Capítulo 1
Existe uma regra não escrita no Rio de Janeiro.
Nunca se deve desafiar Lana, a dona da boate Horizonte.
Os rumores sobre o passado dela são um labirinto de boatos.
Alguns dizem que ela foi uma mercenária internacional, que já tirou vidas e empunhou armas, uma verdadeira demônia temida por todos.
Outros dizem que ela é a princesa de uma organização criminosa, e que mexer com ela é o mesmo que declarar guerra à rede oculta.
Tudo isso até que seu antigo diário secreto, escrito na adolescência, foi descoberto na internet e viralizou.
Foi então que os internautas descobriram que Lana não tinha um passado aterrorizante.
Ela era comum, tão comum que não teve coragem de confessar um amor unilateral de dez anos.
Os internautas, investigando cada detalhe, logo identificaram o protagonista do diário como Beto, o policial mais charmoso da cidade.
Com medo de que seus sentimentos juvenis fossem revelados, Lana acessou aquela conta na mesma noite.
Mas, ao entrar, uma nova mensagem apareceu.
"Lana, sou eu, o Beto."
……
No escritório da boate, a luz branca e fria da lâmpada fluorescente caía sobre o rosto inexpressivo de Lana.
Ela encarava a tela do celular sem desviar o olhar. A foto de perfil de Beto ainda era a mesma: fogos de artifício.
Foi ela quem trocou aquela foto, dez anos atrás.
Na época, ela era viciada em uma série de TV e, entre chantagens e manhas, forçou seus amigos próximos a mudarem suas fotos de perfil para flores.
Beto era um deles.
Suas pontas dos dedos pálidos tremiam sobre a tela.
Nos dez anos em que ela não acessou a conta, Beto nunca parou de enviar mensagens.
Dez anos atrás, ele escreveu: "Lana, você não tinha sido aprovada com bolsa na universidade? Por que abandonou o ensino médio?"
Nove anos atrás: "Lana, se você ainda quiser estudar, eu posso te ajudar."
Oito anos atrás, à meia-noite, ele enviou:
"Lana, já fazem três anos. O Igor partiu há três anos e você nunca veio visitá-lo."
"Você não tem coração?"
Sete anos atrás, ele disse: "Lana, de hoje em diante, para mim, você está morta."
Depois dessa frase, Beto nunca mais enviou nada.
Ao ler aquilo, Lana forçou um sorriso amargo.
Considerá-la morta...
Na verdade, não havia diferença. Ela já tinha morrido uma vez.
Foi deportada trabalhando como lavadora de pratos no exterior, teve uma arma apontada para a cabeça enquanto tentava roubar o primeiro salário, foi traficada para a fronteira e quase perdeu seus órgãos.
Lana segurava o celular, hesitante, sem saber o que responder.
Sua mente girava em torno de uma única questão: se Beto já tinha descoberto aquela conta há tanto tempo, será que ele também já tinha descoberto o seu amor por ele?
A caixa de texto ainda mostrava que ele estava digitando.
No segundo seguinte, a mensagem de Beto saltou na tela:
【Lana, meu irmão está morto há dez anos. Por favor, exclua esta conta. Você não tem o direito de perturbá-lo.】
Lana soltou um riso sem graça, sentindo como se tivessem enfiado uma bola de algodão úmida em seu peito.
Ela começou a digitar: 【Beto, você acha que era dele que eu falava?】
Ela apagou e reescreveu várias vezes.
Lana ficou ali por um longo tempo, percebendo que, diante de Beto, sua covardia era como uma doença incurável.
Naquela época, ela só tinha coragem de correr atrás de Igor, irmão de Beto.
Por isso, todos na escola acreditavam que ela gostava de Igor.
Lana era covarde demais para explicar, com medo de que, se o fizesse, não conseguiria ser nem amiga de Beto.
Afinal, na época, Beto tinha dito que já gostava de alguém.
Após um momento de reflexão, Lana enviou a mensagem: "Desculpe, vou excluir a conta."
"E também farei um esclarecimento online."
Lana acendeu um cigarro, tragou profundamente, tentando dissipar a melancolia.
Ela esperou em silêncio, até que a tela do celular apagasse e voltasse a brilhar, sem resposta do outro lado.
Foi só então que ela se levantou.
De repente, um tumulto começou na boate.
Sua assistente, Alice, entrou apressada: "Chefe Lana, algo terrível aconteceu! A polícia chegou com mandados de busca!"
Lana não se apressou. Apagou o cigarro no cinzeiro, milimetricamente.
Então, arrumou a postura e saiu.
Dentro da boate, o ambiente luxuoso estava caótico. Lana vestia um vestido justo que realçava suas curvas.
Ao chegar ao salão principal, viu as garotas, com a maquiagem borrada, agachadas em um canto.
Seus olhos pousaram imediatamente na figura mais imponente do grupo.
Beto estava lá, de uniforme, com um olhar afiado, a ingenuidade da juventude já perdida.
Ele gritou: "Recebemos denúncias de exploração sexual aqui! Quem é a responsável pela boate?"
O coração de Lana parecia querer saltar do peito.
Como, ao reencontrar Beto, a situação poderia ser tão humilhante?
Com um nó na garganta, ela se aproximou e explicou com calma:
"Oficiais, isso é um mal-entendido. Nós operamos dentro da legalidade..."
No instante seguinte, a sombra alta de Beto caiu sobre ela.
O olhar dele, ao encará-la, era frio como um lago gélido.
"Lana, meu irmão deu a vida para te salvar. É assim que você retribui, caindo na lama?"
Capítulo 2
As palavras de Beto foram como ferro em brasa no coração de Lana.
Ele mesmo colocou as algemas nela e mostrou o mandado de prisão: "Se quiser se explicar, faça isso na delegacia."
Dentro da viatura, Beto sentou no banco do passageiro.
Lana encarava o perfil dele, ainda em choque, incapaz de processar tudo aquilo.
A policial ao seu lado provocou com um tom frio: "Por que encara tanto o nosso capitão Beto? Tem algo a dizer a ele?"
Lana sentiu um aperto no peito, querendo negar.
Mas então a policial lançou um balde de água fria:
"Se está interessada no capitão, é melhor desistir. Ele vai se casar em breve."
O leve sorriso de Lana congelou. O restante do trajeto foi preenchido por um silêncio infinito.
Ao chegarem à delegacia, antes mesmo de Lana ser levada para a sala de interrogatório, o delegado veio pessoalmente pedir desculpas.
"Srta. Lana, o Sr. Sérgio, da Associação Comercial, me ligou."
"Tudo não passou de um mal-entendido. Vou mandar liberarem a boate imediatamente."
Beto não se moveu. Ele olhava para Lana, com o rosto e a voz gelados.
"Dez anos se passaram e você continua a mesma, sempre usando meios sujos para fugir das suas responsabilidades."
O delegado interrompeu Beto com o rosto fechado: "O que está dizendo? Aquelas garotas são surdas-mudas que não conseguiam emprego. A Srta. Lana apenas lhes deu um trabalho digno como recepcionistas."
"A boate Horizonte nunca teve qualquer irregularidade!"
"Você, que costuma ser tão sensato, perdeu o juízo hoje? Não invente acusações contra a Srta. Lana! Peça desculpas agora."
Lana sentiu um nó na garganta e gesticulou: "Não precisa."
Antes que terminasse, uma voz vibrante soou na entrada: "Ora, Sr. delegado, já tem idade para se aposentar e ainda usa seu cargo para intimidar o meu Beto?"
Lana olhou para a porta e viu uma garota de vestido amarelo e boina.
Era Clara, a "amiga das flores", sua melhor amiga de outros tempos.
Será que era ela quem ia se casar com Beto?
Mas, na época, a pessoa de quem ela gostava claramente não era o Beto.
A chegada de Clara dispersou o clima pesado. O delegado deu uma última instrução a Beto e saiu.
Ao notar Lana, o olhar de Clara perdeu o brilho: "Lana?"
"É você mesma? Onde você esteve todos esses anos?"
"Por que não nos procurou? Você está bem? Por que abandonou os estudos..."
Clara tinha muitas perguntas, tantas que Lana não sabia por onde começar.
Não procurou porque não sabia como.
Dez anos depois, Lana não era mais a garota mimada de antes.
Ela passou por depressão, pobreza, desespero.
E então, levantou-se da lama e estava, à sua maneira, vivendo.
Vendo o silêncio de Lana, Beto soltou uma risada sarcástica: "Ela está ótima, administrando uma boate com muito sucesso."
Clara não acreditou: "Uma boate?"
A pergunta revelava seu preconceito.
Lana abriu os lábios secos várias vezes, mas desistiu de explicar, apenas forçou um sorriso.
"Sim. Apareça por lá quando quiser, eu pago a conta."
O ar tornou-se rarefeito.
Lana não queria ficar mais ali: "Tenho coisas a resolver, preciso ir."
Ao se levantar, ouviu a voz decepcionada de Clara:
"Lana, caindo tão baixo assim, como você consegue encarar o Igor lá no céu? Ele morreu por sua causa."
O coração pareceu ser atravessado por um golpe seco.
As mãos de Lana se fecharam até sangrar, uma dor profunda emanando de seus olhos calmos.
Clara continuou: "Eu sempre quis te perguntar: por que, após o acidente, você só se preocupou em fugir e não salvou o Igor?"
"Você sabe que, quando o Igor foi retirado, ele ainda estava na posição de te proteger? Como você pode ser tão fria?"
Lembranças dolorosas se entrelaçaram diante de Lana, tornando o ar pesado.
Naquele dia, Igor descobrira que ela gostava de Beto e a aconselhou a ser corajosa no amor.