêncio.
Parece que Lana gostava de Igor ainda mais do que ele imaginava, já que cada vídeo que gravava era sobre ele.
A enfermeira ao lado assistia ao vídeo o tempo todo e exclamou:
"Esse vídeo é estranho, ela chama um nome, mas grava o rosto de outro."
Beto, intrigado, pegou o celular para olhar.
Só então percebeu que, em cada vídeo, Igor ocupava apenas um canto da tela.
E ele era a pessoa que preenchia quase toda a tela.
Nesse momento, o celular iniciou automaticamente o próximo vídeo.
Na tela, Lana estava sentada no banco do carona de Igor, com o rosto levemente corado.
Foi a primeira vez que viu Lana corar de timidez ao ponto de não conseguir completar uma frase.
A data era o dia do acidente.
8 de maio de 2015.
Ela dizia a Igor: "Eu nunca insisti em nada por muito tempo, a única coisa em que insisti por muito tempo parece ser gostar de você por dez anos."
Capítulo 11
Nesse momento, a enfermeira exclamou: "Capitão, os dedos da Srta. Lana parecem ter se movido!"
Beto correu freneticamente para fora do quarto para chamar o médico.
Por isso, Beto não ouviu o final do vídeo.
Lana, tímida e covarde: "Igor, se eu me confessar assim, Beto vai achar cafona, né?"
"Será que... vai dar certo?"
O médico responsável chegou e iluminou seus olhos com uma lanterna.
Fez uma série de exames de consciência corporal.
Finalmente, o médico suspirou aliviado.
"A paciente moveu os dedos, o que indica que esse tipo de estímulo está surtindo efeito."
"Mas para ela acordar, pode levar algum tempo."
Sérgio apareceu do lado de fora da porta e disse emocionado: "Inspetor, tentamos todos os métodos aqui e nada funcionou."
"Mas assim que você chegou, teve efeito..."
Beto suprimiu o preto fervilhante no fundo de seus olhos e interrompeu Sérgio.
"O que surtiu efeito nela foi a pessoa neste celular."
"Tenho assuntos a tratar, estou indo."
Três da manhã.
Sérgio, sem conseguir dormir, foi ao corredor fumar.
No entanto, ao olhar da janela para baixo, viu Beto sentado no banco lá embaixo, com a cabeça baixa.
A noite era fria e sombria, ele parecia fundir-se com a noite.
Ele suspirou.
Como ele não entenderia a confusão e a teimosia de Beto?
Ele mesmo, por causa disso, perdeu alguém muito, muito importante para ele.
Isso o deixou arrependido por toda a vida.
Beto sentou no banco do hospital por toda a noite.
Ele sentia-se ridículo.
No caminho para cá, ele preparou muitos discursos, lembrou-se de muitas coisas do passado.
Ele pensou em qual história divertida contar, se sobre quando ela tinha cinco anos e comeu comprimidos de digestão como se fossem lanche, distribuindo para cada criança do jardim de infância?
Ou sobre quando ela tinha oito anos, foi fazer um exame de sangue e, depois de tirar o sangue, segurou a mão da enfermeira e não a deixou ir.
"Irmã enfermeira, você ainda não devolveu o sangue que tirou, não pode ir!"
Ou talvez sobre quando tinha doze anos, no fim do ensino fundamental, ela pediu para todos os colegas escreverem no caderno de memórias e chorou com os olhos vermelhos, dizendo que estava triste por, após seis anos de colegas, cada um seguir seu caminho.
Resultado: na cerimônia de entrada do ensino médio no ano seguinte, metade dos colegas estava na mesma sala que ela.
Ele achava ridículo.
Ridículo falar sobre as coisas dela, aquelas memórias que estavam vivas diante de seus olhos.
Até os detalhes das lembranças ele conseguia recordar.
Mais ridículo ainda: ele realmente achava que poderia fazê-la despertar a vontade de viver.
Mas o que poderia despertar a vontade de viver de alguém que ela não lembrava há dez anos?
Apenas agora.
Lana apenas ouviu sua própria voz confessando-se para Igor, e ela reagiu.
Quão ridículo é isso.
Ele é realmente ridículo.
Ridículo por dez anos, esperando por dez anos, não é o suficiente?
O céu começou a clarear.
É o amanhecer.
Beto recebeu um telefonema de um colega da delegacia.
"Capitão, Zhang An está fazendo uma confusão, dizendo que se Lana não morreu, quando sair ele vai esfaqueá-la até a morte."
Zhang An, é aquele loiro que tentou matar Lana.
Beto correu para a delegacia.
Na sala de interrogatório, Beto estava frio e solene, o frio em seus olhos parecia querer atravessar a pessoa.
"Zhang An, o que o pai de Lana fez para você tentar matá-la?"
Zhang An mencionou o assunto com ódio no rosto: "Se não fosse pelo pai dela ter aceitado suborno do empreiteiro, deixando meu pai sem poder cobrar o salário, como meu pai doente teria se suicidado em desespero?"
"Ela matou meu pai, ela não deveria morrer?"
Beto, olhando para sua expressão calma, não aguentou e chutou sua cadeira de interrogatório.
"Zhang An, quem matou seu pai foi o pai dela, o pai dela já morreu, já pagou o preço."
"Você transferiu o ódio, cometeu homicídio doloso."
"Você pensou, isso é justo para ela?"
"Você ainda falou alto, dizendo que quando ela sair você vai matá-la, eu te digo, você nunca mais sairá daqui!"
O escrivão ao lado gritou com cuidado: "Capitão..."
A imagem do capitão em seus olhos é de estabilidade, esta é a primeira vez que ela vê o capitão tão fora de si.
Zhang An, porém, riu friamente.
"Eu transferi o ódio, e você, inspetor?"
"Dez anos atrás, seu irmão morreu num acidente de carro. Lana estava na UTI com hemorragia cerebral e quase morreu também."
"Mas Lana tem culpa? Você, como eu, também odiou Lana por tantos anos."
Capítulo 12
Ao ouvir isso.
Beto ficou atordoado: "UTI?"
Ela não tinha ido para o exterior ilesa? Ela nunca mencionou isso.
Zhang An disse com pesar: "Ela ficou um mês na UTI, mas infelizmente, assim que acordou, foi enviada para o exterior pela mãe. Caso contrário, como eu poderia deixá-la viver até hoje."
Ela ficou um mês na UTI? Por que ele não sabia de nada disso.
Nesse momento, a mãe de Clara ligou.
Beto pensou um pouco e ainda assim atendeu.
A mãe de Clara não ligaria se não fosse algo importante.
"Beto, estou organizando os pertences de Clara e encontrei alguns bilhetes de Lana em sua caixa de lápis."
"Os bilhetes dizem que Lana gosta de você."
...
Beto foi até a casa da família Lin.
A mulher refinada, que antes se maquiava bem e se vestia com luxo, agora tinha fios brancos crescendo.
A sala estava cheia de fotos e pertences de Clara.
Beto ficou parado, atordoado.
A palavra "condolências", ele disse uma e outra vez.
Mas a dor de perder um ente querido é uma umidade que dura a vida toda.
Ao ver Beto, a mãe de Clara enxugou a umidade dos cantos dos olhos: "Beto, você veio."
Ela virou-se e pegou uma caixa de lápis velha do sofá, cheia de papéis amarelados: "Acho que esses deveriam ser bilhetes que elas passavam nas aulas do ensino médio."
"Originalmente eram pensamentos de garotas, mas acho que ainda deveria te mostrar."
Beto pegou a caixa e abriu os bilhetes.
Nos bilhetes.
Lana escreveu.
"Clara, eu só contei para você que gosto de Beto, não pode contar para ninguém!"
"Quando vou confessar? Ainda não decidi. E você, quando vai confessar para Igor?"
"Você lembra quando fomos ao parque de diversões no primeiro ano do ensino médio? Naquela vez o parque ficou sem luz, me perdi de vocês, fiquei com medo do escuro, caminhando sozinha entre a multidão, mas Beto me encontrou num piscar de olhos, ele caminhou até mim através da multidão, naquele momento senti como se o mundo tivesse silenciado."
Beto sentiu um nó na garganta.
Ele se lembrava daquela vez.
Lana sempre foi desorientada, até na porta de sua própria casa ela se perdia.
Então, toda vez que saíam, ele a seguia a três passos de distância.
Naqueles anos, ele achava que ela gostava de Igor.
Então, ele parecia ter se acostumado a ficar em um lugar não muito longe, observando-a em silêncio.
Ele nunca contou a ninguém, mas toda vez que Lana se aproximava, ele sentia que seu coração estava prestes a explodir.
Toda vez que a via rindo com Igor, ele ficava muito triste e desapontado.
Ele folheava bilhete por bilhete.
Lana escreveu.
"Parece que nunca gostei tanto de alguém."
"Gostar ao ponto de ter medo que ele saiba do meu sentimento e nem amigos possamos ser."
"Você sabe por que sou um floco de neve? Porque Beto gosta de neve."