Ela, trêmula, entrou no carro de Igor. Meia hora depois, o carro foi atingido por um caminhão.
Quando acordou na UTI, já estava sendo forçada pela mãe a ir para o aeroporto.
Naquele mesmo dia, seu pai caíra em desgraça e a empresa de sua mãe passava por uma auditoria.
Sua mãe chorava, implorando para que ela fugisse e nunca mais voltasse.
Ao aterrissar e ligar o celular, recebeu simultaneamente as notícias da morte de Igor e do suicídio de seus pais...
Capítulo 3
Dois olhares pousaram sobre Lana como lâminas, a dor densa parecia retalhá-la aos poucos.
Como ela poderia explicar? Por onde começar?
Ao ver Beto abraçando Clara, ela sentiu que não havia necessidade de dizer nada.
"O passado... se você não menciona, eu até tinha esquecido."
Beto ergueu os olhos para ela, com uma voz mais gelada que a geada de dezembro.
"Lana, por que a pessoa que morreu naquela época não foi você?"
Lana mordeu o interior dos lábios até sangrar.
Sua garganta doía como se tivesse engolido espinhas de peixe, a voz rouca e sofrida: "Eu também gostaria de saber. Por que você não pergunta ao seu irmão, na época, por que ele decidiu me salvar?"
Dito isso, Lana não olhou mais para os dois e virou-se para sair da delegacia.
Ao lado do carro, no estacionamento, ela acendeu um cigarro.
Assim que deu a primeira tragada, uma tempestade desabou, encharcando-a instantaneamente...
Lana caminhou desolada sob a chuva torrencial por meia hora até conseguir um táxi para voltar ao Condomínio Lanting.
O lugar onde ela morava era um apartamento de trezentos metros quadrados.
A sala era assustadoramente vazia, as paredes eram pretas e a iluminação era muito baixa.
Exceto por um sofá e uma mesa de centro, quase não havia sinais de vida.
Eram onze da noite quando Lana terminou o banho e viu inúmeras notificações em seu celular.
Ao abrir, percebeu que sua declaração de esclarecimento tinha explodido na internet.
Sua declaração dizia: 【Eu e Beto somos apenas colegas de escola, e o diário de amor secreto foi uma ficção baseada em um protagonista de romance. Por favor, parem de especular.】
A exclusão da conta levava um dia, então ela ainda recebia notificações.
No início, a seção de comentários lamentava não poder mais "shippar" o casal, mas logo depois foi inundada por ataques severos.
【Lana, como você tem coragem de voltar ao país? Foi você quem fez Igor perder o tempo ideal de resgate! Você é uma assassina.】
【Sem vergonha, não tem limites! Eu sou colega de faculdade dela; no exterior, ela foi amante de alguém, e ao voltar, abriu uma boate para explorar garotas!】
【Vocês não ouviram? Lana era apaixonada por Igor. Quando ele rejeitou a declaração dela no carro, ela tentou pegar o volante, causando o acidente!】
Cada vez mais absurdo.
Lana não quis ler mais, quando uma foto familiar saltou à vista.
Era Beto, com a foto de perfil dos fogos de artifício.
Ele escreveu: 【Não deixem que eu veja vocês espalhando boatos de novo, ou eu mesmo vou prender vocês!】
O coração de Lana deu um salto, e ela abriu o comentário ao qual Beto respondia.
【Do que estão falando? Na época, Lana claramente gostava era do Beto!】
Então era isso que ele estava negando.
Lana forçou os lábios pálidos e um toque de autodepreciação brilhou em seus olhos.
Ela largou o celular e deixou-se mergulhar na escuridão infinita.
O vizinho ao lado passou dois meses fazendo reformas barulhentas, que finalmente pararam há pouco tempo.
Lana se revirou na cama sem conseguir dormir, e só conseguiu sentir um pouco de sono depois de engolir dez comprimidos para dormir.
Antigamente, o médico receitava apenas um quarto de comprimido por dia.
Mas agora, a dose tinha aumentado a esse ponto.
No meio da noite, quando finalmente conseguiu adormecer, a campainha tocou insistentemente.
Ela franziu a testa ao abrir a porta, e o entregador lhe entregou um saco plástico transparente com uma caixa de preservativos: "Olá, seu pedido!"
Lana, irritada, disse: "Você entregou errado."
O entregador coçou a cabeça, conferindo o pedido: "Desculpe, é para o vizinho. Me confundi."
No instante em que ela estava prestes a fechar a porta.
A porta ao lado se abriu: "Pode me dar."
Lana congelou.
Ela viu Beto, vestindo pijama, parado na porta.
Beto era o novo vizinho que tinha se mudado para o apartamento em frente!
Seus olhares se cruzaram repentinamente no ar frio.
A mente de Lana ficou em branco por um momento; através da fresta da porta, ela viu as plantas verdes e viçosas na varanda.
Viu o capacho com o personagem Shin-chan dando as boas-vindas na entrada, viu o jantar à luz de velas cuidadosamente preparado na mesa.
Era a forma do lar que ela um dia fantasiou.
A forma do lar que ela um dia sonhou ter com Beto.
O entregador enfiou os preservativos na mão de Beto e saiu correndo para a próxima entrega.
Lana, num impulso, quebrou o silêncio: "Beto, a delegacia não é longe daqui? Por que você veio morar aqui?"
Assim que as palavras saíram, Lana percebeu que a pergunta não era apropriada.
Beto manteve o rosto frio, ignorando-a, e tentou fechar a porta.
Ao virar-se, ele parou e disse com voz gélida: "Lana, não acho que tenhamos uma relação que permita conversas casuais."
"Da próxima vez que nos virmos, finja que não nos conhecemos."
Um vento frio invadiu o peito de Lana, deixando-a estagnada.
No instante seguinte, a voz de Clara veio do apartamento ao lado: "Beto, eu te avisei que comprar nossa casa aqui não seria conveniente."
"Agora veja só, demorou meia hora para chegar uma entrega..."
A porta foi fechada com força por Beto.
Lana não precisou pensar muito para saber o que aconteceria em seguida.
De quatro pessoas, duas podiam ser felizes.
Isso é bom.
Capítulo 4
Ela também fechou sua porta e pegou o celular para enviar uma mensagem à sua assistente pedindo para procurar uma casa nova.
A assistente respondeu chocada.
【Chefe Lana, você não disse que o Lanting Número 1 tinha a vista mais linda da neve? O inverno está chegando, por que a pressa em mudar?】
Por que, afinal?
A garganta de Lana ficou seca.
Provavelmente porque ela não queria morar ali, não queria ver com os próprios olhos ele se casando e tendo filhos com outra mulher, cumprindo cada etapa da vida ali.
Lana ficou de pé diante da enorme janela de vidro do chão ao teto, observando o vento frio uivando lá fora.
Os galhos nus eram sacudidos de um lado para o outro.
Ela desviou o olhar e respondeu à assistente.
【De repente, percebi que não espero mais pela neve.】
Antigamente, como Beto gostava de neve, ela usou os flocos de neve da série de TV como foto de perfil.
Naquela época, Beto ria e brincava: "Lana, eu gosto de neve, e sua foto é um floco. Você acha que, se daqui a dez anos ninguém nos quiser, nos reencontraremos numa noite de neve e ficaremos juntos?"
Desde então, ela começou a esperar por neve todos os anos.
Mas quando ela trabalhava ilegalmente no exterior, não nevou, e quando voltou para a cidade, não nevava há dois anos.
Talvez este ano também não neve.
Devido à natureza do seu trabalho, que exigia que ela saísse tarde e voltasse tarde, Lana quase nunca encontrava Beto.
Uma semana depois.
Lana terminou o trabalho e, no caminho de volta para casa, recebeu um telefonema do entregador.
"Srta. Lana, uma carta sua chegou à Rua Wutong, número 5."
Rua Wutong, número 5, era onde ela morava antigamente.
Ela pediu que o entregador deixasse a carta na caixa de correio na entrada e mudou o caminho para pegá-la.
Nos anos em que ficou fora, ela nunca voltou para casa.
Não por falta de vontade, mas por medo.
Assim como agora, parada diante da porta de casa, as memórias do passado quase corroíam sua carne, a dor tornando sua respiração difícil.
Ao ver a mesa de pedra no pátio, ela se lembrava de quando seu pai a ensinava matemática.
Ao ver o espaço vazio, lembrava-se da mãe adorando fazer churrasco nos fins de semana.
E aquela grande acácia no pátio.
Antigamente, quando fugiam para brincar, Beto sempre a esperava de bicicleta no portão sob a acácia.
Ela sempre o repreendia: "Beto! Eu menti para minha mãe dizendo que ia à biblioteca, ficar esperando aqui é muito arriscado!"
Mas Beto apenas revirava os olhos e dizia: "Você não sabe que é desorientada? Se perde até no portão da escola, se eu não ficasse aqui, você estaria perdida!"
O vento de inverno feriu seus olhos, ela fechou-os com dificuldade.
É verdade, ela já estava perdida há muito tempo.
Ela não conseguia encontrar seus pais, nem encontrar o caminho de volta ao passado...
Saindo de suas memórias, Lana abriu a caixa de correio, mas não encontrou a carta.
Se não fosse pelo cigarro ainda aceso no chão, ela teria pensado que era uma pegadinha.
Com a cabeça baixa, sem ousar entrar no pátio, ela se virou para sair.