O nome na tela parecia impossível de ignorar.
Viviane Vasconcelos.
A mulher que Adriano enterrara dezoito meses antes.
A mulher que todos descreviam como elegante.
Refinada.
Perfeita.
Mas que agora aparecia ligada a um pagamento secreto de dois milhões de reais para o Instituto Éden.
Ninguém falou durante vários segundos.
Nem Clara.
Nem Daniel.
Nem os convidados.
Nem mesmo Lina.
O silêncio era pesado demais.
Adriano continuava olhando para a tela.
Como se estivesse esperando que aquelas letras desaparecessem.
Como se estivesse esperando descobrir que tudo era um erro.
Mas não era.
Daniel ampliou novamente o comprovante.
O nome continuava lá.
Viviane Vasconcelos.
Conta de origem.
Conta de destino.
Valor.
Data.
Tudo registrado.
Tudo real.
"Isso não faz sentido."
A voz de Adriano saiu baixa.
Daniel não respondeu.
Porque também não tinha resposta.
Clara observava tudo.
Uma parte dela queria odiar aquele homem.
Queria culpá-lo.
Queria gritar que ele fazia parte daquilo.
Mas naquele momento ela enxergava outra coisa.
Adriano parecia destruído.
Como alguém que acabara de descobrir que a própria vida era construída sobre uma mentira.
Lina puxou sua mão.
"Por que o papai está triste?"
Clara olhou para a menina.
E sentiu o coração apertar.
Porque Lina ainda chamava Adriano de pai.
E ele era.
Talvez não biologicamente.
Mas emocionalmente.
Durante dois anos.
Ele a havia criado.
Protegido.
Amado.
Nada poderia apagar isso.
Clara não respondeu.
Apenas acariciou os cabelos da menina.
Pouco depois, Adriano tomou uma decisão.
Todos os convidados foram dispensados.
Os seguranças escoltaram cada um para fora do salão.
Ninguém reclamou.
Ninguém ousou fazer perguntas.
O clima era assustador demais.
Antes de sair, uma senhora elegante aproximou-se discretamente de Adriano.
Era dona Beatriz Vasconcelos.
Sua tia.
Uma das mulheres mais influentes da família.
Ela olhou para Clara com desprezo.
Depois para Lina.
"E você pretende levar essa mulher para dentro da sua casa?"
Adriano não respondeu imediatamente.
Dona Beatriz cruzou os braços.
"Já existe imprensa suficiente atrás da família."
"Ela ficará sob minha proteção."
A senhora soltou uma risada seca.
"Proteção?"
Ela apontou para Clara.
"Você conhece essa mulher há menos de três horas."
Clara baixou os olhos.
Já conhecia aquele olhar.
O olhar reservado aos pobres.
O olhar que dizia que ela não pertencia àquele mundo.
Mas Adriano respondeu antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
"E minha filha a conhece há dois anos."
Dona Beatriz ficou em silêncio.
Pela primeira vez.
Então foi embora.
Mas seu olhar deixou claro que aquilo estava longe de terminar.
Uma hora depois.
Clara entrou pela primeira vez na Mansão Vasconcelos.
O lugar parecia outro planeta.
Colunas gigantes.
Jardins iluminados.
Fontes de mármore.
Escadarias enormes.
Tudo tão luxuoso que parecia cenário de novela.
Clara segurava a mão de Lina.
A menina não soltava.
Nem por um segundo.
Assim que atravessaram a porta principal, vários funcionários olharam para elas.
Os cochichos começaram imediatamente.
"É ela?"
"A garçonete?"
"A mulher da festa?"
"Meu Deus..."
Clara fingiu não ouvir.
Mas ouviu tudo.
Uma governanta elegante aproximou-se.
Seu nome era Célia.
Ela administrava a mansão há mais de quinze anos.
Célia analisou Clara da cabeça aos pés.
Como quem avalia um problema.
"Seu quarto está pronto."
A voz era educada.
Mas fria.
Muito fria.
Clara assentiu.
"Obrigada."
"Lina ficará na ala infantil."
Imediatamente a menina apertou a mão de Clara.
"Não."
Célia sorriu.
"A senhorita Lina sempre dorme lá."
"Não."
A menina repetiu.
Mais firme.
Depois apontou para Clara.
"Com ela."
Célia perdeu o sorriso.
"Isso não será possível."
Lina começou a ficar nervosa.
"Com ela."
"Senhorita..."
"Com ela!"
A voz infantil ecoou pelo hall principal.
Vários empregados se assustaram.
Clara imediatamente se ajoelhou.
"Calma, meu amor."
O uso daquela expressão fez alguns funcionários trocarem olhares.
Como se ela já estivesse assumindo um papel que ninguém autorizara.
Adriano apareceu no topo da escada.
"Lina ficará onde se sentir segura."
Célia ficou imóvel.
"Mas senhor..."
"Eu já decidi."
A governanta recuou.
Mas a desaprovação era evidente.
Naquela mesma noite.
A notícia já havia se espalhado pela mansão inteira.
A garçonete estava hospedada na casa.
Por causa da menina.
Por causa da possível ligação com a adoção.
Por causa do escândalo.
Os comentários surgiam por todos os corredores.
"Ela quer dinheiro."
"Claro que quer."
"Quem não gostaria?"
"Vai tentar casar com ele."
Clara ouviu um deles enquanto passava perto da cozinha.
Suas mãos fecharam-se imediatamente.
Mas ela continuou andando.
Não tinha forças para discutir.
Estava cansada demais.
Machucada demais.
Quando chegou ao quarto reservado para ela, encontrou Lina sentada na cama.
Esperando.
A menina abriu os braços.
Clara quase chorou.
De novo.
Sentou-se ao lado dela.
E Lina imediatamente encostou a cabeça em seu ombro.
Como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo.
Enquanto isso, em outro lado da mansão, Adriano estava sozinho em seu escritório.
Com uma garrafa de uísque fechada sobre a mesa.
Ele não bebeu.
Apenas olhava para uma fotografia.
Viviane.
Sorrindo.
Elegante.
Impecável.
Perfeita.
Mas agora as lembranças voltavam de forma diferente.
Coisas pequenas.
Detalhes ignorados.
Momentos esquecidos.
Quando Viviane disse que não queria filhos.
Quando afirmou que crianças atrapalhavam a liberdade do casal.
Quando rejeitou inúmeras vezes a ideia de formar uma família.
E então...
De repente...
Ela apareceu com Lina.
Insistindo.
Determinada.
Quase obsessiva.
Na época, Adriano acreditou que ela havia mudado.
Agora não tinha mais certeza.
Talvez nunca tivesse mudado.
Talvez tivesse apenas escolhido aquela criança específica.
A pergunta era:
Por quê?
Uma batida interrompeu seus pensamentos.
Daniel entrou.
Com novos documentos.
"O laboratório recebeu as amostras."
Adriano ergueu os olhos.
"O exame de DNA?"
Daniel assentiu.
"O resultado preliminar deve sair amanhã."
Adriano ficou em silêncio.
Amanhã.
A palavra parecia distante.
Mas ao mesmo tempo próxima demais.
Porque ele já sabia.
No fundo.
Todos sabiam.
Já passava da meia-noite.
A mansão estava silenciosa.
Clara não conseguia dormir.
Lina também não.
A menina se mexia inquieta na cama.
Assustada.
Confusa.
Depois de alguns minutos, acabou adormecendo.
Clara ficou observando.
Cada detalhe.
Cada traço.
Cada expressão.
Como se tentasse recuperar dois anos perdidos.
Lentamente, afastou uma mecha dos cabelos da menina.
Então congelou.
Seu coração disparou.
Atrás da orelha direita.
Havia uma pequena marca.
Minúscula.
Quase invisível.
Mas Clara conhecia aquela marca.
Conhecia muito bem.
Porque sua mãe tinha.
Sua avó também.
Ela própria carregava uma semelhante.
Uma pequena mancha escura.
Uma característica genética que sempre aparecia nas mulheres da família Valente.
As lágrimas começaram a cair.
Uma após a outra.
Sem controle.
Ela levou a mão à boca.
Tentando não acordar Lina.
"Meu Deus..."
Seu corpo inteiro tremia.
Aquela marca não podia ser coincidência.
Não podia.
Clara passou os dedos suavemente pela pequena mancha.
E chorou.
Porque naquele instante...
Pela primeira vez...
Ela acreditou completamente.
Lina era sua filha.
Não havia mais dúvida dentro do seu coração.
Nenhuma.
Às sete da manhã.
O telefone de Adriano tocou.
Ele não havia dormido.
Passara a noite inteira revendo documentos.
Fotos.
Contratos.
Relatórios.
Tudo.
Quando viu o número do laboratório, sentiu o estômago afundar.
Atendeu imediatamente.
"Alô."
Do outro lado, a voz da biomédica era séria.
"Senhor Vasconcelos."
O escritório ficou silencioso.
Daniel levantou os olhos.
Adriano apertou o aparelho.
"Já têm o resultado?"
"Temos o resultado preliminar."
O coração dele disparou.
"Fale."
Houve uma pequena pausa.
Apenas alguns segundos.
Mas pareceram uma eternidade.
Então a mulher finalmente respondeu.
"Eles possuem compatibilidade genética direta."
Adriano fechou os olhos.
A biomédica continuou.
"A probabilidade de maternidade é de noventa e nove vírgula nove por cento."
O mundo pareceu parar.
Daniel empalideceu.
Adriano permaneceu imóvel.
Sem conseguir respirar.
Sem conseguir falar.
Porque agora não existiam mais suspeitas.
Não existiam mais teorias.
Não existiam mais dúvidas.
Existia apenas uma verdade.
Lina era filha de Clara.
E alguém havia roubado aquela criança.
Mas antes que Adriano pudesse reagir...
A biomédica acrescentou algo que fez seu sangue gelar.
"Senhor Vasconcelos... existe mais uma informação preocupante nos registros enviados junto ao exame."
Adriano sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
"O quê?"
A voz do outro lado ficou ainda mais séria.
"Encontramos o nome de outra pessoa diretamente ligada ao processo original da adoção."
Adriano apertou o telefone.
"O nome de quem?"
A resposta veio imediatamente.
E fez o rosto dele perder toda a cor.
"Viviane Vasconcelos."