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《A Menina Que Me Chamou de Mãe》Capítulo 10

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Clara assistiu ao vídeo três vezes.

Depois uma quarta.

E uma quinta.

Cada vez esperando encontrar algum erro.

Alguma manipulação.

Alguma explicação racional.

Mas não havia.

A mulher entrando no prédio era Viviane Vasconcelos.

O mesmo rosto.

A mesma postura.

O mesmo jeito elegante de caminhar.

A mesma mulher cujo funeral havia sido acompanhado pela imprensa nacional.

A mesma mulher cujo corpo supostamente fora enterrado dezoito meses antes.

Clara sentiu um frio percorrer sua espinha.

Se Viviane estava viva...

Então nada terminara.

Nem a mentira.

Nem os roubos.

Nem a rede.

Nem o perigo.

Na manhã seguinte.

Adriano foi liberado para responder às investigações em liberdade.

A repercussão pública continuava devastadora.

Mas o vídeo mudou tudo.

Assim que entrou na mansão, Clara colocou o celular diante dele.

"Assista."

Adriano observou a gravação.

No início permaneceu imóvel.

Depois sua expressão começou a mudar.

Confusão.

Incredulidade.

Choque.

E finalmente medo.

Quando o vídeo terminou, ele continuou olhando para a tela.

Sem piscar.

Sem respirar direito.

"Isso é impossível."

Clara cruzou os braços.

"Também achei."

Adriano passou a mão pelos cabelos.

"Viviane morreu."

A frase saiu sem convicção.

Como alguém tentando convencer a si mesmo.

Clara apontou para a tela.

"Então quem é essa mulher?"

Ele não respondeu.

Porque não tinha resposta.

Daniel chegou poucos minutos depois.

Também assistiu ao vídeo.

E empalideceu imediatamente.

"Onde conseguiu isso?"

"Número desconhecido."

Daniel sentou lentamente.

Parecia prestes a passar mal.

Adriano percebeu.

"O que foi?"

O advogado baixou os olhos.

Pela primeira vez.

Como alguém carregando um peso antigo demais.

"Existe uma coisa que nunca contei."

O silêncio caiu sobre a sala.

Clara imediatamente desconfiou.

"Outra coisa escondida?"

Daniel fechou os olhos.

"Na época da morte da Viviane..."

Adriano ficou imóvel.

"O que aconteceu?"

Daniel respirou fundo.

"Eu achei estranho."

O coração de Adriano disparou.

"Estranho como?"

"A certidão."

Clara sentiu o estômago apertar.

Daniel continuou.

"O documento foi emitido pelo Hospital Santa Catarina."

O silêncio tornou-se pesado.

Muito pesado.

Porque aquele hospital estava em todas as partes da história.

Sempre.

Como uma sombra.

Como uma doença.

Como uma assinatura invisível.

Adriano aproximou-se.

"Você está dizendo que desconfiou da morte dela?"

Daniel assentiu.

"Sim."

"Por quê?"

"A família não autorizou velório aberto."

Outra pausa.

"O caixão permaneceu fechado."

Mais uma.

"E ninguém além do hospital viu o corpo."

Clara sentiu um arrepio.

Daniel continuou.

"Questionei os documentos."

Adriano fechou os punhos.

"E?"

"Recebi uma visita."

A sala inteira ficou em silêncio.

"De quem?"

Daniel engoliu seco.

"Dois homens."

"Quem eram?"

"Não sei."

A resposta foi sincera.

"Eles disseram apenas uma coisa."

Adriano encarava o advogado.

Daniel repetiu as palavras lentamente.

"Algumas verdades enterram pessoas."

O silêncio foi absoluto.

"Depois disso..."

Daniel desviou os olhos.

"Eu parei de perguntar."

Clara sentiu raiva.

Muita raiva.

"Você sabia que havia algo errado."

Daniel não respondeu.

Porque era verdade.

"Você ficou calado."

O advogado abaixou a cabeça.

"Sim."

Clara levantou-se.

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Furiosa.

"É exatamente por isso que eles continuam vencendo."

Sua voz tremia.

"Porque todo mundo vê."

Ela apontou para os documentos.

"Todo mundo desconfia."

Outra vez.

"Todo mundo percebe."

E então concluiu:

"Mas ninguém fala."

Daniel não conseguiu responder.

Porque ela tinha razão.

Naquela mesma tarde.

Clara tomou uma decisão.

Não confiaria mais apenas em advogados.

Não confiaria apenas em tribunais.

Não confiaria apenas em documentos.

Ela investigaria por conta própria.

Adriano a observou durante alguns segundos.

Depois falou:

"Você não vai sozinha."

Clara cruzou os braços.

"Não preciso de babá."

"Não."

A voz dele saiu firme.

"Mas precisa de proteção."

O silêncio surgiu entre os dois.

Estranho.

Intenso.

Diferente.

Nos últimos dias haviam discutido.

Chorado.

Sofrido.

Lutado.

Mas também haviam começado a confiar um no outro.

Mesmo sem perceber.

Clara desviou o olhar primeiro.

"Então vamos."

A primeira pista veio do vídeo.

Daniel conseguiu identificar o prédio onde Viviane aparecia.

Não ficava em São Paulo.

Ficava no litoral norte.

Próximo a Ubatuba.

Uma região isolada.

Cheia de condomínios particulares.

Casas de luxo.

E pouca fiscalização.

Quando chegaram ao endereço.

O lugar parecia abandonado.

Uma casa moderna.

Escondida entre árvores.

Com vista para o mar.

Nenhum nome.

Nenhuma identificação.

Nenhuma movimentação.

Mas Clara sentiu imediatamente.

Algo estava errado.

Muito errado.

Adriano observou os portões.

"Viviane comprou essa propriedade três anos antes da suposta morte."

Clara virou-se.

"Você nunca soube?"

"Não."

Mais uma mentira descoberta.

Mais uma vida secreta.

Mais um pedaço de Viviane que ele jamais conheceu.

Daniel conseguiu abrir os registros da propriedade.

Tudo estava em nome de uma empresa fantasma.

Criada por advogados ligados ao Instituto Éden.

Nada era coincidência.

Nada.

Entrar foi mais fácil do que esperavam.

A casa parecia vazia.

Mas não abandonada.

Havia energia.

Internet.

Comida recente na geladeira.

Alguém ainda usava aquele lugar.

Os três começaram a procurar.

Quarto por quarto.

Gaveta por gaveta.

Armário por armário.

Até que Clara encontrou uma porta escondida.

Atrás de uma estante.

Seu coração disparou.

"Adriano."

Ele apareceu imediatamente.

A porta levava a uma sala subterrânea.

Pequena.

Sem janelas.

Cheia de arquivos.

Centenas deles.

Pastas.

Documentos.

Computadores.

Fotografias.

Passaportes.

Identidades.

Certidões.

O silêncio tomou conta do ambiente.

Porque todos entenderam ao mesmo tempo.

Aquilo era um centro de operações.

Daniel abriu uma pasta.

E empalideceu.

"Nomes."

Clara aproximou-se.

O arquivo continha fotografias de bebês.

Datas de nascimento.

Hospitais.

Famílias receptoras.

Pagamentos.

Valores.

Tudo catalogado.

Tudo organizado.

Como mercadoria.

Clara começou a chorar.

Porque agora via.

Não era apenas Lina.

Nem quinze crianças.

Eram dezenas.

Talvez centenas.

Adriano encontrou outra caixa.

Passaportes.

Muitos passaportes.

Com identidades falsas.

Fotos alteradas.

Nomes diferentes.

Daniel examinou alguns.

Então congelou.

"O meu Deus."

"O que foi?"

Ele mostrou um documento.

O passaporte estava em nome de uma mulher chamada Helena Costa.

Mas a foto era de Viviane.

O silêncio ficou absoluto.

Porque aquilo significava apenas uma coisa.

Viviane realmente planejara desaparecer.

Foi nesse momento que ouviram aplausos.

Lentos.

Irritantes.

Sarcasticamente elegantes.

Todos se viraram.

Uma mulher estava parada na entrada da sala.

Vestido branco.

Bolsa cara.

Sorriso frio.

Renata Vasconcelos.

Clara sentiu o sangue ferver.

Adriano avançou imediatamente.

"Você sabia."

Renata sorriu.

"Demorou para descobrir."

"Minha irmã roubou crianças."

Renata deu uma risada curta.

"Minha irmã fez muitas coisas."

Clara avançou.

"Você participou."

Renata a encarou.

Sem medo.

Sem culpa.

Sem remorso.

"Vocês ainda não entenderam."

O tom dela era assustadoramente calmo.

Adriano fechou os punhos.

"Então explique."

Renata caminhou lentamente pela sala.

Observando os arquivos.

Como alguém admirando uma obra de arte.

"Vocês continuam cometendo o mesmo erro."

Clara sentiu um arrepio.

"Qual erro?"

Renata sorriu.

"Achar que tudo isso era sobre Viviane."

O silêncio caiu.

Ela continuou.

"Viviane era útil."

Outra pausa.

"Inteligente."

Mais uma.

"Ambiciosa."

Então concluiu:

"Mas nunca esteve no comando."

O coração de Adriano disparou.

"Quem estava?"

Renata não respondeu imediatamente.

Apenas observou os rostos dos três.

Como se estivesse saboreando o medo.

"Existe uma rede."

Sua voz ecoou pela sala.

"Hospital."

Outra pausa.

"Juízes."

Outra.

"Políticos."

Mais uma.

"Empresários."

Clara sentiu o estômago embrulhar.

Aquilo era maior.

Muito maior.

Renata deu mais um passo.

E sorriu.

Um sorriso terrível.

Um sorriso que parecia esconder anos de segredos.

Então olhou diretamente para Clara.

E disse:

"Vocês acham que Lina foi a última criança?"

O silêncio tornou-se absoluto.

Renata inclinou levemente a cabeça.

E completou:

"Ela foi só a primeira."

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