"Não."
A palavra saiu da boca de Clara como um sussurro quebrado.
Ela olhava para o documento nas mãos de Daniel.
Mas não conseguia enxergar as letras.
Tudo estava borrado pelas lágrimas.
Lina continuava sentada na cama.
Confusa.
Assustada.
Observando os adultos.
"Eu vou para onde?"
Ninguém respondeu.
Porque ninguém tinha coragem.
Daniel baixou os olhos.
Adriano apertou o papel com tanta força que quase o rasgou.
A decisão judicial era clara.
Imediata.
Irrecorrível naquele momento.
A criança deveria ser removida da mansão.
E colocada sob proteção do Estado.
Até a conclusão das investigações.
Como se Lina fosse uma prova.
Como se fosse um objeto.
Como se fosse qualquer coisa.
Menos uma criança.
"Não."
Clara repetiu.
Agora mais forte.
"Não vou deixar."
Daniel respirou fundo.
"Clara..."
"Não."
Ela balançava a cabeça.
Desesperadamente.
"Acabei de encontrar minha filha."
As lágrimas voltaram.
"Acabei de encontrar minha filha."
Lina levantou da cama.
E correu para abraçá-la.
"Mamãe."
Aquilo destruiu Clara.
Completamente.
Ela se ajoelhou.
Abraçou Lina.
E começou a chorar.
Como chorara dois anos antes.
Como chorara no hospital.
Como chorara diante de um caixão vazio.
A diferença era que agora a filha estava viva.
E mesmo assim estavam levando ela embora.
Outra vez.
Na manhã seguinte.
Os assistentes sociais chegaram.
Pontualmente às nove.
Acompanhados por policiais.
E por uma psicóloga infantil.
Toda a mansão parecia um velório.
Ninguém falava.
Ninguém sorria.
Ninguém respirava normalmente.
Clara permanecia sentada no sofá principal.
Com Lina em seu colo.
Os braços da menina apertavam seu pescoço.
Como se ela já soubesse.
Como se sentisse o perigo.
Adriano estava ao lado delas.
Com os advogados.
Todos os recursos possíveis já haviam sido protocolados.
Todos negados.
Rápido demais.
Suspeitamente rápido.
Daniel percebeu isso imediatamente.
Mas ainda não tinha provas.
A assistente social aproximou-se.
Gentil.
Mas firme.
"Precisamos ir."
Lina escondeu o rosto no ombro de Clara.
"Não."
Clara sentiu o coração parar.
A mulher tentou novamente.
"Vai ser temporário."
"Mentira."
A resposta saiu da boca de Clara sem pensar.
O silêncio caiu sobre a sala.
A assistente social ficou sem reação.
Porque Clara estava certa.
Toda vez que diziam temporário...
Algo era roubado dela.
Primeiro foram dias.
Depois semanas.
Depois dois anos.
Ela não acreditava mais em promessas.
Não acreditava mais em documentos.
Não acreditava mais em instituições.
Adriano se levantou.
"Onde ela ficará?"
"Centro de Proteção Infantil Monte Azul."
Daniel imediatamente abriu o tablet.
Seu rosto ficou sombrio.
"O local tem denúncias."
A assistente social ficou desconfortável.
"São denúncias antigas."
"Mesmo assim existem."
Ninguém respondeu.
Lina começou a chorar.
"Eu não quero ir."
Clara fechou os olhos.
Porque aquele era o mesmo medo.
O mesmo desespero.
A mesma dor.
Que ela sentira quando arrancaram sua filha da maternidade.
Apenas em outra forma.
Quando finalmente os assistentes conseguiram levar Lina até a viatura oficial...
A menina gritava.
Chamando por Clara.
Chamando por Adriano.
Chamando pelos dois.
"Mamãe!"
"Papai!"
O som ecoou por toda a mansão.
Clara correu atrás do carro.
Descalça.
Chorando.
Sem enxergar nada.
Até cair de joelhos no asfalto.
A viatura desapareceu.
E levou sua filha junto.
Outra vez.
Horas depois.
Clara continuava sentada na frente do Fórum da Infância.
Imóvel.
Sem força para levantar.
Sem força para falar.
As pessoas passavam.
Observavam.
Reconheciam seu rosto.
Algumas tiravam fotos.
Outras cochichavam.
Mas ela não se importava.
Nada mais importava.
Adriano sentou-se ao lado dela.
Em silêncio.
Pela primeira vez na vida.
Não sabia o que dizer.
Porque também estava sofrendo.
Durante dois anos.
Lina tinha sido seu mundo.
Seu motivo para voltar para casa.
Seu motivo para sorrir.
Seu motivo para continuar.
Agora ela não estava com nenhum dos dois.
Daniel apareceu pouco depois.
Trazendo más notícias.
Outra vez.
"O juiz negou nosso pedido."
Adriano ergueu os olhos.
"Qual foi a justificativa?"
Daniel respirou fundo.
"Risco emocional para a criança."
Clara começou a rir.
Uma risada amarga.
Dolorosa.
"Risco emocional?"
Ela olhou para Daniel.
"Levar uma criança para um abrigo depois de arrancá-la da mãe não é risco emocional?"
Ninguém respondeu.
Porque não havia resposta.
Daniel continuou.
"E existe outra coisa."
Adriano percebeu imediatamente.
"O quê?"
O advogado olhou ao redor.
Depois baixou a voz.
"O juiz responsável pelo caso."
"O que tem ele?"
Daniel mostrou alguns documentos.
"Ele já participou de eventos patrocinados pelo Instituto Éden."
O silêncio caiu.
Adriano pegou os papéis.
Leu.
E sentiu o sangue gelar.
Fotografias.
Registros.
Doações.
Cerimônias.
O nome do juiz aparecia diversas vezes.
Sempre ligado ao Instituto.
Sempre próximo.
Sempre presente.
"Você está dizendo que ele tem relação com eles?"
Daniel assentiu.
"Estou dizendo que a imparcialidade dele é questionável."
Clara levantou os olhos.
Pela primeira vez desde que Lina foi levada.
E algo mudou dentro dela.
Talvez fosse raiva.
Talvez fosse coragem.
Talvez fosse as duas coisas.
Mas uma coisa era certa.
Ela estava cansada de esperar.
Cansada de confiar.
Cansada de pedir ajuda.
Se ninguém fosse buscar a verdade por ela...
Ela mesma faria isso.
Naquela noite.
Enquanto Adriano e os advogados continuavam trabalhando nos recursos.
Clara saiu sozinha.
Sem avisar ninguém.
Pegou um ônibus.
Depois outro.
E mais outro.
Até chegar ao mesmo lugar que destruíra sua vida.
Hospital Santa Catarina.
O prédio parecia exatamente igual.
Mesma fachada.
Mesmas janelas.
Mesmo jardim.
Mesmo cheiro.
Seu estômago embrulhou imediatamente.
As memórias voltaram.
A sala de parto.
Os corredores.
As mentiras.
As lágrimas.
Mas dessa vez Clara não estava ali para implorar.
Estava ali para descobrir.
Passou horas observando.
Perguntando discretamente.
Conversando com antigos funcionários.
Até encontrar um nome.
Dona Marta.
Uma enfermeira aposentada.
Setenta anos.
Morava sozinha em um pequeno apartamento na Mooca.
Clara pegou o endereço.
E foi até lá.
Já passava das dez da noite quando bateu na porta.
Nenhuma resposta.
Bateu novamente.
Passos surgiram do outro lado.
A porta abriu alguns centímetros.
Uma senhora de cabelos brancos apareceu.
"Pois não?"
Clara respirou fundo.
"Meu nome é Clara Valente."
A mulher congelou.
Completamente.
O rosto perdeu toda a cor.
Os olhos se arregalaram.
Como se tivesse visto um fantasma.
"Não."
Ela começou a fechar a porta.
Mas Clara segurou.
"Por favor."
A mulher começou a tremer.
"Vá embora."
"Por favor."
"Vá embora."
"Minha filha não morreu."
A frase atingiu a enfermeira como um soco.
Ela ficou imóvel.
Por vários segundos.
Depois começou a chorar.
Silenciosamente.
Devagar.
Como alguém que carregava culpa há muito tempo.
Finalmente abriu a porta.
"Entre."
O apartamento era simples.
Pequeno.
Modesto.
Dona Marta preparou café.
Mas suas mãos tremiam tanto que quase derrubou a xícara.
Clara sentou diante dela.
Sem desviar os olhos.
Sem medo.
Sem hesitação.
"Eu preciso saber."
A senhora chorava.
"Eu não consigo dormir há dois anos."
Clara sentiu o coração acelerar.
"Então você sabe."
Dona Marta assentiu.
As lágrimas escorriam pelo rosto enrugado.
"Eu sei."
O silêncio ficou pesado.
Quase insuportável.
Então veio a pergunta.
A pergunta que Clara carregava havia dois anos.
"Minha filha morreu?"
Dona Marta começou a soluçar.
E respondeu:
"Não."
Clara sentiu o mundo parar.
As lágrimas explodiram imediatamente.
Mas ela precisava ouvir.
Precisava ouvir tudo.
"Então o que aconteceu?"
A enfermeira cobriu o rosto.
"Ela nasceu saudável."
Clara não conseguia respirar.
"Saudável."
A mulher assentiu.
"Perfeitamente saudável."
"Então por quê?"
Dona Marta chorava cada vez mais.
"Porque eles escolheram sua filha."
Clara ficou imóvel.
"O que quer dizer?"
A enfermeira levantou-se.
Foi até um armário antigo.
Abriu uma gaveta escondida.
E tirou uma caixa.
Velha.
Amarelada.
Trêmula.
Ela retirou uma fotografia.
Guardada há anos.
Protegida.
Escondida.
Então entregou para Clara.
"Eu tirei essa foto porque sabia que aquilo era errado."
Clara pegou a imagem.
Olhou.
E sentiu o sangue desaparecer do corpo.
Porque naquela fotografia antiga...
Uma mulher elegante saía do setor neonatal carregando um bebê recém-nascido nos braços.
E Clara reconheceu aquele rosto imediatamente.
Era impossível não reconhecer.
Era o rosto que aparecia em todos os retratos da mansão.
O rosto da mulher morta.
O rosto da esposa de Adriano.
O rosto de Viviane Vasconcelos.
Segurando Lina.
No dia em que a menina foi roubada.